Dos problemas de não generalizar
29–10–2009 --- Envie para um amigo --- Tuitar
por Camila Pavanelli — Todos sabemos que, de maneira geral, a generalização é um recurso retórico de todo inútil. Se o tema da conversa é “a mulher brasileira” ou “o norte-americano médio”, já se sabe que teremos um diálogo de surdos, no qual palavras serão enunciadas e nenhuma informação será trocada:
- Pô, Zeca, a mulher brasileira é foda, né não?
- Se é, Bráulio! A mulher brasileira é tudo.
- O norte-americano típico é bastante individualista, você não acha, Ju?
- Com certeza, Má, o individualismo é muito importante para eles.
Enquanto Bráulio está pensando nas harmoniosas proporções da bunda da mulher brasileira, Zeca está se referindo ao espírito de luta de alguém que trabalha fora e cuida dos serviços domésticos ao mesmo tempo. Enquanto Má está considerando que desde muito cedo o norte-americano médio trabalha para conseguir seu próprio dinheiro e não depender de mais ninguém, Ju acha que os norte-americanos não sabem onde fica o Brasil porque só pensam em si mesmos. Ou seja: ninguém está falando da mesma coisa, todos estão concordando e, fundamentalmente, todos saem da conversa com um sorriso feliz. Afinal, quando se desconhece os pressupostos do outro a regra é presumir que eles sejam iguais aos meus.
Naturalmente, todos temos diversas conversas desse tipo ao longo do dia, pois além de apresentarem a grande vantagem de não exigirem a nossa atenção para o que o outro de fato pensa, as generalizações sempre serão pelo menos um pouquinho verdadeiras. Afinal, é verdade que existem mulheres brasileiras de belas bundas – assim como é verdade que existem mulheres brasileiras fazendo dupla jornada. E é verdade, além disso, que existem mulheres brasileiras de belas bundas fazendo dupla jornada por aí.
Mas o mais incrível de tudo é que, ora veja, também existem mulheres brasileiras de bundas feias, e mulheres brasileiras que só trabalham fora. Além de outras que só trabalham em casa, e outras que não trabalham em lugar nenhum. Para não falar nas que não trabalham e têm a bunda feia. Esse mundo é mesmo uma loucura.
Bem se vê que uma conversa cujo personagem principal é a mulher brasileira ou o norte-americano médio dificilmente terá uma longa e brilhante sobrevida.
No entanto, nem tudo é idiotice no mundo das generalizações. A capacidade de reconhecer algumas semelhanças fundamentais em objetos distintos e traçar inferências a partir dessas semelhanças é essencial, senão para nenhuma outra coisa, para a nossa própria sobrevivência. Porque existem muitas variedades de laranja no mundo, cada uma com sua especificidade e sabor próprio. Mas nenhuma laranja, não importa o tipo, poderá ser confundida com uma erva venenosa.
Curiosamente, porém, isso que parece tão óbvio muitas vezes é esquecido por pessoas demasiado angustiadas com a complexidade do mundo e das coisas. Quando perguntamos para uma dessas pessoas se elas gostam de laranja, a resposta nunca é simples:
“Você está me perguntando se eu gosto de laranja. Ou seja, você está partindo do pressuposto de que existe A laranja, uma única Laranja Ideal oriunda do Mundo das Ideias. Você não percebe que, ao me fazer esta pergunta, está desconsiderando as várias laranjas concretas em sua especificidade? Ou você acha que uma laranja doce e uma laranja azeda dão exatamente na mesma? Como você quer que eu compare uma laranja-pêra com uma laranja-baía? E uma laranja lima, então? Você acha mesmo que a laranja madura da beira da estrada é a mesma laranja do pé de laranja lima? É possível mesmo que você seja tão ingênua? Será que você não percebe que não existe “a laranja“, existem “as laranjas“?
Acham que estou exagerando e generalizando?
Então procurem no google por: “não existe” “a coisa” “as coisas” – substituindo a coisa entre aspas por:
filosofia
geografia
psicologia
psicanálise
fenomenologia
feminismo
marxismo
socialismo
capitalismo
teatro
Em todos os casos, você encontrará, entre os primeiros dez resultados, precisamente o mesmo argumento da laranja. Que, veja bem – está errado? É claro que não. É claro que a laranja da minha casa nunca vai ser igual à laranja da casa do vizinho, que sempre tenderá a ser melhor.
Fica a questão: e daí?
Sim, as laranjas são diferentes entre si. Sim, não existe a Laranja Ideal.
E, a despeito desses dois nada surpreendentes fatos, uma laranja continua sendo suficientemente laranja para que eu possa decidir tranquilamente se gosto dela ou não, oras.
Fico me perguntando o que passa pela cabeça da pessoa que, antes de se posicionar sobre o que quer que seja, faz esse tipo de ressalva: “olha, eu vou falar sobre filosofia, mas não sobre A filosofia, hein? Porque não existe filosofia, existem filosofias etc.”:
- A pessoa pressupõe que nasci ontem e não sei que o mundo é instável, confuso e complexo. Que ainda não percebi que a gente cria definições e categorias só para poupar um pouco de tempo e fingir que estamos falando da mesma coisa. E que, apesar dessa bagunça e contra todas as expectativas, ainda assim alguma comunicação produtiva é possível – sem que se precise lembrar a cada segundo que “ó, mas na verdade não é bem assim, hein?”.
- A pessoa em questão nasceu ontem e não sabe que o mundo é instável, confuso e complexo. Portanto, ela sinceramente se acha o arauto de uma novidade revolucionária ao dizer que não existe xis, existem xizes. Ela descobriu, com um século de atraso, a crise do essencialismo.
- A pessoa precisa escrever um texto de muitas laudas e, sendo longa a filosofia e breve a vida, não se importa em preencher alguns parágrafos com um truísmo que não faz a conversa avançar nem um milímetro.
Mas confesso que esse tipo de truísmo costuma me divertir um bocado. Porque, depois que a pessoa gasta tempo e palavras na formulação dessa ressalva filosófica profunda; depois que ela me provou por A + B que “a laranja” simplesmente não existe… Ela conclui, simplesmente:
“É, na verdade não gosto de laranja. Prefiro melão.”
Ou seja: tudo isso para chegar a uma resposta perfeitamente idêntica à que teria sido dada se não tivéssemos parado para refletir sobre a diversidade das laranjas.
Moral da história (eu sempre quis escrever um texto que tivesse moral da história):
Se você vai falar sobre geografia. Ou psicanálise. Ou feminismo. Eu entendo que o seu campo de conhecimento seja vasto e complexo, e que você não queira se fazer porta-voz de uma suposta unidade de pensamento que não existe.
Mas é bom não esquecer que, por mais confuso e interdisciplinar que seja o mundo; por mais que os diversos campos de conhecimento se toquem e interpenetrem… Geografia não é psicanálise. Psicanálise não é feminismo. Feminismo não é geografia. E assim por diante.
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6 comentários:



Generalizar é preciso muitas vezes, até pra facilitar o ensino-aprendizagem etc. O que ocorre é que muita gente confunde generalizar com estereotipar. É possível generalizar sem esquecer que existem nuances, que no estereótipo vão embora. Por exemplo, já me disseram “Não generalize sobre o futebol brasileiro” ou “Não generalize sobre os evangélicos”, querendo na verdade dizer “Não estereotipe”. Acho que só é possível começar a explicar e entender o futebol brasileiro e os evangélicos — e muita coisa mais — pelas generalizações. Esse negócio de dizer “Essa matéria é muito complicada, não há como explicar generalizando e não há como apreender todos os detalhes”, é conversa de quem não quer (ou não saberia) compartilhar conhecimento. Ainda mais se for pra no final se empanturrar de melão. Os biólogos generalizam até sobre a evolução das espécies — e quer coisa mais “complicada”?
Putz, a pior pra mim é “o brasileiro [insira generalização pejorativa e preconceituosa aqui]“
[...] you might want to subscribe to the RSS feed for updates on this topic.Powered by WP Greet BoxTem post novo meu no Amálgama e nada melhor do que o comentário deixado pelo meu editor preferido para resumir o [...]
oi camila,
acho que você pode respirar tranquila, que as laranjas não estão ameaçadas na sua essência alaranjada. no que depender disso, nossa sobrevivência está garantida
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as generalizações são indispensáveis ao ato de comunicar e de se fazer entender. entretanto, há quem goste de forçar um poquinho. não há coisa mais nauseante, por exemplo, do que um político falando que o ”povo brasileiro” está assim ou assado, ou que gosta disso ou daquilo.
o efeito, diga-se, psicológico, mais interessante desse tipo de declaração é que o indivíduo brasileiro, de tanto ouvir através da mídia que o povo brasileiro tem essas ou aquelas características, acaba ele mesmo, crendo que as possui.