Surpresas da eleição tunisiana

por Juan Cole

 

A Tunísia iniciou a Primavera Árabe, com as massas urbanas protestando com sucesso contra a ditadura de décadas de Zine El Abidine Ben Ali e seus aparentados adeptos do nepotismo, o clã Trabelsi. Os tunisianos foram os primeiros a demonstrar que reuniões-relâmpago podem, se determinadas o suficiente, enganar a polícia secreta e mandar um ditador para o exílio.

Ainda mais impressionante que a revolução de janeiro último, na minha opinião, é a convicção bastante difundida entre os tunisianos de que o caminho adiante é uma democracia liberal, parlamentar. Assim, a eleição no domingo de uma assembleia constituinte que moldará uma nova constituição e formará um governo interino é, de certa forma, a verdadeira revolução.

Por décadas, a maioria dos estados árabes implicitamente aceitou a crítica leninista dos parlamentos como meros instrumentos da plutocracia e totalmente não-representativos. Mas acontece que a principal alternativa à democracia parlamentar não é a democracia direta, mas ditadura opressiva travestida de democracia direta.

A Tunísia é um país pequeno de 10,5 milhões de habitantes, com 4,4 milhões de eleitores registrados. Surpreendentemente, quase todos os eleitores registrados foram às urnas no domingo, com um índice de comparecimento estimado em 80-90%. A sede por democracia demonstrada por tal estatística é alucinante. (Os americanos já não lembram, mas eles ficaram loucos de felicidade com as eleições cheias de defeito no Iraque, em janeiro de 2005, conduzidas em meio a bombas e assassinatos e sob a tutela de uma ocupação militar estrangeira; o comparecimento, no final das contas, foi estimado em algo 30 pontos abaixo do que o que acabamos de ver na Tunísia.)

Houve um impressionante baixo índice de violência durante as eleições tunisianas, como observado pelo diretor do processo eleitoral, Boubakr Belthabit.

Cerca de 81 partidos disputaram as eleições, com um período de campanha que começou no dia 1º de outubro (os americanos podiam imitar essa característica das eleições tunisianas).

Metade dos candidatos apresentados para a disputa teve, em todos os partidos, que ser constituída de mulheres.

O departamento de censura, o “Ministério da Informação”, foi abolido na última primavera, e imprensa e televisão são relativamente livres e vigorosas. O canal de televisão mais assistido é um duro crítico do primeiro-ministro interino. A Tunísia é o único país árabe sem censura estatal.

7.472 pessoas, incluindo 533 estrangeiros, foram credenciadas como observadores eleitorais, com a presença de 15 organizações internacionais.

Embora espera-se que o partido religioso islâmico, al-Nahda (Ennahda), ou Renascença, tenha um bom desempenho, partidos seculares estão chegando em segundo com uma sólida performance, de acordo com as primeiras contagens em cidades provinciais. É improvável que o al-Nahda tenha uma maioria dos assentos ou consiga governar sem fazer coalizão com parceiros seculares.

O resto do mundo árabe está paralisado assistindo as eleições tunisianas. Como tem havido um forte “efeito demonstrativo” no mundo árabe a partir de eventos tunisianos, com os egípcios e líbios emulando suas técnicas de protesto e reforma, uma bem-sucedida eleição e experimento democrático poderá ter um forte impacto na região.

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