Felicidade ambígua
por Renato Tardivo
– Gênero tradicional –
A crônica é um gênero bastante apreciado no Brasil. Somos um povo quente; gostamos de passar a notícia adiante, não temos tempo a perder. A magia da crônica consiste justamente nisto: eternizar o momento.
Sempre tivemos excelentes cronistas: Machado de Assis, João do Rio, Stanislaw Ponte Preta, Rubem Braga, Elsie Lessa, Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos, Cecília Meireles, João Ubaldo Ribeiro, Luis Fernando Veríssimo, Otto Lara Resende, Carlos Heitor Cony, entre tantos outros. Alguns destes, para a nossa sorte, seguem em atividade.
E há nomes mais recentes: Antônio Prata, Xico Sá, Marcelo Rubens Paiva, Contardo Calligaris, Rogério Pereira – para citar apenas alguns.
Mas não podemos deixar de mencionar, também, Luís Henrique Pellanda – jornalista e escritor que vem acumulando uma produção significativa tanto na mídia impressa quanto na eletrônica.
Pela Arquipélago Editorial, na série Arte da Crônica, Pellanda acaba de lançar Nós passaremos em branco – livro que reúne trinta e sete crônicas de alto nível.
– A entrelinha é o visível –
Os textos encarnam o olhar do cronista que se volta à – e parte da – cidade de Curitiba. Não raras são as passagens em que Pellanda concilia a crítica sagaz, da qual nem o próprio cronista é poupado, com o lirismo.
“O homem com a menina no colo”, crônica que abre o conjunto, traz personagens que reaparecerão ao longo do livro: além (evidentemente) do cronista, a menina cuidada por ele (o futuro?), a Pracinha do Amor, o caminho para a creche/escola, uma mulher enigmática – neste texto, três: além da “menina no colo”, uma menina de “uns dez anos” e “a mulher de vestido preto”. O (des)encontro de olhares – “a mulher que observo observa a menina adormecida” – confunde-se com o próprio destino das três mulheres, entre a inocência infantil e a perdição da vida adulta.
“O ônus” é uma das melhores crônicas do livro. Começa assim: “Esta história é tão verdadeira que, para contá-la, serei forçado a mentir, e, várias vezes, embora não me sinta na obrigação de desvelar, ao longo do texto abaixo, todas as minhas mentiras; só algumas”. Como podemos notar, o cronista ousa – e muito. Para atingir aquilo que promete nas primeiras linhas, ele teria de construir um texto metalinguístico primoroso. E consegue: ao se desembaraçar dos “aventureiros a quem toda entrelinha é invisível”, pervertendo a perversão inúmeras vezes, nada resta a não ser a certeza (fugidia) de que a entrelinha é o visível.
É na entrelinha que “o tempo voa, o dia destrói a noite, a noite divide o dia e nós passaremos em branco” – frase que mais lembra um belo verso de poema (não por acaso a referência, na sequência, a Manuel Bandeira). É através da entrelinha que o cronista flana por Curitiba; pela entrelinha – sua janela, fronteira entre o mundo exterior e o interior – que ele espia o “desconhecido invisível”, na crônica “Cinco tiros”, estirado “entre as Lojas Americanas e a Biblioteca Pública”, dividindo com os transeuntes “a ambígua felicidade de ver o que aconteceu”.
– Construção pautada pela desconstrução –
Se “Cinco tiros” faz alusão ao clássico “Uma vela para Dario”, do também curitibano Dalton Trevisan, “Uma pedra para Dario” traz a intertextualidade já no título. Todavia agora, ao invés de vela, pedra: “Como Dario, também foi abandonado pela multidão de curiosos. Mas são morreu, sorte dele, e ao acordar terá que continuar administrando o que restou do seu dia e o fato de que, ei, alguém roubou o seu cachimbo de papel laminado! Se houver alguma vela acesa para ele em algum lugar, será essa e nenhuma outra”. Com efeito, este “provavelmente não é Dario”; sua identidade, a partir do personagem de Trevisan, se delineia pelo negativo: construção pautada pela desconstrução. Aliás, assim também se constrói o olhar do próprio cronista.
As últimas oito crônicas são reunidas na “Antologia dos demônios de Curitiba”. Demônios que, de algum modo, já estavam presentes nos outros textos, mas que, daqui para frente, assumem contornos sobrenaturais – assustadoramente reais. A antologia começa com “O Diabo da Cruz Machado”, personagem noturno, “invisível para a polícia”, ao qual talvez pudéssemos reagir não com ódio senão com compaixão.
E termina com “O Espalha-Bundinhas”, “sementeiro dos nossos desejos”, que faz um “serviço de formiga, atitude de fantasma”. O demônio derradeiro espalha fotos de bundas de mulheres pelas ruas de Curitiba, acrescentando a elas um nome e telefone. A reação dos habitantes no dia seguinte, renovados pela esperança diante da “incerteza final” ao telefonarem para os números registrados nas fotos, é uma forma poética-crítica de fechar o livro. Trata-se do registro da esperança que nos mantém “minimamente vivos” até o dia em que, talvez, tenhamos a sorte de conhecer o patrão desses demônios pessoalmente.
Mas, enquanto esse dia não chega, nós passaremos em branco, ontem (o instante já foi), impelidos por esse ideal de (ambígua) felicidade.
::: Nós passaremos em branco ::: Luis Henrique Pellanda :::
::: Arquipélago, 2011, 192 páginas :::
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