O dever moral do PSDB

-- Alckmin e Serra em Aparecida --
por Diego Viana – Não espero conquistar a atenção de muita gente, mas insisto em sair da toca com algumas palavras de bom senso, já pedindo desculpas por me apresentar como a voz do bom senso. O que segue é uma exortação à militância tucana, àqueles pequenos pássaros de escassa penugem que ainda piam no ninho, desejosos de voltar ao poder e colocar em prática as ideias (isto é, as sobreviventes) de um partido fundado em meados de 1988 sob a égide da democracia e da modernização. Poderia ser um apelo a todos os níveis do partido, mas temo que os tucanos de alta plumagem, os cardeais, já não tenham volta. Então vou me dirigir somente à base.
Explico. Alguns nomes da lucidez nacional têm alertado para o perigo da introdução de uma agenda religiosa radical na política brasileira. Temos aí, ambos na Folha, os artigos de Jânio de Freitas e Vladimir Safatle – este último bastante assustado, e prenhe de razão, com a perspectiva de um Brasil dos aiatolás cristãos. Como Satafle, muita gente teme pelo futuro se a campanha continuar assim até o final e se o radicalismo religioso resolver cobrar a conta do governo no ano que vem. (E por que não cobraria?)
Também temo, é claro. Mas acho necessário acrescentar um detalhe. Sim, o futuro está em risco. Mas ele segue sendo a única coisa que pode ser salva. Os princípios republicanos estão a perigo no país e não é a primeira vez, tanto é que eles já foram suprimidos em mais de uma ocasião de nossa história. O que realmente se perde está no presente e sua relação com o futuro é que fará falta, muita falta, se o pior cenário se concretizar. Não estou querendo livrar a cara do PT, cuja carta recente, em que dobra os joelhos para o poder religioso, é triste e equivocada. Mas a conta do PSDB é infinitamente mais tétrica.
O PT, como eu disse, se dobrou. Já o PSDB se aniquilou, se negou. Abraçou voluptuosamente uma agenda deplorável e rasteira. Pior ainda, sem um gesto de hesitação, os líderes do partido incineraram e enterraram os princípios fundadores da legenda. Afinal, o PSDB não era um partido udenista. Como foi acabar assim? O PSDB não era um partido reacionário. Como foi acabar assim? O PSDB não era um partido populista, mas hoje reduziu sua campanha a promessas de aumento irresponsável do salário mínimo e evocações à fé mais banal. Como foi acabar assim? O PSDB não era um partido clientelista, mas ao se associar à versão suburbana do voto de cabresto, descambou para isso. Como foi acabar assim? Não há ódio ao adversário que o explique – e o ódio ao adversário já é um princípio indesejável. Não há desejo de vitória que o justifique. Não esqueçamos: depois do voto, vem a gestão. E que gestão se pode esperar de um partido que abdicou de sua identidade, como fizeram os líderes tucanos?
Uma coisa que se deve entender: o PT e o PSDB são partidos enraizados profundamente naquilo que se convencionou chamar de “Nova República”. São os dois principais partidos surgidos das cinzas da hecatombe militar, de que o país saiu mutilado, emburrecido e na bancarrota. Talvez sejam os únicos partidos verdadeiramente novos de alguma relevância: o PDT é o novo PTB, o PFL é a Arena, o PMDB continuou sendo ele mesmo e assim por diante. PT e PSDB, não. São partidos cujo significado é profundamente dependente dessa república. Esses dois partidos não fazem sentido, não existem como tais, sem a observação e a defesa rigorosa dos valores republicanos, recuperados no país com a constituinte de 1988.
Ou seja, é impossível que haja uma erosão dos valores republicanos no Brasil sem que haja, ao mesmo tempo, a derrocada dos dois partidos que mais se nutrem desses valores. Ao perguntar a sua adversária, no primeiro debate do segundo turno, se ela crê em Deus, José Serra não apenas incorporou Jânio Quadros (o PSDB, mais do que qualquer outro partido brasileiro, deveria estar ciente do mal que o espírito desse homem pode fazer ao país). Ele também deu uma estocada certeira no coração dos valores republicanos e, por extensão, no coração do PSDB. O PSDB não tem vocação para UDN, mas está coligado com um partido que tem. Cuidado, PSDB, para não ser fagocitado pelo PFL. José Serra se mostrou disposto a renunciar ao Estado laico em nome do poder. O partido está de acordo? Os militantes estão de acordo?
Chega de explicações, vamos à exortação. A militância tucana tem um dever moral inadiável. Existe uma única atitude que ela pode tomar se quiser salvar seu partido, antes que ele imploda e dê lugar a um cripto-PFL, suspirando de saudades por Carlos Lacerda e Magalhães Pinto. Os militantes do PSDB têm necessariamente de vir a público para, em uníssono, repudiar com veemência a deriva em que se meteram a direção do partido e seu candidato. Os verdadeiros tucanos estarão definitivamente fora do jogo político se falharem em dar um “Não” inapelável às inserções de televisão com fetos e um discurso fascistóide, a que se entregou a campanha de Serra desde o início do mês. Mas isso é só um exemplo: o “Não” tem de ser coextensivo à instrumentalização da festa da padroeira, em Aparecida, dia 12 agora. “Não” à manipulação midiática, “Não” aos santinhos com frases bíblicas, “Não” aos panfletos apócrifos, “Não” à tendência de descambar para aquilo que de mais nefasto já produziu a política brasileira, o lacerdismo que desaguou no golpe de 64 (e não estou sugerindo que caminhamos para outro golpe). O episódio Regina Duarte de 2002 deveria ser vergonhoso o suficiente para o tucano histórico, mas nada é tão ruim que não possa piorar. Neste ano, estamos muito pior.
Amigo tucano que leu até aqui: este é teu dever moral. Exigirá coragem, certamente, e desprendimento. Mas isso vale para qualquer dever moral. Falhando com esse dever, você deixará claro que o PSDB está morto pelas próprias mãos. É possível já o esteja há tempos. Lula se vangloria de provocar a extinção do PFL, mas talvez a verdade seja que o PFL contaminou o PSDB. Algo assim como se a Arena cooptasse o MDB e a ditadura se perpetuasse. Nada mais desastroso para a república brasileira.
“É preciso vencer a eleição”, argumentará talvez o amigo tucano. Vencer a eleição? Que vitória é essa, em que o exército triunfante é aniquilado? Não há mais vitória possível nesta eleição, se para isso for necessário cobrir-se de ignomínia, como tem ocorrido. Um eventual José Serra vitorioso não teria meios de governar, porque é impossível governar sem seu próprio partido. Ora, por enquanto o PSDB é o partido de José Serra, mas, a continuar assim, não haverá mais verdadeiro PSDB e só sobrará a neo-UDN nas mãos do eventual futuro presidente. É esse o governo que o militante tucano quer encabeçar?
“Mas e se perdermos a eleição de novo?!”, exclamará mais uma vez o mesmo amigo tucano. Talvez seja essa a única salvação para o partido. Então será possível deixar enfim para trás os anos 90, retomar os princípios fundadores, repensar o país a partir de suas condições atuais, superar o discurso pretejado de louvor ao Plano Real (que é de 94, e estamos em 2010), reapropriar-se da defesa de valores republicanos, desenvolver propostas modernizadoras para o país… O PSDB, não custa lembrar, é o partido de Franco Montoro e Mário Covas, muito mais do que de Sérgio Guerra e Arthur Virgílio. Cito aqui dois homens mortos, mas é para deixar claro que a morte dos homens não precisa implicar a morte do partido. Amigo tucano, tome em mãos o que é seu, rejeite o que pode aniquilá-lo. Erga-se contra aquilo que destrói por dentro seu partido. Não, essa campanha que tenta colocar José Serra no Planalto não é uma campanha do PSDB! Ou então o PSDB já não existe.
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PS: Fico sonhando com um cenário em que ambos os candidatos repudiariam a deriva religiosa do segundo turno, recusariam em definitivo o apoio de grupos fundamentalistas que exigem dos dois partidos a supressão de seus próprios princípios de base (que são, não custa lembrar mais uma vez, democráticos e modernizadores), e fariam uma eleição em nome do Brasil, não de nosso inconsciente obscurantista. Sei que é delírio meu. Sei que ambos perderiam muitos votos, mas a vida não se resume em receber votos. E, de toda forma, a esta altura temos apenas dois candidatos para escolher, e o peso do radicalismo religioso deveria cair, em vez de aumentar.

“A um eleitor evangélico, que citava Jesus Cristo como o “único homem que prestou no mundo” e que declarou voto em Dilma, a professora afirmou que a petista é a favor do aborto. “Ela é a favor de matar as criancinhas”, disse a mulher de Serra ao vendedor ambulante Edgar da Silva, de 73 anos.” (14/09/2010)
A vilificação do aborto é um ataque à mulher que, por exemplo, foi estuprada e precisa realizar cálculos morais, subjetivos, sobre o futuro da sua própria dignidade humana e saúde mental, para escolher terminar a gestação, muitas vezes passando por cima de suas próprias crenças, já que dois terços das mulheres que fizeram aborto são católicas, um quarto são protestantes ou evangélicas e menos de um vigésimo, são de outras religiões [4] [5]. Nesse caso, trata-se de um machismo ou misoginia que normalmente parte de homens. A irresponsabilidade ou talvez hipocrisia, partindo de uma mulher, impressiona-me na minha subjetividade masculina. A ex-primeira dama Ruth Cardoso, fundadora do Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais da USP, forte defensora dos direitos femininos, ficaria triste. O PSDB se afastou dos seus intelectuais e aniquilou do seu nome a “social democracia”. Tornou-se um partido que retroalimenta-se em seu discurso, para um público cada vez mais estrito, reacionário, cultivando capital político que antes era angariado por gente do PFL e outras sinistras agremiações. Na minha opnião, o PSDB precisa sobreviver. E a sobrevivência do PSDB é a morte política de José Serra.
clap clap clap…muito bem dito !
Acho que não basta a morte política do Serra, ou melhor, não é questão disso, mas de o partido agir como tal e reclamar de volta seus princípios fundadores. Senão, Serra morre politicamente e o que fica para o PSDB? A vergonha de ter descido a esse ponto. Se os militantes não vetarem essa insanidade agora, depois será tarde demais.
Aécio presidente 2014? PSDB é o que é, atualmente, por causa de José Serra.
Mas com o aval dos demais cardeais. Sozinho ele não faz nada. E tá cheio de foto por aí de Alckmin, Tasso, Fernando Henrique etc. ao lado de Serra em missas e quetais.
nonsense..as convicções dos brasileiros nao tem profundidade para radicalizar coisa alguma..menos ainda abstrações como religiões e afins.Ninguem se arrisca por coisas alguma. Desse mal nao morremos.
Acho que não entendeste o ponto do texto. Não é o risco de que os religiosos mandem no país. É o risco de que o PSDB perca completamente e em definitivo suas características fundamentais. Já perdeu enormemente, mas acho que ainda é reversível. Mas o prazo está se esgotando.
Esse post é muito bom.
Se tu encontrares o amigo tucano corajoso e desprendido que te responda ao apelo à moral que lançastes, volte para nos contar.
Ainda bem que pra sonhar ainda não se paga imposto… Mas o segundo turno chega logo…
Creio sinceramente que ainda haja alguns. Só que estão escondidos. Precisam de um empurrãozinho pra sair da toca e espero ter contribuído nesse sentido.
Assim que der, estou indo embora do país.Francamente cansado de tanta hipocrisia, e temendo ter de viver numa ditadura religiosa, pois sim, com o avanço dos neopentecas e da ala retrógada da ICAR alguns temas, projetos de pesquisa, assuntos, matérias em sala de aula, serão, com perdão do trocadilho, abortados de vez das discussões nacionais.
Peço licença para publicar trecho de uma crônica minha publicada no Phallos:
No primeiro mandato de Lula fiquei pasmo com o destaque que a imprensa deu à declaração do cardeal Eusébio Scheid, que disse: “Lula não é católico, é caótico.” Vários jornalistas cercaram o presidente da República para cobrar-lhe uma resposta, como se qualquer cidadão, inclusive um Chefe de Estado, fosse obrigado a ser católico. Pior, Lula respondeu defensivamente, confirmando tal obrigatoriedade.
Agora são os evangélicos e grupos católicos de orientação fascista que querem obrigar os candidatos a alinharem-se aos seus dogmas. Sob o emblema da família e dos valores morais cristãos, escondem seu patriarcalismo, seu ódio a todos que ousam ser diferentes.
O mais cruel é que o PSDB, que já sofreu com uma campanha difamatória semelhante quando Fernando Henrique Cardoso, concorrendo à prefeitura de São Paulo em 1985, teve seu ateísmo explorado pela campanha de Jânio Quadros, agora se utiliza do mesmo expediente sem qualquer receio. Muitos PSDBistas acusam o PT de demonizar FHC ao comparar os períodos em que estes partidos estiveram na presidência. Qualquer pessoa isenta perceberá na campanha serrista do segundo turno que é o próprio PSDB que demoniza o ex-presidente. Não bastasse eles tentarem esconder FHC no primeiro turno, agora vão para o ataque contra pessoas com o seu perfil. Espalham-se os emeios que dizem que os “ateus satanistas” (sic) querem dominar o mundo e instituir uma “ditadura homossexual”, com direito a “comer criancinhas e legalização da maconha”. Escondem ainda mais Fernando Henrique, que participa de um grupo internacional que defende a descriminalização da erva.
Dilma, para não perder votos, enreda-se no esvaziamento do discurso eleitoral e se vê na necessidade de deixar de lado os grandes temas como saúde, direitos humanos e educação. Aliás, o manifesto dos reitores do Brasil em favor de Dilma, por considerá-la a melhor candidata para fazer avançar o ensino superior no Brasil, é um verdadeiro fogo amigo contra a candidata, já que para fundamentalistas falar em avanço da educação é falar em escassez de fiéis, digo, de “domínio do demônio” sobre uma sociedade racional, quer dizer, “ímpia”.
O fato é que, a depender dos líderes cristãos, a Terra ainda seria o centro fixo e achatado do universo e estaríamos tratando as doenças com exorcismos (na verdade, anda há muitos doentes procurando esse tipo de tratamento).
Faz parte do nosso ethos esse tipo de disputa. Haverá sempre um senão aqui e outro alí. Mas vocês acham que a nossa democracia não está bem representativa do que somos? Mostrando todos os nossos costumes? Sobre o tema que domina a campanha, que culpa tem os candidatos? Se eles não possuem o controle do mundo em que vivem, isso é próprio da democracia. Eu gosto de democracia.
Bosco, não vamos confundir alhos e bugalhos. Não existe um pingo de democracia em jogar no lixo toda a história de uma agremiação política para abraçar uma campanha de demonização, difamação e manipulação midiática. A existência de um voto ultra-conservador que se baseia em questões morais e religiosas é democrática, claro. Mas isso é completamente diferente de mergulhar numa onda de violência moral em nome da conquista do poder. Que bom que você gosta de democracia, quem dera todos gostassem!
Muito bom texto!
Gostaria de ver os psdbistas da toca comentando. Será que há mesmo algum? Pelo menos em termos de política regional, pelo menos no Paraná houve o mesmo conchavismo clientelista presumido acima. E com filiados do PSDB nem um pouco afins às idéias do tal partido originário citado acima… (se é que algum dia se interessaram por isso)
Boa pergunta. Acho que é o caso de mandar para nossos conhecidos tucanos. Na verdade, escrevi pensando nisso…
Penso que sair um pouco do esgoto em que se transformou o debate eleitoral pode ajudar na reflexão sobre a escolha mesma que se coloca no momento. O Mauro Santayana ja fez isso e reproduzo aqui paragrafo final de seu artigo de hoje;
“Novamente Paris se levanta. Os trabalhadores sabem que o capitalismo financeiro está exigindo do governo a redução de seus direitos sociais, e a extensão dos anos de trabalho é apenas o início da tão sonhada flexibilização dos novos neoliberais. A ação de Sarkozy e de outros governantes europeus provoca a reação popular contra o sistema de promiscuidade criminosa dos grandes banqueiros – que controlam os mercados mundiais – com os governos corrompidos, situação a cada dia mais insuportável aos seres humanos. O repetido suicídio de trabalhadores franceses, obrigados ao regime de semiescravidão na pátria de les droits de l’homme, é símbolo deste tempo intolerável.”
Sair do esgoto é fundamental. Estamos vivendo um momento forte de transição, em nível global, tanto economicamente quanto politicamente. Em vez de se colocar perante isso, os líderes do PSDB preferem cultivar o ódio interno. O militante do partido não pode aceitar isso passivamente!
Serra, ao que tudo indica, fingindo ser atingido por uma pedra, mas na real foi uma bolinha de papel. Evidências: http://www.youtube.com/watch?v=wsrPo1fjWkw
Foi tirar tomografia e tudo, coletiva de imprensa, repouso recomendado. Lembram do Mario Covas? Com câncer, foi enfrentar a população, levar ovada.
Essa pantomima de ontem de Serra foi um dos momentos mais engraçados da campanha. É incrível que o partido deixe a coisa chegar nesse ponto!
Aquele PSDB criado em 1988 e que defendia a bandeira da social-democracia há muito deixou de existir. Na era FHC, abraçou o neoliberalismo. Agora, anda de mãos dadas com a extrema direita. Uma pena.
Abraçar o neoliberalismo, tudo bem. É uma ideologia como todas as outras. O problema foi o que aconteceu depois…
Salve, salve, grande Diego.
Puxa, que texto, que reflexão. Parabéns. Só você mesmo para injetar poesia no nosso debate político: “Sim, o futuro está em risco. Mas ele segue sendo a única coisa que pode ser salva.” Lindas palavras, de verdade.
Como não sou poeta como você, veja esse vídeo trash (“é da ordem do medonho”, diria um amigo meu), não sem antes tirar as crianças da sala. É a síntese da decadência ideológica do PSDB:
http://www.youtube.com/watch?v=xnpVwqDyHkQ
Abração
É uma tristeza.
Mas texto bom mesmo é o seu, cheio de referências e argumentos fortes.
Aliás, mandei-te um mail.
Abraço
Diego
Sr. Diego.
Seu texto dirigido às bases tucanas, demonstrando sua apreensão com o fim ideológico do PSDB, é bastante revelador. O senhor, que votará na Dilma, escusou-se de escrever sobre o fim do PT. O PT, que certamente admira.
O PT que chegou ao governo em 2003 e, se as pesquisas estiverem certas, deverá continuar no poder mais 4 anos, não é, com certeza, o PT que nasceu no ABC paulista. É verdade que o ideário gramsciano do partido permanece, mas o partido se reformulou porque do contrário não chegaria ao poder. A maior prova? A Carta ao Povo Brasileiro, de junho de 2002.
Mas ainda não cheguei ao meu ponto. Há trechos do seu texto que merecem esclarecimentos e desmentidos. Com a sua licença, vou começar.
1 – Serra não perguntou à Dilma, no debate da Band, se ela acreditava em Deus. O senhor não deve ter visto o debate. O que o Serra disse sobre esse assunto foi que ele sempre acreditou em Deus, já a Dilma, todo mundo sabe, esperava por uma balançada no avião para dar uma rezadinha. Qual o problema, eu me pergunto, de um candidato ser uma pessoa religiosa? O Estado brasileiro é laico, mas a população brasileira, não. É obscurantista tratar da questão do aborto? Então, Diego, se me permite, a esmagadora maioria do povo brasileiro é obscurantista, pois deplorava a legalização ou a descriminalização dessa prática.
2 – O senhor ora insinua que o PFL (atual DEM) é herdeiro da ARENA, ora vê similitudes entre o partido e a UDN. Tais insinuações revelam o seu pouco conhecimento sobre a trajetória desses partidos políticos. Não pretendo lhe ensinar nada, mas esclarecer algumas coisas.
A UDN sempre foi antivarguista e, em muitas ocasiões, participou ativamente de tentativas de golpe. Contra Getúlio em 1954; Contra Juscelino, em 1955; Contra Jango, em 1964. Tanto a UDN como outros partidos, às vésperas do Golpe Militar, aplaudiram as ações de exército. Depois, foram todos os partidos, inclusive a UDN, extintos pelo AI 2, ficando claro que os militares não estavam dispostos a retornar tão cedo à legalidade institucional.
O AI 2 criou o bipartidarismo no Brasil. De um lado a ARENA, governista; do outro, o MDB, a oposição consentida. Os anos foram avançando, e, em 1980, João Batista Figueiredo, promoveu uma reforma política, dentro do processo de abertura do regime, que restaurava o pluripartidarismo no Brasil. Foi nesse contexto que surgiu o PT, o PP, o PDT, PTB e o MDB virou PMDB, e a ARENA, PDS.
Com a derrota da Emenda Dante de Oliveira que pretendia aprovar a eleição direta para presidente da república, os partidos no congresso começaram a discutir a sucessão de Figueiredo. O PDS, num processo de brigas internas, acabou escolhendo Paulo Maluf como candidato a presidente, o que desagradou o general que presidia o Brasil e algumas lideranças do PDS, como Antônio Carlos Magalhães, Aureliano Chaves e Marco Maciel, que saíram do partido e fundaram o PFL. Portanto, Diego, a ligação que há entre o PFL e a ARENA, é que o primeiro foi formado por dissidentes do PDS que não aceitavam apoiar Paulo Maluf. Assim, compuseram com o PMDB que havia lançado Tancredo Neves à presidência. Foram os votos desses dois partidos que livraram o Brasil de ser governado por Paulo Maluf. Talvez você devesse agradecer ao PFL, por isso, porque o PT, no Colégio Eleitoral, marinou.
O irônico, Diego, é que muita gente que participou da ARENA e do PDS estão hoje com o presidente Lula e apóiam a candidata Dilma. O mais conhecido desses, você sabe: José Sarney.
3 – A que panfletos apócrifos você se refere? Àqueles que foram apreendidos pela Polícia Federal na Gráfica Pana e que a diocese da Guarulhos já confirmou a autoria? Faça uma pesquisa e descubra quantas vezes José Serra, candidato ou não, participou da Festa da Padroeira do Brasil. Agora, compare com Dilma e me diga com sinceridade qual dos dois foi oportunista ao participar da missa desse ano? Você acha que um político religioso não deve participar da campanha ou não deve trazer para agenda da campanha, valores cristãos? Tudo bem. Mas a democracia brasileira, por enquanto, ainda garante isso.
Você acusa o PSDB de namorar o lacerdismo. Ora, quem num comício declarou que o DEM, aquele que você chama de PFL, deveria ser extirpado? Quem, usando um linguajar rasteiro, chulo, chamou seus adversários de “turma do contra”, “esse sujeito” e outros termos indecorosos? Você sabe: o presidente Lula. E você diz que é o PSDB que flerta com o lacerdismo.
Você sugere que os tucanos esqueçam a década de 1990. Por quê? Por que estabilizaram a economia? Por que modernizaram a administração pública? Por que fortaleceram as instituições?
Por que os tucanos esqueceriam o seu principal legado? Para o PT, com a vocação stalinista de reescrever a história, tomar como suas as realização dos outros? Não, Diego, o PSDB não morreu e não morrerá ainda que Dilma vença. O PSDB continuará sendo um partido que ajudou a modernizar o Brasil. Que começou os programas sociais que o Governo Lula teve o mérito de ampliar. Que estabilizou a economia. Quer você goste ou não.
Caro Zé Paulo,
Não entendo por que as pessoas ficam todas formais quando vão fazer críticas. A parte do “senhor” é inteiramente desnecessária. Mas vamos ao resto.
Pensei em escrever sobre o PT também, mas ia ficar muito longo. Como eu disse, o PSDB entrou muito mais fundo na lama e precisa sair urgentemente, até porque tem quadros pra isso. Sim, vou votar na Dilma. No Serra é que não, francamente. Principalmente pelos motivos expostos acima. E olha que já votei nele mais de uma vez.
Certamente o PT não é o partido que era nos anos 80, mas ele não perdeu uma característica fundamental, que é ser formado por uma pluralidade de movimentos sociais em constante disputa interna. É por isso que o PT, bem ou mal, chegou até hoje com propostas dignas de se ouvir (concordar é outra coisa), enquanto o PSDB continua preso nos anos 90. Na primeira metade dos anos 90. É claro! Qualquer coisa que o tucano de base queira fazer ou propor é logo bloqueado pelos cardeais! Nem eleger diretório eles podem, porque são bloqueados! Assim fica difícil… Mas o Brasil precisa de um partido com o perfil ideológico (não o perfil organizacional, que é ultrapassado e ineficaz) do PSDB. Ou o PSDB recupera seu motor interno, ou será suplantado por outro partido (tem gente que vê o PSB assim, ou um eventual PMDB reformado por Aécio, mas eu sinceramente não creio).
1- Vi o debate, sim “senhor”. Você pergunta qual é o problema de ter um presidente religioso. Sei lá, tem problema? Acho que não, contanto que ele não ponha o “religioso” à frente do “presidente”. O Serra, por exemplo, vem de um pano-de-fundo religoso, mas nunca foi de usar isso. Agora resolveu ser. O partido deveria bloquear a iniciativa, em vez de incentivar. O partido, não… os cardeais. Se bem que é difícil demais diferenciar esses dois no caso do PSDB.
2 – Engraçado, você escreveu parágrafos e parágrafos de história (nível Wikipédia) e nada desconfigura minha aproximação do PFL (“democratas” só pode ser piada) com a Arena. Quanto ao udenismo (um estado de espírito que ultrapassa em muito a UDN, basta ler Afonso Arinos ou escutar os discursos de Lacerda), basta ouvir o jingle do Serra; “Serra é do bem, Serra é do bem”… Tem que ser muito udenista pra fazer um jingle assim.
Você tem razão, é muito irônico que antigos apoiadores d ditadura tenham se alinhado com Lula. Sem dúvida, nenhum de nós ignora que esses aí pulam de lado em lado de acordo com as circunstâncias. Em todo caso, há que admirar-se a habilidade política (mesmo que você o demonize, como anda fazendo o eleitor do Serra) do Lula. Aliou-se com esse pessoal mas reduziu em muito o poder deles a nível nacional. basta ver a nova composição do congresso. Serra deveria aprender com Lula. Onde já se viu um sujeito com a bagagem do Serra virar apêndice de um acólito do Cesar Maia, como o Indio da Costa? É de chorar! Sinceramente eu esperava muito mais dele. Vê se a Dilma virou um epígono do Temer. Depois dizem que ela é que é o poste…
3 – O que eu falei foi que o Serra INSTRUMENTALIZOU a missa. Aliás, as missas, como se vê pelo que aconteceu no Ceará, onde o padre foi “acusado” de petista porque não queria que INSTRUMENTALIZASSEM a missa dele. ir em cerimônias por motivos eleitorais é mais antigo que andar pra frente. Fazer-se de novo profeta pra ganhar votos é lamentável, ainda mais num partido que já foi sério, como o PSDB.
O PSDB namora o lacerrismo e não é de hoje. Esqueceu do episódio Regina Duarte? E o motivo é simples: o eleitorado lacerdista é cada vez mais o único que sobrou ao partido. Lula é boquirroto, sem sombra de dúvida, mas você está querendo comparar uma série de frases infelizes com uma estratégia que já vem de anos. Não tem escala…
Acho que você leu o texto com raiva demais. Eu não disse que os tucanos têm que esquecer a década de 90, mas deixá-la para trás, sair dela. Por um motivo simples: ELA JÁ ACABOU. O PSDB fez coisas importantes naquele período, para aquele período, mesmo se muitas delas foram feitas nas coxas, como grande parte das privatizações. Só tem um detalhe que o PSDB não entendeu: que a década de 90 já passou, estamos entrando em 2011, isso mesmo, ONZE, e os problemas do mundo são outros. Se o Serra vencer e assumir a presidência, ele vai esperar que o Itamar venha lhe passar a faixa? Ele vai prometer combater a quase-hiperinflação e privatizar a telefonia, os bancos estatais e a RFFSA?
Mas o motivo pelo qual o PSDB não consegue sair da década de 90 é muito simples: não tem uma estrutura interna verdadeiramente partidária, onde idéias surjam e sejam postas na roda, para se desenvolverem e virarem propostas para a administração do país. E por quê? Porque os cardiais bloqueiam tudo. Tem uma analogia muito boa que não lembro de quem é. Ela vai assim: César, quando venceu Pompeu, conseguiu isolar o rival de suas tropas. Então ele esmagou os soldados, enquanto Pompeu conseguiu fugir para o Egito (onde seria assassinado, por fim). Ao final da batalha, sabendo que Pompeu tinha conseguido escapar, Cesar disse: “venci um exército sem general. Agora vou vencer um general sem exército.” Pois bem, o PSDB só tem generais, nada de exército.
Por outro lado, o partido está fragilizado, o que significa que é uma boa chance para o exército voltar e retomar as rédeas, eleger novos generais e assim por diante. Mas tem que arregaçar as mangas. Ficar querendo transferir toda a culpa para os partidos rivais (o PT, no caso), isso não serve. Pra falar a verdade, é coisa de criança.
Como eu disse, a morte do PSDB nada tem a ver com a Dilma, o PT, Stalin ou Robespierre.
Por que eu não gostaria? Eu hein.
PS: Vi que no último parágrafo você deixou de lado essa coisa de “senhor”. Que bom. Nada como o tempo pra soltar as pessoas.
Amigos,
Acho — e vale pros dois lados da discussão acima entre petistas e tucanos — que quanto mais discutirem, mas elaborarão sobre algumas diferenças pouco significativas e mais se afastarão do que interessa discutir, e que é, precisamente, as SEMELHANÇAS que há entre os dois partidos. São praticamente idênticos! Só que o PT é uma espécie de UDN que fala aos pobres. E o PSDB é uma espécie de UDN que fala aos ricos.
Lula não tem nada a ver com UDN: nasceu dos sindicatos, e nada pode ser mais diferente da UDN do que os sindicatos. Mas, como Lula fala aos pobres, tem mais eco entre a UDN que fala aos pobres, quer dizer, o PT.
Se se examinha a história, vê-se que o PSDB é, também, uma dissidência do PT. Engraçado, eu acho, é que tão poucos vejam isso. E tão poucos veem, provavelmente, pq ñ interessa a nenhum dos dois partidos ver o quanto são semelhantes, dado que, graças à ação de Lula (não do PT nem dos petistas, nem do PSDB ou dos tucanos), hoje os dois udenismos estão em campos eleitorais adversários. E Lula fará a sucessora. O que é ÓTIMO para o Brasil, mas pouco acrescenta seja ao PT (que corre o risco de virar outro PSDB) seja ao PSDB (que corre o risco de retroceder para ANTES da UDN e virar, no máximo, um PSD mineiro sem Tancredo, ou um partido paulista da Opus Dei e da TFP — e nada jamais será menos eleitoralmente expressivo que isso).
E é pelas semelhanças, também, que a discussão entre petistas e tucanos tão rapidamente degenera, e vira ‘ironias’ metidas a ‘éticas’ e metidas a engraçadinhas, dos tucanos contra petistas, versus ‘denuncismo’ ingênuo metido a ‘ético’ (mas metido a ‘sério’), dos petistas contra os tucanos.
Em Vila Euclides, em 1979-80 (eu ESTAVA LÁ E VI!), estavam TODOS JUNTOS, no mesmo palanque. E, no chão, já começava a se formar, ali mesmo, uma complexa aliança de gentes de todos os tipos e partidos, de cuja complexidade NEM o PT NEM o PSDB jamais se deu conta, satisfatoriamente. (Aliás, no mesmo palanque estava, tb, dentre outros, também a Democracia Cristã (do Plínio de então, hoje PSOL, que não se dá conta de absolutamente NADA e faz, hoje, papel ridículo, onde bem poderia já haver uma esquerda brasileira consequente).
Os comunistas, vale lembrar, tb se dividiram depois do palanque da Vila Euclides: o PCB aliou-se aos tucanos e aí continua até hoje; e o PCdoB manteve-se neutro, na oposição aos tucanos e PFLs, até que se aliou ao PT para eleger Lula. Mas, na eleição para a presidência da Câmara, em que o PT [não Lula!] montou o “golpe Chinaglia” e derrotou o candidato de Lula, mas não dos petistas, o Aldo Rebelo), o PCdoB declarou-se lulista-antipetista. O que já basta para sugerir fortemente que Lula não se confunde completamente NEM com o PT — ideia com a qual concordo MUITO — além, é claro, de Lula nada ter a ver com o PSDB, é claro.
O PT foi fundado antes do PSDB. Se bem me lembro, o PT, em 1980; o PSDB, em 1986. Na chamada “redemocratização” [só rindo!], a UDN de antes do golpe também se distribuiu entre os dois partidos: a UDN paulista e nordestina ficou com o PSDB; e o discurso udenista despolitizado e metido a ‘ético’, moralista, preconceituosamente despolitizado, muito fundamente enraizado nas classes médias brasileiras, por ação da universidade, da imprensa e da igreja e dos 30 anos de ditadura… esse, tendeu mais ao PT.
Hoje, a UDN metida a ‘ética’ — pouco antes do golpe de 64, falava-se das “vestais da UDN” e as vestais só sabiam falar contra a corrupção do Getúlio-Jango e jamais falavam nem deixavam falar da corrupção dos coronéis udenistas nordestinos — continua distribuída entre PT e PSDB.
Nesse mar de udenismos mais ou menos claros, em que nadam tucanos e petistas é que frutificam discussões como a que acima se lê.
Evidentemente, “a morte do PSDB nada tem a ver com Dilma, o PT, Stálin ou Robespierre”. E nada tem a ver com isso, dentre outros motivos, porque o PSDB não morreu. O PSDB apenas continua a definhar — pq a UDN está sendo derrotada pelos brasileiros que o governo Lula (não o PT) está incluindo na sociedade brasileira (na universidade, por exemplo, e no consumo). E continuará a definhar, se deus ajudar, até desaparecer completamente. E não desaparecerá com estrondo: desaparecerá num gemido, ou em silêncio. Poucos perceberão e ninguém lamentará, quando acontecer.
No frigir dos ovos, sou obrigada a discordar PROFUNDAMENTE, de fato, a esconjurar (TESCONJURO! VADE RETRO!) a ideia de que “o exército” tucano retomar seja lá que rédea for e voltar às ruas. Não posso desejar ver as ruas tomadas por “exércitos” de Dasluzetes iradas, esbravejando direitos de ñ pagar impostos ou direitos de privatizar ou direitos de “ancorar o Brasil ao desenvolvimento do mundo desenvolvido” — o velho sonho de Golbery, em 1952, que até fazia algum sentido quando AINDA HAVIA MUNDO DESENVOLVIDO ao qual alguém podia querer ancorar-se.
Evidentemente o PSDB é totalmente incapaz de ver o que Lula está fazendo, dentre outros motivos pq nem PT nem PSDB são capazes de ver, não algum “lacerdismo” — que ñ existe mais! –, mas o udenismo visceral que há nos dois partidos, mas, felizmente, NÃO HÁ no presidente Lula. E tampouco há em Dilma, felizmente.
Digamos, pra encerrar, que aquela MULTIDÃO que começou a se reunir NO CHÃO (não no palanque) em Vila Euclides, no final dos anos 70, início dos anos 80, apesar de ainda não ter encontrado partido que a manifeste, está hoje elegendo Dilma, em busca de um terceiro mandato para ela própria, para aquela multidão sem partido, e, isso, APESAR tanto de PSDB quanto de PT. Com Lula e com os personagens progressistas dos dois partidos (e de outros, menos votados), contra os personagens atrasistas, udenistas, dos dois partidos e contra todos os partidos atrasistas-atrasistas, como o DEM. Quem morreu, em 2010, foram os ‘capi’ mafiosos do PSDB paulista e alguns velhos coroneis norte-nordestinos. O PSDB continuará, andando cada dia mais para trás. Lembro que Aécio, pra lembrar nome que será lembrado, está trabalhando pra criar outro partido. Resta saber se terá discurso político novo, ou se será só remendo novo em pano velho… coisa que a Bíblia muito espertamente recomenda que não se ponha. Abs.
Oi Caia,
Muito bacana seu comentário. Só quero fazer duas emendas bem pequenas: primeiro, concordo que exista muito desse moralismo udenista desde o início no PSDB e, como você apontou, no PT também. Mas não posso concordar que qualquer um dos partidos se resuma a isso desde o início, nem que ambos continuem se reduzindo a isso. Havia muito de ambição republicana e modernizadora no PSDB da origem, algo que foi ficando para trás, e cujo símbolo máximo, provavelmente, é a ascensão de Alckmin no interior do partido. Quanto ao PT, ele fez talvez o caminho inverso; foi um partido moralista de esquerda que aprendeu a jogar o jogo e colocar em prática muitos de seus projetos, e pra isso deixou de lado aquele purismo babaca que hoje os udenistas do outro lado tanto cobram dele, principalmente quando ficam se martirizando porque Sarney está aliado ao governo Lula. Só por isso já se vê que os partidos não são tão idênticos assim. A propósito, certamente Lula e PT não são coincidentes, mas colocá-los como coisas opostas é tão incorreto quanto. Existe uma interação ali dentro que, a meu ver, até que é bastante fecunda.
A segunda emenda é que não se trata de um exército tucano indo para as ruas, até porque o PSDB não tem exército… Mas de aquelas pessoas que se aproximaram dos tucanos porque viram no partido idéias como “eficiência”, “modernidade”, “democracia” e assim por diante, bloqueiem o poder nefasto dos cardeais do partido e recuperem aquelas velhas idéias republicanas. Mas isso só vai acontecer se essas pessoas já não tiverem todas se mandado e apagado a luz… Talvez estejam hoje no PSB, talvez no PT, talvez sei lá onde. E se for isso mesmo, então é porque o PSDB morreu e só sobrou isso mesmo que você falou: um daqueles partidos fascistóides estaduais de São Paulo, de triste memória.
Abraço
Diego
Eu não sei se isso é pior do que a aliança com Collor, Sarney e o PMDB, em nome da governabilidade. Sobra escolher o que, em gestão, se suporia ser menos pior. Numa análise menos superficial, o PSDB parece ganhar, mas sinceramente não há como saber se o mesmo desempenho, comparativamente superior, mas ainda muito aquém do ideal, se repetiria.
Deveriam fazer os votos nulos e brancos contarem como votos válidos, e, a partir disso, se fazer alguma coisa. Não necessariamente como aquela confusão que havia em se pensar que uma maioria de brancos ou nulos implicaria em uma nova eleição com outros candidatos, que é sonhar alto demais. Mas sei lá, alguma coisa. Para que não fôssemos obrigados a escolher pelo menos pior, ou sermos totalmente “nulos”.
Talvez algo como uma necessidade de ajuste nas propostas de governo. Aliás, acho que sempre que as eleições não se dão por uma vantagem avalassadora, como 85%, deveria ser feito algo como um plebiscito para examinar os tipos de concessões, o que é que deveriam aproveitar do programa do adversário e o que deveriam descartar do próprio programa.
Isso é, claro, supondo que vivêssemos num país onde houvessem mesmo programas claros de governo, apresentação de propostas e planos objetivos, não só expressão de “boas intenções” e promessas mágicas vazias.
Quanta tolice.
O PT e o PSDB são os únicos partidos brasileiros com projetos mais sistemáticos para o Brasil. Não é à toa que estão mais uma vez na disputa pela presidência deste país.
Eles são partidos, até certo ponto, parecidos e fazem parte de um mesmo bolo político que se confunde com a história recente do Ocidente. A narrativa da formação do Estado moderno ocidental, o próprio Francisco de Oliveira, sociólogo esquerdista (que outro dia estava pondo no mesmo saco Lula e FHC), sabe de cor e salteado: no século XX, quando, através da própria experiência histórica, tornou-se manifesta a “fantasia” da tese de Adam Smith sobre a “mão invisível” do mercado, as preocupações com o crescimento exorbitante da miséria, principalmente na periferia das grandes cidades dos países subdesenvolvidos, ganharam foco no debate econômico e social. O papel do Estado reviveu com toda a força, sendo o complexo da administração pública o grande responsável pelo estado de bem estar social das populações, principalmente servindo de suporte de sobrevivência das classes mais pobres. As classes médias e mais abastadas criaram para si um mundo privado e fechado. Passaram, então, a se resguardar o máximo possível dos tentáculos institucionais do Estado, ajeitando-se em colégios particulares, hospitais particulares, condomínios fechados, usufruindo todo o tipo de bens privados, enquanto os bolsões de miséria se acumulavam nas filas da previdência social, nos hospitais públicos, nos colégios públicos de ensino fundamental e médio, aproveitando o que podiam dos impostos do Estado e das políticas públicas oferecidas. Enfim…
Até aí o PT e o PSDB andam de braços bem dados. A diferença surge quando um, o PT, busca garantir melhorias em todos os aspectos do Estado e o outro, a tucanada, quer minimizar o máximo possível as ações próprias do Estado. Com os tucanos no poder nacional, até mesmo áreas notoriamente públicas como a saúde e a educação correm sérios riscos de serem colocadas nas mãos dos interesses estritamente privados. A única ação do governo Lula que o PSDB daria continuidade, se o Diabo permitisse, é exatamente o Bolsa Família, porque é um programa assistencialista que garantiria a sobrevivência eleitoral do PSDB assim como garante a sobrevivência eleitoral do PT.
Mas o PT não ficou só no assistencialismo, nas esmolas estatais. Criou 14 universidades públicas e deu mais qualidade àquelas que já existiam, por exemplo. Para o PSDB, isso não é com o Estado. O Estado, responsável pelo bem estar público, deve ser destruído na mentalidade neoliberal tucana. Por isso, as universidades públicas andavam tão sucateadas na época do governo do Prof. Dr. Fernando Henrique Cardoso.
Não adianta, o setor privado não vai (mas não vai mesmo!) se responsabilizar pela saúde pública, pela educação pública, pela praça pública, não vai. O Estado foi concebido para isso. Ora, se o empresário brasileiro, homem formado dentro desta nação, só se preocupa com a tal “responsabilidade social” quando é “obrigado” pelo governo por meio de incentivos fiscais (ou seja, ironicamente, acaba sendo o mesmo poder público que cuida dessa responsabilidade social), o que podemos esperar de um empresário estrangeiro?
Ruim com o Estado, pior sem ele.
A meu ver, o setor privado tem muito, muito a contribuir para o desenvolvimento de um país, é claro. Mas ele não é panacéia, nunca foi, nunca será. Ele é um núcleo de ação política (sim, o mercado é uma entidade política, não esqueçamos) e precisa estar submetida ao jogo político, sob pena de se tornar uma espécie de Leviatã com fins lucrativos. O PT entendeu isso muito bem. O PSDB… está demorando…
Cheguei até aqui através de um link deixado por um comentarista do blog Viomundo do Azenha, confesso que não me arrependo ter lido inteiramente, quero somente deixar meus parabéns ao Diego Viana e também dizer que para se ter um bom governo se faz necessário para o bem de todos os brasileiros uma oposição melhor ainda, e não o que estamos assistindo através da campanha de José Serra, que na minha opinião mesmo que ganhasse a eleição (o que eu acho muito difícil) jamais terá a vitória, nem conseguirá ficar para o Brasil como um homem público que fez algo de bom pelo seu país, será sempre lembrado com repulsa e desprezo por aqueles que dão um mínimo valor a política com P maiúsculo.
Vou votar na Dilma, já votei em Mário Covas e em Alckimim para o governo de São Paulo, e digo que votei consciente que não queria o José Genoino no governo de São Paulo na época em que optei por Alckimim, mas hoje confesso que dificilmente voltarei a dar um único voto a qualquer candidato do PSDB.
O PSDB parece que foi enterrado junto com Mário Covas, o que ficou não tem demonstrado nenhuma possibilidade de se organizar como uma oposição a altura do povo brasileiro. Espero que depois dessa eleição apareça uma oposição que possa ajudar o Brasil a ser um país melhor e mais justo, que eu acredito deve ser o desejo de todos, tanto eleitores do Serra como da Dilma assim como eu. Grande abraço a todos.
Também cheguei aqui através de um link no blog viomundo de Azenha. Mas uma coisa que não entendo é um partido querer chegar ao poder máximo do estado e logo depois destruí-lo? O estado foi feito para ordenar certas áreas que necessitam desse ordenamento, como pode passar esta responsabilidade para a iniciativa privada-capitalista? Ou pior, privada-capitalista-estrangeira?
O Estado não foi feito para ordernar certas áreas que precisam de ordenamento… O Estado é muito anterior a qualquer idéia de ordenamento. O poder tem uma força de atração enorme, todo mundo quer influenciar os outros, é assim mesmo.
Até que enfim eu leio algo claro e objetivo, que mostra o perigo que o candidato Serra está fazendo o PSDB correr. Ou melhor, os danos que já vem provocando no partido. Nunca tive partido, sempre busco o melhor candidato. Tive sorte de não ter me unido à histeria em massa que resultou na eleição do Collor. Mas votei no FHC e Covas. Em 2002 fiquei perdida. Não sabia em quem votar. De um lado, Serra. Do outro, Lula. Serra me causava a mesma reação que provoca hoje, já naquela época. Lula era uma incógnita. Acabei optando pela renovação. Quatro anos depois, votei novamente em Lula, dessa vez com convicção. Vi que o Brasil cresceu, melhorou, ganhou destaque internacional. Enfim, foi renovado. Agora vem essa eleição e não é mais o Lula. Antes do PSDB definir seu candidato, eu me perguntava onde estava a oposição. Eu queria ter uma opção, para não votar em alguém somente pq o outro candidato não era forte o suficiente. Mas o PSDB colocou Serra, novamente. Não entendi como o partido pode insistir em uma pessoa que, diante de um conflito, escolha a rota da fuga ou a autopiedade. Na época da ditadura, fugiu para o Chile. Na ditadura do Chile, fugiu pros Estados Unidos. Enquanto Prefeito de São Paulo, prometeu cumprir o mandato inteiro, mas não o fez. Agora, como candidato, usa táticas risíveis. Distribui santinhos, distribui alimentos no Rio Grande do Sul, faz uma tomografia por conta de uma bolinha de papel.
O PSDB não era assim. E provavelmente não quer ser assim, mas está se deixando levar pela situação. Está inerte. E a pergunta que fica, claro, é se ficará inerte durante quatro anos. O ego de Serra demonstra que não haveria diálogo com o partido. Seria o Presidente dando ordens e o partido sem voz.
O PSDB está lutando para eleger um candidato de outro partido, um partido que não existe, ou melhor, um partido que existe e se chama Serra.
Concordo plemamente. Sou PT mas não há como negar que o PSDB é importantíssimo para o Brasil. Mas não esse PSDB do aborto, da Regina Duarte, do Serra. Longa vida ao PT e ao PSDB, mas uma longa vida dígna. Gostaria que tanto PT quando PSDB pudessem conversar mais, e de preferência, sem o PMDB.
Cara, eu realmente não SUPORTO o PSDB!!! Odeio a forma como eles governaram de 98 a 2002 e não suporto a politicagem feita em ano de eleições para voltar ao poder…..
Mas eu queria ressaltar que me impressiona e muito um tucano reconhecendo as mesmas coisas que eu, mesmo divergindo politicamente, e concordando que essa corja que está no seu partido só mal faz!!!
Queria te deixar os parabéns pelo esclarecimento e agora eu vo ver que existe uma luz no fim do túnel tucano…. Tomara que vcs reformem o partido… Todo mundo só tem a ganhar!!
Quem disse que sou tucano? Já votei no PSDB, mas também já votei no PT, no PV, no PSB, no PDT…
Brilhante artigo. Lúcido e coerente. Pena, no entanto, que a volúpia com que se tenta impingir o nome do José Bolinha, transformou esta eleição numa batalha de vale tudo em que a vitória deve ser conquistada a qualquer preço. Aqui jaz o PSDB. Qualquer que seja o resultado do pleito.
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De todo modo, fica a carta da Dilma com compromissos sobre preceitos religiosos. Se ela vai conseguir virar votos com isso, ninguém sabe. Nem mesmo se seguirá o que assinou e divulgou, quer não seja eleita ou quer seja. Talvez tenha servido para ela ser mais clara sobre os vários assuntos em que qualquer candidato à presidência é questionado.
Pois, é como eu disse. O PT se dobrou e fez a carta, que em todo caso tem termos muito menos precisos e concretos que a adesão absoluta da campanha de Serra não só à questão religiosa, mas a tudo que há de udenista no Brasil até hoje. Com um estalar de dedos, Serra conseguiu transformar o PSDB no partido do atraso. Quem diria!
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Caro , sou Petista e talves não devesse dar opnião em casa alheia , mas a tentação foi grande demais , concordo com o TEXTO , muito lucido , é hora de se repensar e inclusive de se repensar o ódio PT e PSDB , quando se estes dois partidos construisem uma agenda minima , poderiam realmente fazer um governo de centro-esquerda e afastar de vez da politica os politicos que mandam no brasil desde os tempos da Ditadura Militar , o engraçado é que continuam usando táticas que não deram certo nas 3 ultimas eleições , e-mails que eu recebi em 2002 continuei a receber em 2010 com as mesmas acusações só mudando o nome de LULA para a DILMA , a cultura do medo depois de 8 anos de Governo do PT não funciona mais , creio que o PSDB precisa se repensar , o partido tem ótimos quadros , mas ao colocar o ABORTO e o HOMOSexualismo , como itens para atrair a IGREJA o mesmo acabou se afastando da população e se afastando do seu eleitor tradicional , ao esconder o GOVERNO FHC , ao se apresentar como continuidade do LULA , usando a sua imagem no horario politico , o PSDB ficou como o milionário saudita , que cansou de ser homem , trocou de sexo e virou mulher , cansou de ser mulher e quiz voltar a ser homem , e agora acho que nem ele mesmo sabe o que é . o PSDB precisa se decidir ou é de esquerda ou é de Direita e se livrar do DEM