Democracia, cidadania e poder
21–10–2009 --- Envie para um amigo --- Tuitar
por Diego Viana — Nada mais fácil que perder de vista a realidade da democracia, quando ela se torna só mais uma palavra bonita a manejar em proveito próprio. A democracia tem, sim, um sentido de realidade que poderia e deveria ser experimentado no dia-a-dia de cada um, mas quem é que experimenta isso? Uma das coisas mais irônicas que há, por exemplo, é ouvir a Justiça Eleitoral brasileira falar em “festa da democracia” para seus mesários, poucos dias depois de lhes mandar uma correspondência que abre com “Fica vossa senhoria intimada…”. Quantas vezes essa carta me fez sorrir amarelo! Não é à toa que, ao redor do mundo, cada vez mais pessoas, principalmente jovens, se digam desencantadas com a democracia.
Acontece que falamos em democracia quando queremos designar um sistema de governo onde consta o sufrágio universal para o Executivo e o Legislativo. E só… De forma que o princípio democrático acaba se confundindo com o princípio republicano – estranhamente, até em monarquias. E ainda evocamos, muito sábios, a batidíssima etimologia dessa palavra de 2400 anos: o poder do povo, isto é, o poder com o povo, nas mãos do povo. Mas que poder é esse que tem o povo? E quem é esse povo tão poderoso? Ou, misturando as noções: em todos esses países democráticos, o que pode o povo? Aposto com quem quiser que é preciso repensar o que entendemos por democracia se quisermos que a palavra faça jus à própria origem e ao sentido tão positivo que, recentemente, passamos a lhe atribuir.
Digo recentemente porque, nesses já mencionados 2400 anos de história da democracia, o conceito não é louvável há mais que, digamos 150. Até então, era quase sinônimo de bagunça, porque a idéia de “povo” correspondia a uma massa amorfa de gente sem a menor qualificação para exercer qualquer forma de poder. Se hoje o contrário de “democracia” é “ditadura”, entre os antigos não era assim. Democracia era entregar as decisões da coletividade para o “populacho”. Ditadura era um arranjo temporário para consertar uma situação desesperadora, às vezes por culpa desse próprio populacho. Aquilo que melhor corresponderia ao nosso termo “ditadura” era a tirania, mas quem levava a culpa por esses regimes de exceção era a democracia. E o oposto da democracia era a aristocracia, o poder nas mãos “dos melhores” (hoi aristoi). Definitivamente, declarar-se democrático, antigamente, não era a melhor propaganda.
Longe de mim atacar a democracia! Mas é importante lembrar que ela não cai do céu, só funciona em condições propícias e, se às vezes patina, é porque precisamos examinar melhor o que estamos tratando por esse nome. Por exemplo, todos esses fenômenos contemporâneos estão ligados: a sensação difusa, no Brasil e outras terras, de que não há democracia de verdade no país; a queda para o já mencionado populismo, não raro ditatorial, dos regimes de quase toda a América Latina no último século; a dificuldade nada surpreendente de estabelecer um “regime democrático” nas aldeias isoladas do Afeganistão; a saudade da ditadura militar que muita gente manifesta em qualquer cidade brasileira; o desinteresse dos europeus pelas eleições; a percepção de que mesmo nos EUA, maior democracia da Terra, existe uma tendência a sempre alçar mais ou menos os mesmos clãs ao poder, década após década.
Nada disso é à toa, nem são maldições que recaem sobre povos “inferiores” ou coisa do gênero, como quer certo fatalismo muito em voga no Brasil. Tudo isso são indícios da anemia democrática de um mundo que trata levianamente esse seu princípio fundamental. Se quisermos salvar a democracia – sim, ela está sempre sob ameaça – ou mesmo desenvolvê-la, é preciso lhe dar um pouco de atenção. E proponho um começo: interessar-se pela segunda parte do termo.
Já se fala muito, às vezes com lágrimas nos olhos, do “povo” a quem a democracia dá poder. Mas ainda não ficou claro que poder é esse. Muito se traduz o grego “kratein” como governar, mas, como sempre acontece com palavras tão antigas, a tradução não é tão direta assim. Outras traduções possíveis são poder, dominar, comandar – ter força, capacidade e habilidade. É o poder do governante, sim, mas também é o poder do artesão que domina uma técnica e do escravo que tem força para empurrar uma pedra morro acima. O poder que esse verbo expressa é o poder de fazer, realizar algo. Mas o quê?
Os antigos gregos, inventores da palavra e do conceito de democracia, costumavam descrever a política (arte de organizar uma cidade) como um grande corpo coletivo. A analogia era com o organismo humano, por sinal. Cada categoria social tinha sua função nesse corpo, como os órgãos que nos mantêm vivos. Os agricultores cultivavam, os mercadores comerciavam, os guerreiros combatiam e os nobres discutiam a administração da coisa pública no paço central. Tudo muito bem determinado, de tal maneira que cabia a esses poucos nobres (os tais aristocratas) a função de fazer funcionar a máquina, ou melhor, o corpo. Eles tinham esse poder: o poder de organizar e, consequentemente, governar a cidade. O outro poder, de mandar e desmandar, lhes aparecia como decorrência natural desse primeiro e fundamental poder, um poder técnico, quase artesanal, de organizar e garantir as estruturas da vida coletiva.
Se uma aristocracia é o regime em que cabe aos tais “melhores” determinar os modos de funcionamento da vida política, a democracia deve ser o regime em que essa prerrogativa, esse cargo, essa função, essa obrigação, chame como quiser, cabe a todos. Todos os cidadãos. Eis por que o conceito de cidadania é tão indispensável para o conceito de democracia. Lá onde a cidadania é incompleta, incompleta é a democracia. Cidadania é a participação plena na sociedade, em condição igual com qualquer outro cidadão, o que significa que, se numa sociedade qualquer alguém for cidadão pela metade, ou for excluído, ou desprezado, ou idiotizado pela propaganda e assim por diante, a democracia sofre um baque enorme: o povo que deveria se ocupar da administração da sociedade perde esse poder. E é claro que ele cai na mão do primeiro aproveitador que aparece.
As falhas da democracia são conhecidas e comentadas desde que ela existe. Com uma frequência desanimadora, as pessoas chegam à assustadora conclusão de que essas falhas invalidam a tentativa de construir sociedades em que todos são chamados a participar – e participar mesmo, não apenas pelo voto. Daí a longa e lamentável história de golpes, ditaduras, tiranias e manipulações que marcam a curta história de uma humanidade que considera a democracia como um termo positivo. Mas a implantação da democracia exige uma maturidade que se manifesta naquela frase tão conhecida de Churchill: é o pior regime que existe, afora todos os demais.
A maturidade democrática consiste em aceitar o fato de que ela jamais será completa e nem por isso querer abandoná-la. Muita gente já tentou imaginar formas de administração da sociedade perfeitamente funcionais, sem uma falha sequer, fluida como os astros no céu (era a comparação que eles usavam…). O resultado foi sempre tirania e por um motivo muito simples: é um absurdo esperar que um ser cheio de imperfeições como o humano se encaixe num sistema perfeito, como os parafusos de um relógio. Depois, como o mais importante passou a ser o funcionamento do sistema, quem precisa se adaptar é o mais maleável e frágil indivíduo. E, se necessário, ele é encaixado na marra. Mas não só as ditaduras formatam violentamente os cidadãos. Mesmo em países que se querem democráticos, a manutenção de uma grande parte da população num estado de abandono social, o estabelecimento de uma burocracia eletrônica para tentar controlar cada mínimo detalhe da vida, a transformação do processo político num circo publicitário, são coisas que sufocam e aniquilam a democracia. Quem nunca viu disso?
O que há de maravilhoso na democracia, nessa forma como acabamos de entendê-la, é justamente o fato de não ser perfeita e não precisar sê-lo. Porque, no fundo, ela é um processo interminável de aperfeiçoamento, cuja única exigência é uma sociedade cada vez mais justa e igualitária. A democracia permite maior liberdade porque sobrevive mesmo quando algumas coisas não funcionam. Ela cresce com o desenvolvimento da civilidade entre os cidadãos porque a matéra-prima dela é justamente essa civilidade.
Quanto mais cidadania, mais democracia. Segurança, defesa, riqueza, tudo isso são valores acessórios. São palavras que se escutam o tempo todo em qualquer campanha eleitoral, mas a verdade é que o que elas significam aparece quase espontaneamente se uma sociedade for capaz de garantir para todos os seus membros uma única coisa: cidadania plena. E já que, como vimos, a cidadania é o pressuposto da participação política, que por sua vez é o pressuposto do poder de administrar a sociedade, então a cidadania, numa democracia, nada mais é do que outro nome para o poder. Se o poder jorrar de alguma outra fonte – as armas, a polícia, a propaganda, os acordos de bastidores, o que for – é porque a democracia está em falta.
[ imagens:
- urna eletrônica brasileira
- Partenon, símbolo da democracia na Grécia antiga ]
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34 comentários:



Bom.
Bom dia, amigo!!!
Não pude deixar de parar para ler e analisar o artigo sobre a democracia.
Desculpe discordar de você, afinal isso faz parte da verdadeira democracia. Mas considero que você foi extremamente infeliz quando mencionou uma suposta “saudade da ditadura”. Será que alguém realmente tem ou teve “saudade” da ditadura? Senão aqueles que eram os perpetradores dos crimes contra a humanidade, ou seja, os próprios ditadores ou, ainda, os que se locupletavam diretamente do regime? Favor fazer um exame detalhado e verificar se você ou a sua família à época não se enquadravam em umas dessas duas categorias. Caso contrário, amigo, perdoe-me o julgamento precipitado, apenas não pude conter a indignação com os seus propósitos nos quais se enxerga tão pouca reflexão.
Grato por compreender minha indignação!!!
Alceu Pontes
Na verdade todos sabem que a “democracia” brasileira não passa de uma ditadura moderna e maquiada.
Não precisa dizer muito pois o exemplo da intimação à ser mesário, trabalhando “de graça” para os calhordas do governo, que na verdade deveriam colocar funcionários do próprio governo à serem mesários, uma vêz que já recebem salários do governo, pagos com o dinheiro destes mesmos que são “intimados” à trabalhar de graça.
Tomo como exemplo o voto obrigatório, nada mais ridículo em uma democracia do que a obrigatoriedade do voto.
Em uma verdadeira democracia o voto é facultativo, vota quem quer, e quem quer enfrentar as filas no dia da eleição realmente não o faz para “jogar fora” o seu voto, como se faz hoje em dia, quem enfrentaria estas filas estaria disposto a votar porquê acredita que seu voto pode mudar seu país, sua vida e ´mudaria também a situação ridícula do contribuinte que sustenta essa corja de vagabundos que infestam nossa querida Brasília..
Abçs à todos.
Num ponto, regimes democráticos e totalitários se equivalem: em ambos, há obstáculos legais que impedem que os que o ’sistema’ não deseje que cheguem ao poder, de fato não cheguem. Exemplo: Partido Comunista nos EUA. Poder participar do pleito, o partido pode;chegar ao poder, entretanto, alguém acredita? Os entraves são ‘legais’ (questão financeira, por exemplo) e ninguém pode dizer que os comunistas norte-americanos não possam ao menos, ‘participar do jogo’ (eleições). Nos países totalitários, os adversários do ’sistema’ são automaticamente alijados da disputa do poder. A diferença: ’sofisticação’ nos sistemas democráticos na hora de impedir que os adversários do sistema de fato conquistem o poder.
Embora o articulista tenha afimado “que o princípio democrático acaba se confundindo com o princípio republicano – estranhamente, até em monarquias”
não podemos negar que são justamente nas Monarquia e não nas repúblicas que: a “exigência é uma sociedade cada vez mais justa e igualitária” porque, no fundo, ela (a Monarquia ) é um processo interminável de aperfeiçoamento.
E por ser uma criação natural, e não cerebrina e laboratorial como as repúblicas atuais, a Monarquia é a forma de governo que mais se aperfeiçou e evoluiu. Ao contrário do que aconteceu nas repúblicas, macaqueadas dos EUA, forjada a mais de 2 séculos, sem reformas significaticas como nas Monarquia.
Caro Alceu, compreendo sua indignação e lamento que ela seja fruto de uma leitura apressada. Como você poderá perceber se reler o trecho em questão, eu não escrevi que tenho saudade, ou que minha família tem saudade, da ditadura. O que eu escrevi, como você poderá perceber se reler o trecho em questão, é que existe em muitas pessoas essa saudade da ditadura. E isso, muito infelizmente, é verdade. Saia na rua e pergunte. Eu não disse que isso é bom, mas é um fenômeno de nosso tempo; como todo fênomeno, tem seus motivos, e o texto, como você poderá perceber se o reler com menos pressa, é uma tentativa de analisar suas causas. A propósito, sobre sua especulação com relação a minha família, eu não existia no tempo da ditadura, mas peu pai teve a oportunidade de levar vários e vários cascudos da cavalaria na saída da faculdade, no Fundão. Acho pouco elegante da sua parte supor que ele possa ter se beneficiado do regime de exceção. Saiba que, assim como é preciso abandonar a pressa para ler um texto analítico, é preciso reflexão antes de partir para esse tipo de insinuações. Isso faz parte da cidadania, por sinal.
Não consegui me conter ao comentário do amigo Alceu, não sei qual sua idade muito menos os fatos que viveu. Como vivi os tempos militares posso lhe assegurar que vejo hoje andando lado a lado, pra dizer de mãos dadas os combatentes da ditadura, com os carrascos da ditadura, o que me faz ter a certeza de que o se cambatia na epóca da ditadura era ‘ O QUERER SER O DITADOR’, que é o que vivemos neste pais um ditadura camuflada. Basta ver tudo o que se faz de barbaries contra o povo sempre com a COBERTURA DA FAMOSA DEMOCRACIA. Tenha certeza tem muita gente sim com saudades do
militarismo (leia-se DITADURA) A BAGUNÇA ERA BEM MENOR.
Jorge, uma explicação: a confusão entre república e democracia é estranha em monarquias porque, ora, como é que a monarquia confundiria esses dois conceitos se um deles, pelo menos, não está nem presente?
De qualquer forma, fiquei pasmo ao vê-lo atirar por terra milênios de teoria da monarquia. Charles Maurras deve estar se revirando na tumba, assim como outros grandes defensores da monarquia. Afinal de contas, a grande propaganda do regime monárquico, desde Platão, e lá se vão 2400 anos, sempre foi sua estabilidade, sua imutabilidade, sua proximidade com a fixidez dos astros (ou de Deus, no cristianismo) em oposição à instabilidade, à “bagunça” inerente aos demais regimes, em particular a democracia, como eu escrevi aí acima.
Você é um herói, pela sua coragem de renegar toda a tradição monárquica, afirmando que essa estabilidade é um engodo. Você é ainda mais heróico por fazer isso em defesa da monarquia, não obstante o risco de aleijá-la completamente e lhe tirar todo o sentido. Monarquistas mais esquentados poderiam querer a sua pele por isso, então eu admiro enormemente a sua coragem! Parabéns!
Aliás, concordo contigo quando você renega a estabilidade do regime monárquico. Nada que o homem faz é verdadeiramente estável, sendo ele um ser inteiramente pertencente à contingência e ao devir. (Esse papo de monarquia “natural”, vamos convir, ninguém cai mais nessa, né?) Todos os regimes evoluem, mudam com o tempo, mesmo as repúblicas, que, desculpe, não são nada idênticas ao que eram nem em Roma, nem nos EUA de 1776. O fato de mudar, evoluir e adaptar-se é algo muito bom. Pena que as adaptações das monarquias exijam traumas bastante duros, como a decapitação de Carlos I da Inglaterra ou a de Luís XVI na França, a Carta Magna, a Guerra Civil Espanhola, a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa.
Aí Alceu, um saudoso da ditadura. Viu como eu tinha razão? É, rapaz, a pressa é inimiga da perfeição… e da reflexão…
Ivair, a bagunça até podia ser menor (mas não era, desculpe, basta ver as cagadas logísticas da ditadura espalhadas pelo Brasil), mas não sei se o preço a pagar é o pau-de-arara pra todo mundo que “o general” considera que esteja fora da linha…
Voce parte, eu seu texto, de uma concepçao bastante especifica de democracia (mais como um conteudo, um fim em si mesmo, do que como método, por exemplo). Valeria reconhecer essa concepçao, definir e contrasta-la com as demais existentes na teoria politica para conferir mais legitimidade e solidez logica a sua analise. Importante fazer essa racionalizaçao do seu conceito antes de partir para julgamentos de valor e qualidade com base nele.
No mais, esta’ bem escrito e valeu a leitura.
PS: Perdoe a ausencia de acentuaçao
Caro Diego.sem muito o que falar se voce entrar numa fila de emergencia, numa escola pública, num transporte coletivo e ai vai…….
Se voce assiste a teve e le jornais vendo todas as falcatruas que são encobertas e absolvidas em nome da “FALTA DE PROVAS CONSISTENTES’
Vai faltar pau de arara neste pais, e só para fazer justiça com que aqueles que
foram para o “TRONCO” eu traria de volta o CAPITÃO DO MATO E O TRONCO PRA MUITO BRANCO QUE TEM NO PODER” (obs. eu sou branco)
Já dizia Sérgio Buarque de Holanda, em sua obra seminal intitulada “Raízes do Brasil”: “A democracia no Brasil não passa de um lamentável mal-entendido”.
Constatamos esta assertiva todos os dias de nossas vidas, observando o quanto este país se apresenta injusto à maior parte da nossa população.
O não investimento em educação, básica aliás, nos tira qualquer tipo de chance de aproximarmo-nos o mínimo necessário do conceito utópico de democracia.
Embora seja uma utopia, o conceito de democracia deve ser sempre buscado, relembremos a célebre frase de Churchill.
O que dói na alma, é que não faltam recursos para se empreender a emancipação do nosso povo via educação, falta o que sempre faltou ao longo da História do Brasil, vontade política e um verdadeiro projeto de Estado (não de Governo) para realizarmos o anseio de um país mais justo e democrático, composto por cidadãos na acepção completa da palavra.
Democracia no Brasil não existe, o governo cria leis, impostos e outros modos de tirar dinheiro da população, sem ao menos consultar o povo, se democracia é o poder junto com o povo, governar com o povo, eles ( políticos ), fazem tudo na surdina, no outro dia é que vemos através de noticias as maracutaias feitas pelos próprios, na época dos militares era muito melhor que hoje, como disse:
o Brasil não é uma democracia, é uma anarquia, salão de festas do PT.
Oi Juliana, obrigado pelo excelente comentário. Você tem razão, parto de uma concepção específica da democracia por dois motivos: primeiro, o texto não é uma doxologia do conceito, mas uma análise de uma sensação contemporânea a partir de uma compreensão da democracia desenvolvida nos primeiros parágrafos. Segundo, se eu fosse fazer a mesma análise a partir de cada um dos conceitos possíveis de democracia, ia ficar uma bagunça e gigantesco; eu teria que confrontá-los e escolher entre eles, o que tomaria centenas de páginas. Isto aqui não é uma tese, é um artigo, e não é nem um artigo acadêmico…
Quanto a ser um fim em si mesmo, vejo de outra maneira. O que está aqui é uma relação dialética entre o poder como exercício (governo) e a cidadania como princípio quotidiano. A democracia nada mais é do que o jogo entre esses dois pólos. Não é, portanto, um fim, mas um processo transdutivo. Sendo assim, a finalidade não está no conceito, mas está “postulada” pelos formuladores do regime, quando o adotam; e o que quero demonstrar nos parágrafos acima é que qualquer atitude que fortaleça o primeiro pólo (o exercício do poder) em detrimento do segundo (a cidadania) é infiel ao princípio da democracia.
O aperfeiçoamento da democracia poderia começar pela extinção do voto obrigatório. Ou será que o povo não está preparado para ter o direito ao livre arbítrio?
Bom, primeiramente, gostaria de parabenizar ao autor do texto, Diego Viana, pelas reflexões apresentadas. Independentemente de haver concordância ou de existir um novo ponto de partida para análise, a reflexão apresentada é coerente e extremamente necessária. Não sou especialista no assunto, nem mesmo uma mera graduanda da área de história (por exemplo), mas pude perceber, pela minha vivência, que existem sim (meu caro Alceu) pessoas saudosas do regime militar. E não somente pessoas envolvidas com a administração governamental (Infelizmente, meu caros Diego e Ivair), mas também pessoas “comuns”, que costumam comparar este período com o atual e ainda afirma que durante a ditadura havia mais organização no sistema social.
Diego,
Estou de pleno acordo com o sr. Ivair, pois os participantes da DITADURA continuam no poder, de mãos dadas com os que a combatiam. Quando esses políticos que apoiavam o governo militar, sentiram que a coisa ia mudar, trataram logo de mudar de lado.
Mas, gostaria de expressar que eu entendo que o regime no Brasil não é verdadeiramente democrático, pois o que aprendi no colégio é que democracia seria o governo do POVO PARA O POVO e , o que se ve aqui, é que só fazem leis para FERRAR com o povo. Se governa, simplesmente, contra o POVO. Só sabem criar leis para criar impostos, sem dar nada em troca. Desrespeitam a Constituição Federal toda hora. Com os impostos que pagamos, nossas estradas deveriam ser como um tapete, nossos hospitais os mais modernos do mundo, nossas escolas deveriam ser totalmente gratuitas, etc……..Mas, não; o que se ve é a desordem total. O pobre vai para um hospital necessitando de um atendimento e marcam sua consulta para daí há 06 meses ou mais.
Vejo que o conceito de democracia, tal como aprendi na minha infância está totalmente equivocado. Só fazem leis para punir o cidadão.
Esse senhor, Alceu, ficou indignado por achar que você estava defendendo a DITADURA, mas, hoje, se morre muito mais inocentes do que naquela época. Você sai de casa pela manhã e não sabe se volta, pois pode ser vítima de alguma tragédia, tais como, uma bala perdida, um sequestro, um assalto, etc….
Desculpe-me, mas essa democracia que está aí não me deixa muito animado. E, não estou vendo muita vontade de se mudar o atual modelo. E, digo mais, com essas urnas eletrônicas, só se entrega o poder, se quiserem.
Um abraço,
José Luiz
Confesso que talvez eu nao tenha informações e/ou argumentos para discutir tal assunto e suas vertentes. Mas isso me incomoda de qualquer forma porque a democracia, queira não, afeta, altera, influi, manifesta, incomoda, insere, dignifica ou encarcera qualquer indivíduo vivo dentro desse país.
Tempos atrás eu tenho comentado, até com outras pessoas o mesmo que o DIEGO citou: “saudade da ditadura”… e não mudei minha opiniao.
Não vivi esse tempo. Mas lembro que às 22:00h, meus pais pediam-me para ir para cama dormir. Hoje, criança assiste cena de sexo na novela das 8. A professora pedia silêncio e a turma obedecia. Hoje, a professora não pode nem fazer cara feia, q logo a “delegacia” vem com o chicote e a mordaça, além do lavrador que é preso em pleno velório, por ter matado a onça que atacou seu filho, ou a enciclopedia de matérias, artigos, jornais sobre conjunto de crimes à dignidade humana, feitos pelos “representantes do povo”, os quais mentem na propaganda do Brasil para todos, porque a tv é agora mais ladrão de descarga de do excessos de corrupção…
Os regimes afetam a economia, a moral, o social, o educacional, a saúde etc. Há muito diferença entre hoje e pelo menos 25 anos atrás.
Democracia não é Anarquia.
Parabéns pelo texto, Diego. Muito bom.
Só agarrei nessa frase:
“é um absurdo esperar que um ser cheio de imperfeições como o humano se encaixe num sistema perfeito, como os parafusos de um relógio.”
É como se alguém tivesse bolado um sistema perfeito e este não funcionasse porque somos imperfeitos.
O ser humano é complexo, sempre muda, e assim é também o mundo. No entanto, já reparou como as coisas funcionam? Se parece que não funcionam para nós, humanos, é porque temos uma postura egoísta, queremos que tudo aconteça para a satisfação dos nosso desejos. Mas como cada um é diferente, é mutável e não deseja sempre as mesmas coisas, nenhum sistema criado por um ser humano será perfeito.
Por isso, esse sistema perfeito que alguns filósofos dizem ter bolado e que não funciona por que o ser humano é imperfeito, ele não existe! Porque foi um ser humano igualmente imperfeito que o bolou!
Já o mundo não-humano, e mesmo o mundo humano só que para além dos nossos pensamentos e conceitos, funciona perfeitamente! Só que ele não foi feito para a satisfação dos desejos dos homens.
Quanto à esfera humana, a esfera deste ser que é o único que tem uma noção de imperfeição, deste ser que é o único para quem não bastam os sistemas da natureza, o ser que tem que criar a si mesmo nesse processo louco de consciência, a democracia vai estar sempre à espreita e será sempre um anseio, pelo menos um anseio de quem pensa, porque se é para obedecer um ser humano imperfeito, que seja eu mesmo! E se os aristocratas fossem de fato perfeitos e o sistema não fosse injusto e desumano nada disso tudo que aconteceu na história da humanidade teria acontecido.
O esquema bom ainda está pra construir e eu só consigo vê-lo parecendo ou com a democracia, ou com uma monarquia mesmo. Só que a monarquia requer homens perfeitos. E conheces algum?
Acredito que, se o povo não confia mais na democracia, se ela tem falhas, ela não tem razão de existir. As sociedades humanas não criam, não criaram e não criarão nada eterno; todo regime político, assim como toda criação humana, tende a se tornar obsoleto com as mudanças nos quadros sociais. Somente sua permanência é maior ou menos segundo o contexto histórico-cultural. O que acontece, portanto, é que a democracia neoliberal, com liberdade para o mercado e asfixia sócio-político-cultural para as pessoas (ou seja, os estrangeiros podem vender o que quiserem nesse país; as pessoas são obrigadas a atender as demandas de uma “burocracia eletrônica”, nas palavras do autor do texto, que controla cada passo, cada segundo da vida do indivíduo), está em franco processo de crise. Mercado livre, povo vigiado e, quando não nos conformes do neoliberalismo, punido: que democracia é essa?
É bem compreensível, se não aceitável, que as pessoas não confiem mais na democracia, pelo menos na democracia brasileira. Ela não satisfaz senão uma corja suja de plutocratas velhos e cancerosos que nós chamamos de Congresso e Senado. O sistema eleitoral brasileiro (RPLA, ou Representação Proporcional por meio de Lista Aberta) garante que você, eleitor, vote em um candidato de sua preferência e seu voto seja democraticamente transferido para outro no qual nem sob tortura você votaria. Garante também o democraticíssimo processo de votação das políticas públicas, no qual o povo nada decide, no qual quem decide é a elite decrépita e enriquecida com o nosso dinheiro, conquistado laboriosamente com o suor de nossos impostos, ou através de mensalões e outras mamatas tão democráticas quanto os dirigentes do país. Instituição democrática por excelência, as passeatas por melhores condições de vida, salário, respeito, dignidade e sei lá o que mais, não são muito mais do que belas oportunidades de dar continuidade ao treinamento em artes marciais da polícia. Somos saco de pancada, vaca de leite: isso é o povo no regime democrático brasileiro.
Marks, http://pt.wikipedia.org/wiki/Anarquismo
dê uma olhada do que seria ‘anarquia’
Ivair, ter saudade da ditadura por causa de filas em hospitais públicos me parece um despropósito. Afinal de contas, elas já existiam naquela época. A diferença é que, se você reclamasse, corria o risco de ser fichado…
Esse negócio de amarrar gente no tronco pra conseguir ordem na sociedade já foi tentado muitas vezes, sem grande sucesso. A Idade Média, por exemplo, cansou de praticar essas coisas e a vida urbana era até mais bagunçada que a de hoje…
José, só lembrando que essa violência urbana que tanto te assusta é fruto das políticas urbanas de décadas e décadas atrás, incluindo a ditadura. E quem ousasse criticar não tinha muito onde se expressar. A propósito, na Maré, sabe quem é o “João” a que se refere a “Vila do João”? Se tiver curiosidade, recomendo investigar.
tim, a decadência moral não tem nada a ver com o fim da ditadura, vem de muito antes e não é só no Brasil. Já nos anos 70 Hannah Arendt escreveu sobre isso em “A crise da educação”.
A propósito, sabe como foi montada a rede de televisão que mostra cena de sexo na novela das oito? Pois é, isso mesmo, com maracutaia da ditadura. Incrível como as coisas se reencontram, não?
Pedro, que sistema perfeito é esse que os filósofos dizem ter bolado? Estudei bastante filosofia, mas não me lembro de nenhum. Me lembro, isso sim, de filósofos falando algo como o que você está dizendo: que o universo é um sistema perfeito e o ser humano está dentro dele.
Felizmente, já caiu a ficha da maioria desse pessoal que não dá pra falar em “perfeição” para o universo, uma vez que ele apenas é como é, ou seja, se ele fosse completamente diferente, a gente olharia para ele e diria a mesma coisa: “puxa, que perfeito”…
No mais, concordo integralmente com o que você disse depois.
Luciano,
Quem falou em neoliberalismo? Eu jamais identifiquei democracia e neoliberalismo; aliás, muito pelo contrário, o texto acima é uma tentativa justamente de mostrar por que o neoliberalismo não é, nunca foi, nunca será democrático. No mais, a imperfeição é justamente a maior arma da democracia e suas falhas não são motivo de jeito nenhum pra voltar a qualquer tipo de rigidez autoritária.
Agora, um comentário geral: que mania de ficar se lamentando! Então a democracia não funciona porque “o governo” só quer sacanear “o povo”? Ora, que fatalismo tosco! O governo não tem esse poder todo, não, nem mesmo em regimes autoritários. Se as pessoas, em vez de ficar reclamando em casa contra “esse pessoal”, levantasse do sofá e exercesse pressão sobre “esses ladrões”, garanto que eles mudavam de atitude rapidinho. Quantos de vocês já telefonaram ou mandaram cartas para um representante? Quantos sabem dizer quem é seu representante? Depois ficam falando “dessa corja”. É o tipo de atitude que deixava Monteiro Lobato puto nas calças, e que ele retratou em Cidades Mortas, Jeca-Tatu e vários outros textos.
Como eu disse, democracia exige cidadania. Algo muito diferente de ficar resmungando contra “esses pilantras”. Felizmente, a nova geração de brasileiros parece ser mais ativa, o que me enche de esperança.
Realmente, ser “intimado” a participar de uma “festa”, no mínimo deixa dúvidas quanto à exatidão do segundo termo…
Prezado Diego,
Não me interprete mal! Foi apenas um desabafo! Jamais tive a intenção de ofendê-lo, muito menos a sua família. Mas, afinal de contas, que ofensa seria essa se apenas se está sendo a favor de algo que “todos” “desejam”, ou seja, a volta da ditatura?
Infelizmente já ouvi, sim, algumas pessoas fazerem colocações sobre a ditatura exatamente como a sua. É que não vejo, em hipótese alguma, qualquer coisa de positivo no regime autoritário que se instalou no Brasil, nem mesmo o tão propalado “milagre econômico”, algo que nos legou descontrole fiscal, hiperinflação e dependência externa (vulgo, dívida externa) e outros “malecitos” mais. Dizer que a coisa está pior hoje é uma grande falácia. Na realidade, naquele tempo vivíamos algo semelhante ou pior com relação à situação social da população. Tão-somente não tínhamos instrumentos adequados como os que temos hoje para nos darmos conta de quanto “feijão’ ainda temos que comer para podermos almejar uma sociedade menos injusta e mais igualitária. Acho, sim, que avançamos, principalmente no tocante à vergonhosa distribuição da renda nacional e ao gritante desequilíbrio entre as regiões.
A verdade toda é que podemos querer, gritar, chorar chamando a atenção do mundo para nós, se nada fizermos para revertermos quadro social tão triste, jamais, como alguns almejam, poderemos ser considerados um país desenvolvido. Sei o quanto isso dói ao amor-próprio de alguns tantos iludidos com a grandiosidade do nosso imenso Brasil, mas essa é a mais pura verdade. Por isso lutemos todos nós por um país mais justo para todos.
Democracia, amigo, não se tem, não se deseja, se conquista.
Concordo integralmente com o que o colega Marcos Sarmento Barcelos coloca, principalmente, no tocante à ausência de um projeto de Estado. Falta-nos realmente um. Onde queremos chegar? Que país verdadeiramente queremos para nós e para as próximas gerações. A meu ver, ainda não tivemos uma liderança até a presente data que nos tenha deixado isso como legado, infelizmente.
Grato pela oportunidade que me deu de expor minhas ideias e de desfazer qualquer mal-entendido.
Eis aqui no que estamos fazendo um gérmen, um começo de democracia.
Um abraço,
Alceu
Alceu, mas quem falou em “todos”? O que eu levantei foi um sintoma, entre muitos outros, listados no parágrafo em questão. São sintomas daquilo que eu coloquei na primeira frase do texto: a perda de contato com a realidade vivida da democracia, transformada numa idéia vaga sobre votar a cada dois anos. Tudo isso está lá no texto.
Colocações sobre a democracia exatamente como a minha? Pois qual foi então a minha colocação? Até onde eu sei, só mencionei que algumas pessoas rejeitam a democracia e manifestam saudade pela ditadura. Isso, já vimos que acontece mesmo. Não consigo imaginar de onde você foi tirar que eu faço parte desse grupo.
Democracia se conquista: concordo integralmente, por sinal meu texto é exatamente sobre isso. Aliás, os comentários estão estranhos exatamente por causa disso: todo mundo pegou trechinhos, frasezinhas, e aproveitou para fazer ladainhas sobre exatamente aquilo que eu critico: a visão de que a democracia é só voto ou, no máximo, um governo que “gosta” do povo (?) ou simplesmente “não o sacaneia” (estou usando termos dos comentários acima). Por exemplo: também sou contra o voto obrigatório, claro, quem não é? Mas o texto não é sobre isso, e não acho que o voto facultativo seja uma panacéia, embora seja um bom começo… então por que tanto comentário em cima disso?
Eu ficaria feliz com comentários que tratassem do tema do post…
E aproveitando o ensejo: também concordo com o que diz o Marcos. Só acrescento que um projeto de país não vai nascer dos escritórios de Brasília, pode ter certeza. É preciso que isso venha do seio da sociedade, de discussões mais ou menos como a que estamos tendo (só que com um pouco mais de foco, claro) – o final do seu último comentário, a seu ver, é uma percepção disso –, de uma mobilização quotidiana sem a qual nenhuma democracia tem muito futuro. Já tivemos muitos, muitos arremedos disso em nossa história e temos também agora. É uma pena que, até hoje, eles tenham sido bloqueados pelo fatalismo e pelo dar de ombros que mencionei num comentário pouco acima.
Um abraço
Diego
Quanto ao sistema perfeito, tava pensando na República do Platão, e nas utopias suas filhas.
Interessante a discussão e a proposta do txt. Receio,apenas, alguns maus entendidos tenham acontecido mediante má,ou pouca, reflexão por parte de alguns comentadores. Gostaria de salientar a falta,que hoje significa muito quando discute-se os temas em questão, dos nomes de Michel Foucault e Gilles Deleuze. O entendiimento do poder e as micro-relações analisadas por ambos são predominantes na contemporâneidade; também a concepção de cidade como um corpo é hoje muit discutida a partir do conceito de Corpo sem Orgãos (CsO),conceito utilizado por Deleuze e Guattari. Enfim, de modo geral o txt carece de analises mais atuais.
Oi pedro, imaginei que a República tivesse passado pela sua cabeça. Por sinal, o que eu disse acima sobre os gregos se apóia muito nela. De toda forma, ela está longe de descrever um sistema perfeito: veja, por exemplo, os livros 8 e 9.
Olá Laio, obrigado pela contribuição. Você acertou praticamente na mosca: as referências do texto acima são justamente Foucault e Deleuze, mais Rancière, Simondon e Stiegler. Mas é claro que não os mencionei, porque, como expliquei num comentário acima, isto aqui não é uma doxologia do conceito de democracia, nem uma análise da atualidade. É o desenvolvimento de uma determinada concepção. Aliás, isso é justamente o que nenhum comentário comenta. Me pergunto se as pessoas realmente leram o texto…