8–10–2009

A realidade olímpica

por Guilherme Scalzilli * – Os debates sobre a escolha do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016 começaram empobrecidos por radicalismos apaixonados. Entre a cegueira patriótica e o rancor político-partidário, há pouco espaço ao meio-termo responsável. Infelizmente, a maioria dos analistas critica a própria candidatura brasileira com distorções que nada acrescentam à complexa preparação da efeméride.

Podemos dividir as objeções equivocadas em três enunciados simplificadores, que assumem formatos variáveis segundo as circunstâncias, inclusive nas discussões sobre a próxima Copa do Mundo: a) os brasileiros são indignos do privilégio; b) o país não está preparado para tanto; c) possuímos outras prioridades ou urgências.

A primeira falácia reflete um complexo de inferioridade típico do imaginário colonizado. Bastaria relembrar seus muitos desdobramentos culturais, sociais e até geopolíticos para rejeitá-lo como estupidez provinciana. Preconceito semelhante permeia a ideologia do neo-udenismo grosseiro e elitista que transformou parte da imprensa corporativa em panfleto eleitoral.

A seguir temos uma espécie de amplificação desse princípio. Agora é a nação que, refletindo seus habitantes, possui inaptidão congênita para as delícias do chamado “primeiro mundo”. Corrupção, incompetência e dificuldades estruturais ameaçam qualquer evento internacional, mas os nossos obstáculos nasceram intransponíveis. Enquanto uns alegam que faltam benfeitorias, outros apontam que as existentes estão fadadas a superfaturamento e abandono. Acomodamo-nos ao subdesenvolvimento lucrativo e previsível, enquanto seus porta-vozes se locupletam.

O terceiro preceito utiliza retórica bem-intencionada, mas ignora os ganhos potenciais para a saúde, a educação e a cidadania proporcionados pelo esporte. Mesmo que discutamos investimento público (o privado virá apenas por causa dos Jogos), como distinguir os gastos obrigatórios dos supérfluos? Alguém pode propor a suspensão dos campeonatos de futebol para bancar a alfabetização, ou que hospitais sejam construídos com as fortunas “torradas” em exposições e festivais de cinema, teatro e dança. E, afinal, para quê realizar eleições tão onerosas se há tantas carências? Fechemos logo o Congresso para salvar nossos velhinhos…

Mas tais deturpações são irrelevantes agora. Encaremos as contingências do fato consumado, compreendendo que o enorme triunfo político do presidente Lula não será ofuscado por eventuais impropriedades cometidas em administrações futuras. O ônus de qualquer fracasso incidirá coletivamente, acima de limitações partidárias. É demasiado tarde para mesquinharias políticas.

Acima de tudo, evitemos os perigos da condescendência. Para empreendimento dessa importância é fundamental promover um amplo choque de civilidade, a começar pelo cidadão comum. Por exemplo, os imbecis que vaiaram Lula na abertura do Pan-americano (e depois cinicamente comemoraram sua vitória olímpica) retornarão às arquibancadas. E os motoristas cariocas precisam entender que europeus acreditam em faixas de pedestres. Porém, enquanto os governantes se contentarem com favelas muradas, ônibus disfarçados de “metrô de superfície”, lagoas e praias infectas e banditismo policial, o padrão de qualidade continuará baseado no improviso, no paliativo, na malandragem “ishpérrta”.

A eleição pelo Comitê Olímpico representou uma derrota das superstições que sempre refrearam a audácia e o espírito empreendedor fundamentais para qualquer projeto nacional digno. Resta impedir que aqueles vaticínios trágicos se realizem.

* Guilherme Scalzilli é historiador e escritor. Autor do romance Crisálida (Casa Amarela, 2006), entre outros. Colabora regularmente com a revista Caros Amigos e a página do Le Monde Diplomatique Brasil. Blog: guilhermescalzilli.blogspot.com.

Leia também:

| 6 comentários | Dê sua opinião ↓ |

  1. fred.k (8–10–2009 12:48 am)

    Adorei o respeito com que vc trata quem se opõe a Lula: “Os imbecis que vaiaram Lula na abertura do Pan-americano (e depois cinicamente comemoraram sua vitória olímpica) retornarão às arquibancadas”.

    Isso para não dizer que o argumento c) que vc coloca, e sua consequente resposta a ele, é uma verdadeira bobagem, considerando que sim, Olimpíadas são um gasto extraordinário.

    Gosto tambem dessa coisa de pintar a vitória como do Lula, SÓ do Lula, esquecendo toda sorte da cálculo geopolítico envolvido nessa história.

    Conheço um punhado de gente cobrindo esportes aí pelo Brasil afora e posso dizer que, apesar de toda a incompetência, levamos essa.

    Mas, como você diz, encaremos as contingências dos fatos consumados. Sejamos críticos onde devemos ser, e aplaudamos o que merece ser aplaudido. Só que para isso é preciso ir além da chapa branca, e eu falo em relação a qualquer um dos lados do centrão que se tornou a política brasileira.

    -Responder

  2. Lelê Teles (8–10–2009 4:03 pm)

    Bom, ouvi da mídia nativa uma preocupação enorme com os jogos da Copa das Confederações na África do Sul: foi a primeira vez que vi a TV reclamar da festa de uma torcida. Como fazem barulho aqueles negros, quase não dá pra ouvir o apito do juiz; uma selvageria deenfreada.

    Agora nos jogos argentinos, que os caras cantam sem parar, nos jogos ingleses que a torcida faz barulho, os caras acham lindo: “Ensurdecedora a festa da torcida inglesa na arquibancada”!

    COMPLEXO DE VIRA-LATA E MENTE COLONIZADA.

    -Responder

  3. romério rômulo (10–10–2009 6:01 pm)

    ótimo, scalzilli.
    romério

    -Responder

  4. Bruno Pantaleão (14–10–2009 2:36 pm)

    Caro,

    a questão que quero debater não é derivada de complexo de vira-lata, mente colonizada ou pelo debate político. Os pontos de divergência são simples:

    1) Histórico de péssimo emprego e utilização do dinheiro público, com reconhecidos desvios de verbas e superfaturamentos. Isso ocorreu no Pan, ocorre em outras obras públicas e, se não for criado um veículo de fiscalização, ocorrerá nas olimpiadas.
    Um argumento utilizado é que a corrupção não é exclusiva do Brasil e que em Chicago, Tóquio ou Madri também aconteceriam tais problemas.
    O que fazem com o dinheiro público na Espanha ou nos EUA não é problema meu. Eu não pago impostos lá, mas aqui. O dinheiro público deve ser utilizado com o máximo de consciencia possível e eu acredito que, infelizmente, essa euforia provocada pelos jogos olímpicos irão impedir que isso ocorra.
    2) Priorização do esporte de alto-rendimento em detrimento ao esporte de base. É necessário esperar a realização das olimpiadas para que sejam formados atletas competitivos em diferentes modalidades esportivas no Brasil?
    São comprovados os benefícios trazidos pela pratica esportiva ao indivíduo e à sociedade com a qual o mesmo se relaciona, mas, no Brasil um triatleta não consegue sobreviver da prática esportiva.
    3) O famoso “legado”. O prometido “legado do Pan” aí está, jogado às traças. Não melhorou o esporte em lugar nenhum. Não tmelhorou a qualidade de vida do carioca. Aquele bilhões de reais gastos se transformaram em que? Qual será o legado das olimpiadas?

    Lembrando que não quero entrar no embate político, fico nos comentários econômicos e sociais. OK?

    -Responder

  5. Guilherme Scalzilli (21–10–2009 11:12 am)

    Fred.k,
    não me referi a todos os opositores de Lula, mas apenas ao imbecis que o vaiaram na abertura do Pan. Analisei o episódio no artigo “Welcome to Brazil”, que pode ser lido aqui: http://www.guilherme.scalzilli.nom.br/Artigos/Observatorio/Welcome%20to%20Brazil.htm .
    Lula não foi o único responsável pela vitória, mas sua contribuição é inegável e não pode servir para politizar a discussão. Discordo quanto à “incompetência”: a eleição do Rio resultou de um projeto muitíssimo bem-feito, encabeçado por exímios profissionais.

    Bruno,
    acho estranho repudiar investimentos por receio de que sejam corrompidos. Será que regressar à (ou permanecer na) Idade da Pedra ajudaria a combater a corrupção? Ou contribuiria para sua permanência?
    Minha análise buscou apenas reforçar a capacidade brasileira de realizar eventos de grande porte. Jamais negarei a importância da educação esportiva de base, mas não a considero inconciliável com o alto rendimento.
    Não sei se o legado do Pan foi assim tão “abandonado”. Já temos como avaliar se o esporte ou a qualidade de vida melhoraram depois da competição? Não se trata, afinal, de benefícios perceptíveis apenas em longos prazos?
    Abraços a todos do
    Guilherme

    -Responder

  6. Bruno (26–10–2009 3:18 pm)

    Guilherme,

    Você conhece a teoria do cobertor curto? Não existe, nem existirá até 2016 (a não ser que sejam criados novos impostos ou taxas), verba suficiente para manter os níveis de investimentos (que já são baixíssimos) em educação, saúde e segurança e ainda realizar novos investimentos em infra-estrutura necessária para a realização dos jogos.

    O desenvolvimento do esporte de base e o de alto rendimento não são excluldentes, porém o governo os trata como se fossem. Mais uma vez o cobertor curto. De onde sai tanto dinheiro para manter os níveis de investimento em saúde, educação, segurança e ainda investir no evento “Jogos Olímpicos” e melhorar os investimentos em esporte de base?

    É óbvio que esses jogos vieram na hora errada. Antes de investir 20 bilhões para trazer um mega-evento para o Brasil é necessário investir nas escolas públicas, nos hospitais, na segurança e etc… Para sair da idade da pedra não precisamos de um trem-bala, nem das olimpiadas. Precisamos sim melhores índices de educação. Crianças aprendendo mais, melhor serviço público de saúde e etc…

    Aquelas crianças que moram no interor do Tocantins e estudam em escola pública não tem nem onde sentar para assistir aula, imagina um lugar para nadar ou treinar qualquer tipo de esporte. Após as olimpiadas elas continuarão sem as mínimas condições necessárias para assistir aula ou praticar qualquer tipo de esporte.

    -Responder