Kadafi, Khamenei e as traduções equivocadas

por Daniel Lopes

-- Colonos israelenses --

 

Coisa de quase um mês, já, esse negócio que ocorreu no site Vi o Mundo. Mas eu só soube agora, via Idelber Avelar, da reação de Bernardo Kucinsk a uma tradução que o coletivo Vila Vudu fez desse texto do israelense Uri Avnery. Avnery escreveu, sobre um tipo específico de colonos israelenses em terras palestinas: “Their task is to protect the settlements and attack Palestinians. They are settler-dogs, or, rather, dog-settlers“. A Vila traduziu assim: “A tarefa deles é proteger os colonos judeus e atacar os palestinos. São cães colonos judeus ou, melhor, colonos judeus cães“.

Kucinski reclamou desses “judeus” muito próximos a “cães”. Dou-lhe razão.

Caia Fittipaldi, em nome da Vila Vudu, mandou ao Vi o Mundo uma resposta que vale a pena ser lida na íntegra. Diz ela que, de fato, Avnery não escreveu tantos “judeus” quanto foram traduzidos, mas dá a entender que a ênfase é necessária na versão em português porque o leitor brasileiro é porcamente informado pelo “Grupo GAFE (Globo-Abril-Folha-Estadão)”. Ou seja, o leitor médio brasileiro, lendo Avnery, não saberia que, ao se referir aos colonos, ele estava se referindo a judeus. Daí a necessidade de espalhar o termo ali perto dos cães. Isso é obviamente lorota pura e concentrada, ainda mais levando-se em conta que quem costuma acessar os sites que reproduzem as traduções da Vila já foi informado uma ou duas vezes na vida de que colono israelense não é um sinônimo de druso.

A missivista diz que o importante de uma tradução é “fazer-ver”, não “mascarar”, mas quando ela escreve que “Shakespeare usa centenas de vezes a palavra ‘judeu’ em por exemplo, ‘O Mercador de Veneza’ e, se foi acusado de antissemitismo, só o foi depois de a propaganda sionista ter desgraçado os judeus e o mundo”, acaba mostrando apenas a capacidade de certas pessoas de perder a máscara em um intervalo de seis palavras.

O site do Azenha decidiu não mais reproduzir as traduções da Vila Vudu. Fez bem. Os membros do grupo traduziram e ainda traduzem bons textos aqui acolá, traduções quase sempre razoáveis. Eu mesmo aproveitei algumas em 2008/09 aqui no Amálgama, quando Israel estava cometendo crimes em Gaza. Mas recentemente vi que a ideologia desse pessoal não é a indicada para menores de 18.

Gosto bastante do Avnery. Ele não é o tipo de pacifista pró-Kadafi, como o é a Vila Vudu. Aqui no Amálgama, você pode ler seu artigo em defesa da intervenção da OTAN no país norte-africano — a Vila traduziu esse? ou o terá achado indigno de sua audiência “progressista”? O que sei é que um dos últimos esforços de tradução do coletivo foi exatamente dedicado a uma mensagem de resistência do Irmão Líder Muammar Kadafi. Mensagem transmitida pela tevê estatal síria. Kadafi é aquele que, entre outras coisas, nos anos 90 expulsou algumas dezenas de milhares de palestinos da Líbia como quem tange mosca.

Outra tradução recente foi uma mensagem do aiatolá Khamenei defendendo que “a única salvação possível para as nações da região [Oriente Médio] é o caminho da revolução. Gradualmente, os resultados aparecerão, como já estão aparecendo”. A revolução que lhe agrada não é a revolução democrática, e sim a revolução islâmica, aquela que, como mostra o caso iraniano, prende, tortura e mata liberais, socialistas, feministas etc. É sempre bom ter em mente esses dados lembrados por Jeffrey Goldberg: 1)de acordo com Transparência Internacional, Freedom House e Banco Mundial, corrupção e repressão são mais sérias no Irã de Ahmadinejad do que eram no Egito de Mubarak e na Tunísia de Ben Ali; 2)os protestos pró-democracia no Irã em meados de 2009 foram bem maiores que os que ocorreram até agora na Primavera de 2011.

Mas os associados da Vila Vudu conseguem se empolgar ao mesmo tempo com as revoltas egípcia, tunisiana e com a ditadura iraniana. Outra mensagem do Líder Supremo que eles podiam traduzir, enquanto estão com a mão na massa, é aquela de dias atrás em que ele se diz contrário à criação de um Estado palestino para viver lado a lado com Israel. Há esquerdistas que conseguem relevar inconveniências e dar palanque ao primeiro fundamentalista religioso ou fugitivo da justiça internacional que arrote os jargões ocidentalistas.

O que quero dizer é que se você acredita que ativistas que dão gritinhos com Kadafi e Khamenei só misturam cães e judeus com o fito de aprimorar uma tradução dirigida à ilustração do público consumidor do PIG, eu tenho uma medalha pra você.

2 comentários | Dê sua opinião

  1. Manoel Galdino 06/10/2011 em 11:00 pm

    Freedom House? Sério? Tem um monte de artigo acadêmico demonstrando como a Freedom House é ruim. Eu não entendo muito dos assuntos que você está falando, mas citar a freedom house pra avaliar qualquer coisa não lhe traz muita credibilidade. E, pelo meno no que tange à mensurações de cemocracvia e direitos civis e liberdades em perspectiva comparada, eu entendo um pouquinho.

    É uma questão menor, mas você poderia riscar do texto a areferência à freedom house.
    Dados de corrupção, também são probemáticos pra caramba, mesmo de insituições mais sérias como BM e Transparência. Pra ficar num tema do seu artigo, crieo que há menos ruído (ou a razão sinal/ruído é maior) nessas traduções equivocadas do que nesses bases de dados que você citou aí. Se for pra comparar países muito distintos (EUA com Iran, Brasil com Egito) até vá lá. Mas países próximos, não dá pra confiar nas bases pra dizer que um é melhor ou pior que outro.

    Responder
  2. Eneraldo Carneiro 21/10/2011 em 2:46 pm

    Eles deveriam ter traduzido ‘dogs’ como ‘cães de guarda’, ou ‘cães de guerra’ algo assim, e se era para destacar a identidade dos ‘colonos’, que usassem ‘israelense’ ou ‘israelita’. O que remete a outra coisa, que é o uso da palavra ‘settler’, tanto em si, quanto traduzida como ‘colono’. Pois embora colonialismo, e colonização sejam relativamente mal vistos nos dias de hoje, ‘colono’ não tem uma conotação tão negativa, sugerindo, ao contrário, uma atividade pacífica, e legítima principalmente. Dentro do jogo israelo-estadunidense de se referir aos territórios ocupados como “áreas em disputa”.

    Responder

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

----- Consulte os arquivos do Amálgama ||| Publique ||| Contato ||| Para reproduzir nossos textos -----