Continua mais difícil do que parece

-- Na Baixada Fluminense, Dilma inicia campanha do segundo turno --

por Guilherme Scalzilli - A campanha de Dilma Rousseff conferiu excessiva importância à popularidade do presidente Lula, à vantagem da propaganda gratuita e à capacidade da blogosfera de conter a sanha dos adversários. Subestimou a força dos instrumentos tradicionais de persuasão política (a parcialidade da mídia corporativa, o engajamento de lideranças religiosas, a disseminação de boatos, o clientelismo regional), que atingem um imenso público alheio à internet.

Também cometeu o equívoco de partidarizar a disputa entre os institutos de pesquisas, caindo na armadilha de apegar-se aos levantamentos alvissareiros como se fossem peças de propaganda. A militância criou enorme expectativa de vitória, que se alastrou para o restante do eleitorado. Em alguns meses, o segundo turno presidencial deixou de parecer previsível para transformar-se num verdadeiro triunfo oposicionista.

Menosprezar o front paulista foi um erro estratégico indesculpável. Há muito sabíamos que o fortalecimento de Aloizio Mercadante poderia levar ao desgaste de José Serra no pleito nacional. A campanha de Mercadante começou isolada, amadorística, materialmente pobre. Quando engrenou, já havia desperdiçado um tempo valioso. O apoio de Geraldo Alckmin e Aécio Neves nos dois maiores colégios eleitorais do país permitirá a Serra atuar livremente nos redutos dilmistas.

Marina Silva cumpriu o papel que lhe coube desde o início: o de anti-Dilma. Aglutinou os votos indecisos ou descontentes, criou canais de fragilização da petista, reduziu a polarização que o PSDB temia. A “vitória” de Marina presenteia Serra com vinte milhões de potenciais eleitores, interessados muito mais na mudança do que na preservação do cenário político. É um eleitorado permeável à influência dos grandes veículos jornalísticos, e identificado social, cultural, econômica e geograficamente com as plataformas do tucano.

Serra também será favorecido com a animosidade da disputa pelos votos de Marina. Os eleitores dela já recebem ataques da militância petista e tendem a responder com um oposicionismo agressivo, moralmente determinado, que contagiará largas esferas da juventude urbana. As sombras espúrias do DEM e do quercismo serão momentaneamente afastadas para dar voz a formadores de opinião e lideranças políticas identificados com esse conservadorismo de cores “modernas”. A deputada que anda de bicicleta, o defensor dos cachorrinhos, o doutor recém-formado e artistas hipersensíveis encarnarão as novas Reginas Duartes amedrontadas.

E Dilma terá de sofrer quieta. A grande imprensa, convenientemente protegida pelo papel de vítima, acirrará o civismo de factóides. Qualquer reação à inevitável onda de ataques midiáticos alimentará o repertório truculento criado para a petista. Os aliados vitoriosos, satisfeitos com o generoso quinhão eleitoral recebido pelo apoio de Lula, hesitarão até o último instante em defendê-la.

O cenário apresentado é excessivamente pessimista, mas antecipa alguns dos obstáculos que a coordenação da campanha petista precisará contornar se não quiser que o segundo turno vire uma sangrenta batalha de resultado incerto. Àqueles que evitam as atribulações da realidade incômoda restará depois apenas lamentá-la.

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NOTA DO EDITOR: Em artigo de meados de maio, Scalzilli antecipava as dificuldades de Dilma e criticava o otimismo exagerado de alguns de seus apoiadores.

6 comentários | Dê sua opinião

  1. Nilva 07/10/2010 em 7:31 am

    Há tempos comentava em vários blogs que gostaria de ter a certeza que eles tinham sobre a vitória de prima e também que perderíamos num segundo turno. Era uma coisa meio intuitiva mas, no dia 03 fui muito agredida, xingada, só por estar paramentada de PT, não estava fazendo boca de urna, fui votar. Lembrou-me os anos 80, na fundação do partido
    quando éramos escorraçados e nossos cavaletes quebrados. Moro em S.P. e o ódio e a intolerância por aqui estão disseminados. Eles seguem direitinho o PIG.
    Saí de lá com a certeza de que perderíamos as eleições. Ouvi muito Fora PT, Fora Corruptos, PT só tem ignorante, ladrão, PT quer instaurar o racismo no país, Precisa de uma ditadura militar pra acabar com a ditadura do Lula e voltar à Democracia. Este último discurso veio de uma mulher na faixa dos 45 anos, que se dizia prof. de História, e “sabia do que estava falando”. O pessoal na fila ria, gargalhava. A maioria concordava com a cabeça, outros abaixavam os olhos e eu fiquei quieta com medo de apanhar. Foi horrível.
    Fiquei em estado de choque com tanto ódio. Entrei em “luto”, tive náuseas e me recolhi. Não consigo sair, o máximo que faço é entrar nos blogs. Estou inerte. A direita está recriando o “mondo cannes”.
    A “vendetta” particular da Marina vai levar o país para o caos. Ela será lembrada como o Silvério dos Reis de saias e seu lugar será a lata de lixo da História.

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  2. Amâncio Siqueira 07/10/2010 em 10:50 am

    Não gosto do otimismo, mas também não consigo ser tão pessimista. Existem tendências regionais que não podem ser esquecidas. Os eleitores de Marina que eu conheço pessoalmente (ou seja, pernambucanos) sempre disseram que votariam em Marina no primeiro turno e em Dilma no segundo.
    Acredito que a tendência do eleitorado verde de São Paulo será inversa. Contudo, os eleitores mais à esquerda, que acreditaram na defesa do meio ambiente, devem pender mais para o programa partidário petista. Vejo uma divisão desses votos que confirmam as pesquisas para segundo turno realizadas anteriormente, que viam Dilma com 55% e Serra com 40%.
    Lembrando que Dilma recebeu uma votação similar à de Lula nas últimas eleições, e na ocasião em segundo turno Lula aumentou sua votação com votos inclusive de Alckimin.

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  3. Maridalva Vilela 08/10/2010 em 7:46 pm

    Nilva, figuei impressionada com o seu relato, sou baiana de Salvador e a Bahia conseguiu
    vencer o medo a campanha contra nosso governador Wagner do Pt foi semelhante a de
    Serra contra Dilma, elegemos dois senadores da nossa base um do PT e outro PSB, preci-
    samos continuar confiantes e não deixar que este ódio nos contamine, hoje estou usando
    botom do PT, só vou tirar depois das eleições, não podemos deixar nosso País e nossa ri-
    queza voltar prá mãos destes vendilhões. Coragem companheira.

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  4. Denis Correa 08/10/2010 em 7:53 pm

    Este pessimismo é completamente injustificado. Eu acho que a intolerância contra o PT é gerado em grande parte pela atitude radical e intolerante dos próprios PTistas. É preciso reinventar o PT, mostrar a cara, e não combater ódio e medo com mais ódio e medo.

    Seja lá quem vc for votar, vote a favor de um projeto de Brasil, e não contra a esquerda ou contra a direita.

    A Marina fez certo! Ela defendeu um projeto. Esste “temor” PTista de ter perdido é COMPLETAMENTE infundado. E culpar a Marina por causa disso é descabido, anti-democrático e derrotista.

    Aqui no Rio Grande do Sul, eu tenho convicção que muitos votos da Marina irão pra Dilma. E ela precisa apenas menos de 5%, e o Serra precisa muito mais.

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  5. Armando do Prado 10/10/2010 em 1:10 am

    Precisamos apenas de politizar a discussão nesse segundo turno. E todos, inclusive os dirigentes do PT, devem ler o artigo de Mino Carta na Carta Capital desta semana. Sintetiza nossos anseios: Dilma, deve mostra que é boa de briga. Dilma deve resgatar a Dilma.

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  6. Liz Della Penna 16/10/2010 em 11:29 pm

    adorei o artigo. e estou plenamente de acordo com o qeu diz sobre a leviandade da mídia. mas não devemos nutrir motivos para pessimismo. e aposto no que um dos comentaristas falou: dilma deve resgatar dilma.

    Responder

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