O recado das urnas
por Alan Souza – Encerradas as apurações do 1º turno das eleições presidenciais, o recado das urnas foi bem claro: o brasileiro continua ignorando partidos e votando com o coração. Carisma do candidato e a percepção pessoal (e não política) do eleitor são as chaves para o sucesso eleitoral. A maior prova disso é que, apesar das pesquisas eleitorais apontarem a esmagadora aprovação do presidente Lula (em torno de 78-80%), e que 30% dos brasileiros tem o PT como partido de sua preferência, pertencer ao PT ou ser aliado de Lula não garantiu a vitória de todos, como provou a situação de Aloizio Mercadante (PT) em São Paulo ou a de Osmar Dias (PDT) no Paraná.
O maior exemplo disso vem de Minas Gerais, onde o candidato de Lula, Hélio Costa (PMDB), chegou a liderar as pesquisas com 28 pontos de liderança sobre Antonio Anastasia (PSDB), mas perdeu a eleição graças à força política de Aécio Neves (PSDB). Aliás, também em Minas a eleição para o Senado mostrou a influência das lideranças regionais, com a eleição de Aécio e Itamar Franco (PPS). E, apesar da força dessas lideranças de oposição, em Minas Dilma Rousseff derrotou José Serra e Marina Silva.
Essa salada eleitoral mostra que a percepção pessoal do eleitor sobrepuja as percepções políticas. Uma situação curiosa foi observada, principalmente no Nordeste: os grandes opositores do presidente Lula foram derrotados, e nem sempre por candidatos alinhados a Lula: a resposta do eleitor foi a de que não gostaram de ver esses candidatos batendo em Lula, e não exatamente pelo fato dos mesmos pertencerem à oposição.
A lista dos adversários do presidente castigados pelos eleitores é grande, principalmente na disputa pelo Senado, onde fortes lideranças regionais históricas foram abaladas: no Amazonas Artur Virgílio (PSDB), aquele que ameaçou dar uma surra em Lula, foi barrado pelo eleitor depois de 28 anos de vida parlamentar. No Piauí Mão Santa (PSC) sofreu a primeira derrota eleitoral pessoal em mais de 20 anos, e Heráclito Fortes (DEM) perdeu também a reeleição. No Ceará Tasso Jereissati (PSDB) conheceu a derrota depois de quatro eleições vitoriosas (três para o governo e uma para o Senado). Em Pernambuco a derrota atingiu um dos mais tradicionais campeões das urnas, o senador Marco Maciel (DEM), que ficará sem mandato pela 1ª vez após 43 anos de vida pública, nos quais se incluem dois mandatos consecutivos de vice-presidente da República.
A lista dos adversários de Lula abatidos quando tentavam voos mais altos também é extensa: ainda em Pernambuco Raul Jungmann (PPS), um dos mais notórios opositores de Lula, perdeu a cadeira na Câmara dos Deputados e ficou em 4º lugar na disputa pelo Senado. No Espírito Santo Rita Camata (PSDB) também perdeu a vaga na Câmara Federal e a disputa ao Senado. No Rio de Janeiro Cesar Maia (DEM), prefeito da capital por 12 anos, ficou em 3º lugar na disputa pelo Senado. No Paraná Gustavo Fruet (PSDB) perdeu a cadeira de deputado federal ao ficar em 3º na disputa pelo Senado.
O segundo turno das eleições – inclusive a presidencial – deixa esse recado aos poucos opositores de Lula que restaram: cuidado com a forma como se faz oposição. Se as oposições moderadas acabaram, em muitos casos, consagradas, os opositores ferrenhos no geral amargaram a derrota.
Uma chance de refundar Brasília
Foi por muito pouco: apenas 0,6% dos votos impediram a vitória de Agnelo Queiroz (PT) neste 1º turno. Agora teremos em 31 de outubro a chance da refundação de Brasília. Derrotar Weslian Roriz (PSC) significa enterrar a dinastia que governa o DF há mais de 20 anos. Exceto por um período de 4 anos, entre 1995 e 1999, o DF sempre foi governado por Joaquim Roriz ou por algum dos seus aliados, sendo seu grupo responsável pelas principais mazelas de Brasília e cidades-satélite, como a ocupação desordenada e as deficiências crônicas na saúde pública e na segurança. Esse mesmo grupo nos propiciou o deprimente espetáculo da operação Caixa de Pandora, que mergulhou o DF na maior crise política e institucional já vista por estas bandas.
Por isso o segundo turno será tão importante para o Distrito Federal. Será uma escolha entre um caminho novo ou a manutenção das coisas como estão atualmente. É a chance de ouro de se decretar a maioridade política da capital federal.
Nem tudo por aqui, porém, foi indefinição: Cristovam Buarque (PDT) amealhou a reeleição para o Senado, e de quebra ajudou a emplacar seu companheiro de chapa, Rodrigo Rollemberg (PSB). Aqui no DF uma parte da população teve memória ao votar: Augusto Carvalho (PPS), aliado de última hora de Agnelo Queiroz, não conseguiu reeleger-se deputado federal. Seus ex-eleitores devem ter lembrado que ele foi Secretário de Saúde no governo Arruda e que desancava o presidente Lula em seu site Contas Abertas.
Mas nem sempre se pode ganhar todas. Brasília ganhou um novo deputado distrital neste 3 de outubro, tão ilustre quanto controvertido: o ex-diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, acusado de ser o pivô de um escândalo de corrupção no Senado (lembram dos “atos secretos”?), elegeu-se deputado distrital pelo nanico PTC. Agora é excelência, com direito a assessores, farto salário e muitas mordomias – e ainda por cima imunidade parlamentar…

O grande reduto do conservadorismo se chama Rio Grande do Norte. Nesta pequena província, a candidata do PT recebeu uma das menores votações de todo o nordeste, ignorando as significativas mudanças que o governo do presidente Lula acarretou.
Para o governo, tivemos a eleição da mais improdutiva Senadora da República, Rosalba Ciarlini, que entre os seus 3 projetos (nenhum aprovado) esteve um “voto de aplauso” para a novela páginas da vida.
Para o Senado, o comandante da “CPI do fim do mundo” Garibaldi Alves está eleito, assim como o seu aliado no plano estadual, José Agripino Maia. Ambos conseguiram eleger os filhos como deputados.
Apenas um deputado federal é do PT, a boa Fátima Bezerra. O segundo melhor deputado eleito seria Henrique Alves, primo de Garibaldi, conhecido como “HenRiquinho”. Temos também o ex-namorado de Adriane Galisteu e atual namorado de Sabrina Sato, o playboy Fábio Farias.
Apenas um deputado estadual é de oposição, Mineiro (PT), todos os outros são membros de máquinas oligarcas, modernos pretendentes ao posto de coroné.
Muito Triste…