Uma crítica a “Tropa de Elite 2″

-- Padilha (dir.) no set --

por Bruno Cava – José Padilha absorveu a crítica. Embora rico em bilheteria e vencedor do Urso de Ouro (Berlim), Tropa de Elite (2007) fora duramente castigado pela crítica de esquerda. Exaltação da violência, apologia policial, achatamento maniqueísta, pulsão de morte, — tais imputações irritaram o diretor, então conhecido por sua sensibilidade social em Ônibus 174 (2002). Nesse sentido, Tropa de Elite 2 esforça-se conscientemente em responder às acusações e redimir o diretor.

Ao contrário do primeiro, Tropa de Elite 2 empreende uma abrangente analítica do poder. Analisam-se as relações íntimas entre comércio de drogas, milícia, mídia, polícia e política. Menos que operações policiais e sua dinâmica de guerra, trata-se de esquadrinhar os vínculos ocultos das instituições, a realidade além da ideologia, as operações moleculares que sustentam o funcionamento do “Sistema”: as negociatas, os conchavos, as alianças políticas, o tráfico de influência, as propinas, as manipulações televisivas, o financiamento das campanhas eleitorais, os passeios de iate regados a uísque e mulatas de programa.

Mais do que sociológico, o filme galga dimensão antropológica. A “preparação do elenco” faz de tudo para rechear os diálogos de trejeitos e linguagem coloquiais, quiçá cafajestes, como mais um signo da fusão entre polícia e bandido. Na linha dos filmes de ação americanos dos anos 1980, os personagens expressam-se por frases de efeito, pontuadas por caras, bocas e armas em punho. Personagens rodriguianos sem qualquer escrúpulo moral, que fazem disso a sua identidade mesma.

Em Tropa de Elite 2, o mal deixa de habitar o inferno. Não mais transcende este mundo, como o outro absoluto do humano, a quem só caberia exterminar. Neste filme, o mal passa a ser imanente e pervasivo. O funcionamento íntimo do “Sistema” depende dos circuitos da violência, que legitimam o discurso da paz e, logo, a dominação dos territórios pelo esquemão polícia-milícia-política. Sai o maniqueísmo religioso, entram as humanidades acadêmicas. Deixa o palco o anjo vingador de preto, entra o militante esquerdista vestido de “Human Rights”.

Findo o maniqueísmo, Nascimento não sabe mais para quê e por quem mata. Matar tornou-se um ato vazio, fútil, mecânico, um mero estalar de uma máquina autorreplicante e assustadora, chamada Sistema. A crise de consciência do protagonista é a descrença na polícia e na justiça, agora reimplicadas como válvulas da grande máquina.

Aí está a maior qualidade, mas também a maior impostura de Tropa de Elite 2. Depois de tantas seqüências destrinchando uma equação complexa e de múltiplas variáveis, o enredo converge em travelling na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Em off, o herói dá o veredito: “o Sistema é foda”. Todos estão implicados numa monstruosidade que não cessa de expandir seus tentáculos, para aprofundar seu domínio, para cooptar ou anular as resistências. De qualquer forma o Sistema é onisciente e onipotente, e está sempre um passo a sua frente.

Na lógica apocalíptica, em que o Anticristo triunfou sobre a Terra, sugere-se que o único caminho para a esquerda é uma intervenção de fora, um ato radicalmente diverso e antissistêmico. Eis a pureza revolucionária, incorporada por Fraga. Para combater o Sistema, é preciso um rasgo messiânico, de fora da história, como na cena do discurso indiscriminado de Nascimento, na assembléia legislativa, contra a PM e a classe política como um todo.

Com esse final, a sensação de assistir a Tropa de Elite 2 é semelhante à de ler algumas dissertações mais “radicais” das humanidades. Bem orientadas e escritas, reforçadas por referências consagradas, com insights e exercícios de estilo, tais dissertações amiúde concluem sem propostas concretas, reduzidas a ilações vagas contra o Sistema. Tem-se um pessimismo que nada tem de radical, mas de cômodo e sem inspiração. No filme, depois de uma analítica do poder tão consistente e cuidadosamente fundamentada, o trabalho perde força. Perde porque acusa-se a torto e a direito, põe a culpa abstratamente no Sistema e descarta-se a política como atividade indispensável da democracia. Quer como visão ingênua/purista de certo esquerdismo (PSOL etc), quer como ranço apolítico de certa classe-média, a crítica ao “Sistema” esvazia-se.

Filme de ação com elementos de melodrama e cinema político, Tropa de Elite 2 não choca como o antecessor, naquela exposição crua e vibrante do “trabalho sujo” feito em nome da sociedade, mas por sua vez aprofunda a análise e, apesar das limitações, atinge seus alvos.

23 comentários | Dê sua opinião

  1. marcflav 21/10/2010 em 10:36 am

    Não existem democracias no mundo, na minha opinião, camará. No Brasil, temos uma oligarquia de valores e crenças que impedirão quaisquer tentativas de “democracia direta”, muito embora uma “sensação de liberdade” exista por aí, tal como válvulas de escape de panelas de pressão. Orwell foi muito feliz em sua versão do totalitarismo, da relação 80/15+5 que sustenta o imperialismo cultural que nos domina ha muito muito muito tempo… Mais: no Brasil, o estado é capitalista, o governo é empresarial (familiar?) e o povaréus adora os enredos das novelas da tv bobo. E por falar em enredos, fica aí um link pros buscadores da verdade:
    http://congressoemfoco.uol.com.br/noticia.asp?cod_canal=1&cod_publicacao=34918

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  2. Denis Correa 21/10/2010 em 1:39 pm

    Bom texto. Realmente senti o mesmo vazio da crítica à política, a falta de alternativas, que fazia muito sentido para mim quando ouvia Legião Urbana e Paralamas do Sucesso, anos atrás, porém depois do Mensalão a coisa mudou muito, tive que amadurecer e exigir uma maior reflexão para compreender a política. Porém, ainda sou um fã do filme, pois acho que do ponto de vista da emoção causada no público, esta raiva contra o “sistema” funciona muito bem, e as bandas brasileiras exploravam isso na década de 80 e 90 (as músicas que encerram os dois filmes bebem direto neste tipo de música).

    Acho que as coisas vão mudar, melhorar, mas a mudança não vai passar na TV nem no Cinema, e ela nem vai nos servir para criar qualquer tipo de emoção.

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  3. Nóbrega 21/10/2010 em 2:26 pm

    Oi Bruno, lendo sua crítica de Tropa de Elite 2, que acerta em cheio vários pontos, não pude deixar de considerar que talvez você tenha exagerado em sua militância – que obviamente reflete nos seus sempre bons textos. Fiquei pensando na velha discussão sobre o papel da cultura e que impacto ela tem na política. Historicamente, a única ocasião em que a cultura teve influência real numa situação política foi no famoso artigo “j’accuse em que Émile Zola escreveu uma carta aberta ao Presidente da França exigindo a libertação de um preso – o caso Dreyfus. Não dá para esperar, portanto, que um filme mude uma situação complexa como a questão da violência e da corrupção, nem que aponte soluções que os próprios políticos não conseguem encontrar. Levantar questões é o máximo que se pode esperar de um cinema engajado. A negação do Sistema já é o primeiro passo da dialética. Ou você tem exemplo em contrário, de filme que resolva questões políticas que ainda não foram confrontadas pela realidade? Uma pequena provocação.

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    • Bruno Cava 25/10/2010 em 12:37 am

      A mim, o problema com o filme está basicamente no travelling de Brasília e na ilação “O sistema é foda”. Desnecessário extrapolar, concluir além do que todo o material fílmico anterior permitia. É pretensão demais, e acaba soando como truque. Como assim, está tudo tomado pelo Sistema? Um discurso de estado de exceção tornado regra, como na filosofia de Giorgio Agamben — algo a se combater por sua generalização grosseira e infertilidade crítica. Discurso do PSOL, do Francisco de Oliveira, do Paulo Arantes.

      Vou usar um coringa: Terra em Transe. Um filme que deslinda de um modo sintético, alegórico, os dilemas e conflitos do Brasil no começo da década de 60. De um lado, a esquerda populista, intelectualizada, culta; do outro, a direita moralista, modernizante, promíscua. As contradições políticas vertidas em drama poético. O debate da esquerda divide-se em antes e depois de Terra em Transe. Não sou é que falo isso, é a geração tropicalista. Nesse filme, Gláuber não tece ilações, não faz uma “grande narrativa”, mas um diagnóstico fino, emblemático, de um momento histórico, e dispara uma saída convulsiva, o transe de Paulo Martins, o lúcido apaixonado capaz de ir além da dialética esquerdismo x direitismo. Ele não está contra o Sistema como um todo, ele tem uma posição bastante material e datada sobre a luta. Isso é materialismo histórico: implode as condições de sua superação, a partir da concretude. Não por acaso depois de Terra em Transe entrem em cena os artistas do dito “cinema marginal”, além das ingenuidades, já avançando sobre outro terreno político-estético.

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  4. Rafael Dubeux 21/10/2010 em 10:43 pm

    Excelente critica! Tambem me passou um ar simplificador a critica generalista ao “Sistema”, como se alternativa institucional nao houvesse. Parabens! Belo texto!

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  5. Thais 21/10/2010 em 10:50 pm

    Exatamente a mesma percepção que eu. Ouvi muita gente dizer que saiu do cinema angustiado, como se não houvesse nada que pudessemos fazer. Nada disso. Brasilia foi apelação. Mergulhou todos os politicos no mesmo saco de corruptos endinheirados.

    Também ouvi muita gente comentando que se o filme tivesse estreado antes das eleições, ele teria mudado o rumo da politica no Rio. Mentira! Garotinho e sua trupe estão ai no cenario até hoje. Vi gente achando que a milicia era UPP, o que não tem exatamente NADA a ver.

    Fora isso, gostei bastante do filme.

    Otimo texto, parabéns

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    • Bruno Cava 25/10/2010 em 12:42 am

      Pois é Thais, também tive essa sensação: gostei, mas com ressalvas.

      Embora o comichão tenha sido menor do que no primeiro Tropa de Elite, cuja grande qualidade, por sinal, é incomodar-nos nessa dialética entre juízo de gosto e juízo ético.

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  6. Samuel Vaz 23/10/2010 em 11:44 pm

    Crítica interessante. Não devemos nos esquecer, no entanto, de que a Sétima Arte não precisa se responsabilizar por uma discussão política e social aprofundada, com soluções para vencer o tal sistema foda. Tropa de Elite 2 não é um documentário, e por mais que seja criticado da forma como foi aqui, é apenas um filme de ficção com um boa dose de catarse capaz de fazer com que busquem ligá-lo à nossa realidade. Analisemos um filme do ponto de vista de roteiro, atuação, direção e produção, por favor, é bem mais coerente fazermos assim…

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  7. Pedro Teixeira 24/10/2010 em 2:59 am

    A parte da virtuosa e eloquente escrita, da acertada análise que não deixa escapar em nada o núcleo do filme, não posso concordar, no entanto, com o que você diz aqui: “No filme, depois de uma analítica do poder tão consistente e cuidadosamente fundamentada, o trabalho perde força. Perde porque acusa-se a torto e a direito, põe a culpa abstratamente no Sistema e descarta-se a política como atividade indispensável da democracia”

    É ao mostrar Brasília que, na minha opinião, ele aponta a prática política como ambas causa e solução do problema que o famigerado Sistema apresenta. Se mostra um sistema, cuja base é o povo e que ao mesmo tempo é causa determinante de qualquer futura mudança.

    A grande lição do filme é que a luta armada, por mais justificada que seja, não é suficiente — pois não, por si só, angaria votos suficientes. Numa sociedade cujo Estado é ausente, aquele que primeiro ocupar-se de distribuir as funções que deviam ser suas torna-se legítimo pra governar. Daí a necessidade de um reposicionamento da atuação do Estado.

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    • Bruno Cava 25/10/2010 em 12:36 am

      O filme só teria a ganhar suprimindo a extrapolação para Brasília e o tal Sistema. O diretor foi pretensioso demais, e errou a mão, indo além do que o material fílmico permitia concluir de modo consistente e analítico.

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  8. eduardo 24/10/2010 em 10:23 am

    O filme é feito para quem assiste gostar. Como o diretor fala quem não teve vontade de dar porrada num Deputado, ou seja, fica no lugar comum. E faz o jogo para todas as torcidas, até na hora de falar mal dos “direitos humanos”, que muita gente que estava no cinema gosta, mas também mostra que os tais “direitos humanos” é que salvam o mocinho, muito embora, não de a devida enfase a tal. Não entra noutro e forte braço do sistema, o Judiciário. Enfim, o filme é bem feito, mas feito para o lugar comum. Será que o que acontece dentro do sistema é isso, ou isso, é o lugar comum que o sistema permite que se veja. Parentesis importante: um grande financiador do filme foi a Prefeitura de Paulinia. O sistema financia a festa, aliás, a Prefeitura de Paulinia, passou a financiar o cinema como forma da sua adminsitração faraonica de anos atrás. Vá visitar Paulinia, uma das cidades mais poluidas do Brasil, que mantém os fora dos sistema distantes, a poluição dominando o ar, e para felicidade do cinema, financia o nosso novo paladino do cinema nacional.

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  9. Everton 24/10/2010 em 10:59 am

    Não acho a crítica vazia, nem no primeiro e nem no segundo filme. Não acho que um filme, dissertação, tese, livro ou qualquer coisa que o valha tenha que se busque crítico tenha também “propor” um novo modelo. Acho que o filme até aponta para essa necessidade da política, justamente porque o que ele denuncia e critica é a despolitização da política e a sua submissão à uma série de interesses pessoais. Os Sistema ali não é uma abstração, mas esse conjunto de interesses pessoais distintos (e, as vezes contraditórios) uns dos outros, mas que, no fim das contas formam um grande discurso despolitzante.
    Se por um lado o diretor responde sim às críticas do primeiro filme, não é ao mudar seu foco, mas ao tornar mais claro sua aguçada crítica: o BOPE não seria só uma policia fascista, mas uma entre as diversas instituições fascistas (o resto da polícia inclusive), e portador de um fascismo tão radical, tão purista (lembremos do constante desejo moralizador de Nascimento), tão extremado, levado ao seu limite (matar como parte da política), que ela acaba por constestar os outros fascismos menos radicais e, por consequência, todo o Sistema de fascismos….

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    • Bruno Cava 25/10/2010 em 12:33 am

      Salve, Everton,

      Você tem razão que propor um modelo é tão abstrato quanto condenar o sistema como um todo, isto é, o Sistema, com maiúsculas. Por outro lado, o filme tem propostas implicadas, oferecidas mediante o comportamento dos personagens. Tem o caminho de Matias, que decide negociar com o Sistema e é por ele assassinado. Tem o de Fraga, que se torna deputado, que se opõe por dentro, mas bastante impotente, incapaz de evitar a morte de seus aliados, e mesmo dos protegidos, no começo.

      E tem a de Nascimento/Padilha (a narrativa permite essa sinonímia), que resolve ir para fora do sistema de um modo radical, achacá-lo como um todo, pôr a culpa em toda a lógica da política de segurança e da polícia (devem acabar!), como se fosse possível refundar o sistema do zero, um outro sistema, uma revolução redentora nas mãos dos homens bons.

      A triste constatação é que tais utopias redentoras invariavelmente culminam em incêndios revolucionários onde os primeiros a ser consumidos são seus líderes mesmos.

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  10. Everton 24/10/2010 em 11:11 am

    E, como historiador, devo discordar do Nóbrega: nem sequer é possível separar essa idéia de cultura da de política. É ilusório achar que se as coisas não são mecânicas a ponto de as artes intervirem diretamente e mobilizarem forças sociais para a política, não haja relação entre arte e política. Historicamente as coisas são absolutamente inseparáveis. Não é possível pensar em Revolução Francesa sem a literatura popular, o “baixo iluminismo”, no Maio de 68 sem o cimema, na Estatização geral da modernidade sem o Renascimento artístico…tudo está imbricado, mesmo que não de maneira mecânica

    Responder
  11. Ivonilda 24/10/2010 em 2:41 pm

    Bruno,

    discordo em parte da sua tese. Primeiro, me identifico com essa sua preocupação com “propostas” ou “teses” que não dão em lugar algum, ou que são lugar comum, como alguém afirmou nos comentários. Mas discordo no tocante ao principal, que consiste na idéia de que o filme não conclui nada de forma concreta. Para mim, ele conclui nada medida em que se posiciona como uma obra de ficção, quando o narrador mesmo fala que qualquer semelhança é pura coincidência. Quando eu falei no meu texto que Tropa de Elite 2 incorpora discursos, não esclareci completamente essa questão, mas para mim, o poder do filme está justamente em incorporar esses discursos não como uma tese científica, mas como algo mais próximo da arte mesmo, mais próximo de uma verdade que não pretende ser colocada como “falseável”, sequer “comprovável”. Claro, o filme conclui algo, isso a gente nota mesmo nas entrevistas com o Padilha e com o Wagner Moura – alguns delas podem ser vistas no Youtube – , mas essa conclusão é executada de forma expositiva, e um tanto distante do plano “ideológico”. Por este e outros motivos considero que o fato de os inimigos serem outros uma boa estratégia para se afastar cada vez mais do maniqueísmos, particularidades e, por que não dizer, “teses” – dessa forma que a gente as conhece.

    Não sei se você lembra de uma das nossas conversas sobre o modo como a arte se coloca. Inclusive, quando eu falei que concordava com você no que diz respeito aquele vídeo do DilmaBoy. Pois é, eu ainda acho que o grande poder de mudança, e isso se aplica também ao caso do filme do Padilha, está na arte, na arte que incorpora a realidade e a encarna. Na arte que supera as fronteiras do dito e não-dito. Sabe aquela história dos hermeneutas que afirmam que quando a gente esquece as regras de uma língua, por ex., é porque ela já se tornou natural e a gente conseguiu aprender? Penso algo semelhante da arte. Tropa de Elite 2 não atingiria o público, por que não dizer as massas, se não fosse “cinema”.

    Acho que alguns autores podem nos ajudar nessa compreensão, talvez os frankfurtianos, mas como não dei ainda devida atenção ao trabalho deles, não posso comentar a respeito.

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    • Bruno Cava 25/10/2010 em 12:27 am

      Poxa, mas o problema com alguns frankfurtianos é justamente que, para eles, está tudo dominado e instrumentalizado, então a sua crítica parece se restringir a um orgulho diletante, um saudosismo da erudição esmerada, contra toda forma de cultura pop e arroubo artístico.

      Mas Maria, à parte disso, o caso é que, acho eu, uma crítica eficaz deve ser muito bem ancorada em relações de poder, em diagramas de força, numa análise fina do poder e da luta. O filme vai bem quando analisa as conexões entre território, instituições, eleições, propaganda, televisão, no âmbito da cidade do Rio de Janeiro, e daí a sua força crítica, e daí acertar os alvos.

      Porém, não dá pra engolir aquela extrapolação praticamente gratuita, “do nada”, no travelling de Brasília. Nem a ilação — ilação das brutas — de que o Sistema é foda. O sistema passa a ser escrito como Sistema, e os alvos generalizam-se, esfumam-se, dissolvem-se, assim como se dissolve o sujeito que critica, logo a crítica mesma.

      Isso não afasta em nada a carne do filme, a sua pulsação de violência e matéria, muito embora às vezes pareça mesmo decair no maniqueísmo. Existem os bons que, cada um a seu modo, acreditam no sistema e agem honestamente (Fraga, Nascimento, Matias), e os maus que só pensam em interesses egoístas e subvertem o sistema a seu favor (os outros). Na moral do filme, não adianta transigir que uma hora o bicho pega (veja o destino de Matias), restando ao justo colocar-se totalmente de fora para atacá-lo como um todo (Nascimento, que, na lógica da narrativa, pode-se dizer que fala por Padilha).

      Abraço.

      Responder
  12. Mário SF Alves 25/10/2010 em 8:57 am

    É verdade. De fato, a começar pelo título do filme, em Tropa I, o título bem que poderia ser Tropa de (a) Elite. A questão do sistema é “realmente foda”. A importância da dialética anteriormente cogitada é válida e fortalece a argumentação. Nesse sentido, algo que valeria a pena discutir é esse segundo turno da eleição presidencial. É claro que há um clima de desespero no núcleo da oposição demo-tucano e na possibilidade de perda de privilégios de certos setores da imprensa. E, talvez o mais desesperador: some-se a isso a possibilidade de se estancar de vez a sanha privativista. Imagine, só para fins de breve consideração, os trilhões de dólares do pré-sal, os trilhões de dólares do nióbio, os trilhões de dólares da biodiversidade vegetal, e imagine a reação grande irmão do norte e de seus aliados de sempre no Brasil. Não é à-toa a sordidez dessa campanha, atropelando até às entranhas as regras do jogo institucional democrático e apelando para o que há de mais vil no campo da oratória: a negação/inversão/virtualização da realidade. Vide o escândalo da bolinha de papel e a retórica do candidato demo-tucano. E, mais: a posição do jurista Hélio Bicudo e da ex-ministra Marina Silva. Ufa! Ainda bem que o arrazoado do jurista é fundado em pelo menos uma grande contradição séria e insuperável e, portanto já não mais preocupa. Lamentável que a posição da ex-ministra ainda não seja possível entender. Será que vai permitir a volta dos FHC e ACM? Será que se associou também?!! Ah! Quer sabe? Viva a dinâmica da realidade! Viva o presidente Lula, o único, tão raro como um Pelé, e que não tem a mentira como premissa de retórica. E na superação da “fodidez“ do sistema, nada como um dia após o outro: o amanhã ainda virá, e prefiro um socialismo capenga (pelo menos daria uma sacudida em séculos atraso social e de concentração fundiária) a esse capitalismo selvagem, desumano, entreguista, movido a pó, crack e anti-brasilidade histórica.

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  13. CONDE TERRANOVA 26/10/2010 em 1:49 pm

    O filme além de vazio na crítica, prega uma imagem do Brasil totalmente desmoralizadora, corupção existe em dodo lado, todo mundo, mas enquanto os EUA e outros paises vivem patrioticamente exaltando seu poder político e “democrático”, nossa auto imagem é totalmente generalizadora, voce tem os três poderes inteiramente desmoraliados perante o mundo voce nao tem mais NADA, voce não é um nação.

    Poderiamos então acabar com o sistema, digo como. Fechem os tres poderes, isso ja aconteceu nao lembram? Temo uma ditadura militar, mas com certeza nao temos isso, queremos preservar nossa democracia e ela tepende desses tres poderes que o filme escancara como sendo uma inteira máfia.

    Responder
  14. Salvador 26/10/2010 em 6:25 pm

    O filme merece parabéns pelo roteiro e produção.
    Milhões de pessoas vão ver o filme, mas poucas vão entender a real repercussão da proposta de ética pessoal veiculada pelo Coronel Nascimento. A crítica de Bruno Cava é a primeira crítica inteligente que vejo a respeito.
    O que o filme faz é destruir a esperança no ser humano, ao tranformar todos em seres maus e maquiavélicos.
    O militante de esquerda rouba a mulher do amigo; o herói é um torturador e assassino com a carreira marcada pela execução extrajudicial. Os valores exaltados são a deslealdade às instituições, a quebra de hierarquia e o senso subjetivo de justiça, fazer justiça com as próprias mãos, como fórmula para limpar o mundo. O filho de Nascimento, que representa o futuro da nação, é um covarde. Seu ato, tido como heróico, de assumir a maconha da namorada por ser “de menor” é tão digno quanto a renúncia de um Roriz para escapar a um processo por quebra de decoro parlamentar. É uma burla à lei, em nome de lealdade pessoal.Um típico golpezinho jurídico. E se o valor ético supremo mostrado pelo filme prevalescer, ou seja, as leadades pessoais forem colocadas acima das instituições, o que teremos no futuro não será um país melhor mas a repetição do clientelismo do passado. Voltamos ao homem cordial, que Sérgio Buarque de Holanda definiu, na década de 30, em Raízes do Brasil. Como acabar com o sistema? Fechando o Congresso? Destruindo todas as instituições e submetendo toda a sociedade à escuta telefônica? Ou seria melhor nos submeter ao interrogatório no saco de plástico, em que o policial, máquina de matar, não tem inteligência para compreender que se o torturado não fala, é porque nada sabe? O fato do desprezo à cidadania e a exaltação da força serem tão populares é um indício perigoso dos rumos futuros da sociedade brasileira.

    Responder
  15. Mário SF Alves 28/10/2010 em 3:29 pm

    Brilhante, Salvador.
    Brilhante, Salvador.
    Tem este link (http://www.amalgama.blog.br/10/2010/para-voce-que-nao-votou-na-dilma/) aqui no Blog, cujo texto, exemplar pelo respeito à opinião diversa, em certo momento convida: “Bem vindo à real politik, mon ami”. E é o que você está propondo em termos de reflexão. Se queremos compreender um pouco mais o processo político que aí está, recheado de “pós-modernismos”, com direito, inclusive, a um show do que há de mais vil em retórica: vide argumentações do candidato da coligação demo-tucana, cuja premissa é desconstrução/inversão/virtualização da realidade, propondo que o Brasil que vemos hoje, e os progressos havidos, são pura miragem e que nada disso é verdade, mas, sim, que é a Nação inteira que andou tomando chá de cogumelo qualquer, ou de outra espécie do “gênero”. Siga este outro link (…) e veja até onde vai toca do coelho branco. Vê lá o que está posto como futuro para humanidade. A sordidez dessa campanha não se explica apenas pelo desespero dos demo-tucanos! Vai muito mais além, e o que vemos é só a pontinha do iceberg. Prova disso é a recente derrota sofrida pelo inesquecível povo francês, um dos mais aguerridos da História, e que ficou no chão diante da truculência do processo de ultra-direitização da Europa. A realidade já não tem importância! E nem a tradição monárquica da Inglaterra escapa: vide matéria recente veiculada pelo noticiário da Globo, relativa a tentativa de se lesar o fundo de auxílio à pobreza e manutenção de órgãos públicos. Mas, qual é o problema?!! Com a queda do muro de Berlim, a História não acabou mesmo? E afinal, o que são 310 mil casas de famílias de baixa renda, escolas ou hospitais literalmente numa gelada, em pleno inverno? Outro mundo é possível (e não tem que ser necessariamente aquele, “o admirável”, do Huxley), mas só há um jeito de construí-lo: tem de ser coletivamente, e não está sendo fácil, nem com todo o dito realismo político.

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  16. Aline Veloso 01/11/2010 em 12:28 am

    Nós somos tão sujeitos a aceitação e ao conformismo diante dessas dificuldades enfrentadas! Isso me leva a pensar que talvez a intençao do diretor José Padilha fosse justamente essa!! Induzir essa sensação de vazio e desesperando nos provocando e instigando a pensarmos que não temos outra alternativa se não a aceitação!! Pensem nisso, talvez vocês não foram tão a fundo para intender a linha da raciocinio do diretor!! São apenas hipóteses!!^^

    abraços
    att

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  17. Gustavo 11/12/2010 em 7:03 pm

    Parabéns pela crítica. Tropa de Elite 2 foi um pedido de desculpas de José Padilha por ter feito o Tropa de Elite 1.

    Apesar de muito bem feito, eu não gostei de Tropa de Elite 2. História um pouco clichê sobre o sistema corrupto, políticos e policiais desonestos, bla, bla bla. José Padilha, no Tropa 2, esqueceu-se do verdadeiro financiador do crime organizado, que se chama “usuário de drogas” e esqueceu-se dos traficantes e resolveu pôr a culpa no sistema. Foi um filme para acalmar a esquerda e seus intelectuais.

    Aliás, acho que não poderia passar despercebido a clara propaganda política havida no filme, no qual o verdadeiro herói foi um deputado comunista, defensor de bandidos e que acreditava que em 2081 quase toda a população brasileira iria estar presa (ou sejá o herói do filme também era burro).

    Digo propaganda política porque este herói maluco do filme foi inspirado num notório defensor de bandidos do RJ, o deputado Marcelo Freixo, do Psol.

    É uma pena que Padilha tenha se acovardado tanto assim. Embora o filme pareça ousado como o primeiro, isso é apenas impressão.

    Responder
  18. JGurzoni 06/02/2011 em 3:07 am

    Bruno, bom texto. Embora deveras atrasado, pois só assisti ao filme agora, concordo com um dos comentários que diz que não necessariamente um filme deve ter uma proposta de solução. A chamada à discussão, neste caso do Tropa de Elite 2 aliada a um enredo bem construído, bastam para tornar um filme digno de ser assistido e comentado.
    Aos que dizem que o autor quis agradar a esquerda, que havia sofrido no primeiro filme, vale comentário similar: o fato do filme retratar esta triste realidade brasileira pela ótica de diversos grupos já o qualifica como uma obra importante.

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