Sympathy for Lady Vengeance
por Ana Al Izdihar – O título em português para este filme asiático (coreano) de 2005 é Lady Vingança, bastante adequado, nada contra. Porém, adorei o título em inglês, pois ele resume com mais exatidão a mistura de sentimentos que a personagem nos causa, relatados pelos olhos da filha da personagem principal.
Geum-ja foi obrigada a confessar um crime que não cometeu. Passou alguns anos bem amargos na prisão, período em que articulou meticulosamente sua vingança contra quem a teria colocado lá. Quando sai da prisão vai à busca do apoio de pessoas às quais ajudou no confinamento a fim de cumprir seu plano vingativo. Porém, ela não imaginaria que teria de mudar um pouco o seu “tiro de misericórdia” bem no finalzinho de tudo…
A estória sofrida de Geum-ja traz de novo uma reflexão a respeito de valores morais e sociais pelas mãos do diretor Park Chan Wook, como o fez em Oldboy, usando recursos muito próximos da tragédia grega. O mais intrigante é que o grupo social dos personagens mostra mais uma vez um ponto bastante explorado ultimamente pelo cinema asiático: são pessoas que vivem na linha limítrofe entre valores ocidentais e orientais. É fascinante observar como esses valores se aproximam e se distanciam de cena a cena, mas sempre nos colocando em um nível perturbador de instantânea identificação.
Nem sei se é possível dizer em que momento começa um conceito ocidental e termina um oriental – ou vice-versa –, mas percebo que não é tão importante. No momento em que achamos uma atitude de um personagem esdrúxula ou “asiática demais”, imediatamente podemos nos lembrar que algo semelhante acontece aqui mesmo na nossa sociedade… Não é importante achar os limites, pois creio que essa é mesmo a intenção da narrativa.
Nessa linha de pensamento, por exemplo, vemos que a idéia cristã de pecado e purgação do mesmo é constante e está em muitas falas, principalmente nas de Geum-ja. Ela assume uma postura de mártir com sede de vingança e a usa para justificar seus atos. Procura redenção dos seus pecados cometendo outros em nome da justiça, para somente no final ver e sentir que não conseguiu nenhuma redenção.
Geum-ja é obrigada a confessar que teria matado com requintes de crueldade um menino de cinco anos para que pudesse salvar sua filha. A menina realmente escapa da morte, mas ela vai para a prisão, lá reza todos os dias pela alma do menino morto e jura vingança. Geum-ja começa a desenvolver nos anos de confinamento um comportamento quase como treino de vingança: ela mata aquelas que cometem injustiças com outras prisioneiras. A partir de então fica conhecida como “a bondosa” pelas justiçadas e como “bruxa” pelas que sentiram o peso da sua ira sutil.
Não é difícil associar este comportamento com o arquétipo feminino da Mãe Bondosa e sua sombra, a Mãe Devoradora. De acordo com Carl Gustav Jung, o arquétipo da Mãe é representado em várias culturas do mundo como aquela que protege, nutre e faz de tudo para salvar sua prole; porém, seu lado sombrio também é capaz de castrar os filhos, aprisioná-los e até matá-los por excesso de proteção ou por causa do que Jung também denominou de “ego inflado” – quando o poder da maternidade “sobe à cabeça” da pessoa em questão e ela acredita que pode tirar e dar a vida de outro ser humano. Mas vejamos em que detalhes esse arquétipo se manifesta nessa personagem.
Geum-ja assume sua persona (o equivalente a uma “máscara” que vestimos na sociedade) de salvadora; logo após de ter sofrido um golpe traumático em sua recém maternidade, assume o crime para salvar a filha e sua sombra (aquele lado sombrio do nosso inconsciente que tentamos disfarçar) exercitando seu poder a partir de então. Este poder se manifesta através de uma atitude sutil, mas muito comum nas mulheres que conhecemos: a bondosa, caridosa que ajuda a todos com coração verdadeiro e que se doa por inteiro e ao mesmo tempo em que é capaz de fácil e calmamente matar alguém que esteja fazendo mal a outro ser humano. Esse tipo de mulher é comumente chamada de a “boazinha”, apelido pelo qual parece estar implícito algo como “é uma mulher bondosa sim, mas cuidado com ela…”. De acordo com alguns estudiosos da mente e do comportamento “a boazinha” está inflada do orgulho da bondade, ou parafraseando Flávio Gikovate, “a vaidade da caridade”. Ao fazer atos extremamente bondosos, se sacrificando às vezes, “a boazinha” consegue apoio dos outros e facilmente justifica seus atos menos dignos, sendo ainda aplaudida por muitos.
Geum-ja apresenta inclusive pontos arquetípicos das duas culturas: a de mártir cristã e a de um mito chinês muito popular na Ásia chamado Kuan Shi Yin, “aquela que ouve o choro do mundo”. Kuan Shi Yin teria sido uma princesa que vivia presa em casa por seu pai temer perdê-la, mas ela teimou em sair e visitar um templo de monges, movida por sua vontade de levar uma vida santa. Mas lá foi violentada brutalmente. Seu pai furioso mandou queimar o mosteiro por achar que os monges a maltrataram, mas acreditava que ela não estava mais lá. Porém, veio a descobrir que sim ela estava e terminou sua sina sendo queimada no incêndio. Ao rezar por sua filha morta, seu pai recebeu a visita do espírito de Kuan Yin; ela disse que não chorasse mais, pois ela teria sido levada aos céus na hora do incêndio e não sofrera com o fogo. E que seus mestres espirituais a teriam escolhido como a protetora e salvadora de todas as pessoas que sofrem dali em diante. Até hoje Kuan Yin é invocada como o espírito da perfeita compaixão que ajuda sem discriminação a todos em momentos de grande angústia.
Podemos observar que as duas propostas míticas carregam um valor espiritual e social muito parecidos e identificáveis no personagem de Geum-ja. Ela salva quem está sofrendo ao mesmo tempo em que angaria adeptos que a ajudarão na sua vingança. É por isso que achei conveniente manter o título em inglês, Sympathy for Lady Vengeance – que pode ser traduzido por “condolências à Lady Vingança” ou ainda “simpatia (no sentido de “sentir muito por”) por Lady Vingança” – pois o que se vê e se sente quando Geum-ja começa a por em prática seu plano de vingança: é uma mistura de medo e pena por ela.
Quando finalmente ela o prende e está frente a frente com o homem que “a transformou no que ela é” (palavras dela), ela descobre que ele matou mais do que um garoto. Com sua filha de volta ao seu convívio, ela se comove com a dor dos pais das outras crianças, resolve avisá-los e “reparte” o direito de vingança com eles. O que se vê então são cenas muito fortes, mas não é uma tortura sem propósito, como em alguns filmes ditos “de terror” americanos – Jogos Mortais, por exemplo – e sim, uma reflexão dolorosa a respeito da violência sem motivo plausível na nossa sociedade e o direito de se vingar do criminoso. No caso do filme, o homem matou as crianças depois de receber o resgate por elas e nem era pedófilo… Queria o dinheiro para comprar um iate e as matou porque elas choravam muito. Tudo bem, é mencionado no filme que ele era estéril e fica para o espectador alguma análise psicanalítica a respeito. Mas se parece com muitos casos reais…
Quem de nós não ficou indignado com os casos de morte cruel de crianças que aparecem nos noticiários? E quem de nós já não disse ou pelo menos pensou: “ah, se fosse com um filho meu… Acho que eu mataria o cara!” ou “mereceria pena de morte!”? Será que se fosse realmente dada a chance para um pai ou uma mãe de se vingar de um criminoso que teria matado seu filho, ele/ela o faria? Com as próprias mãos? Os pais das crianças no filme têm essa chance e demonstram a mistura de sentimentos que não poderia ser mais humana: “não vai trazer meu filho de volta”; “mas vou fazer assim mesmo”; “se ele for pra cadeia não vai sofrer tudo o que merece”; “deve sofrer como: aos pouquinhos ou de uma vez?” entre outros.
O lado mais, digamos, “oriental”, poderia alguém dizer, seria o comportamento de extrema exagero em momentos de sentimentos fortes como os de acima citados, lembrando novela mexicana. Mas será que nós ocidentais não fazemos o mesmo? Claro que sim! Em novela mexicana, em novela brasileira, nos noticiários da CNN, no “Linha Direta”…
E no alto de sua “bondade” Geum-ja deixa seu tiro de misericórdia para ser dado depois que todos mataram o criminoso um pouquinho por vez, com uma arma manufaturada a partir de um manual muito antigo. Isto pode nos remeter ao fato da vingança e a redenção serem tão antigos quanto nós mesmos. E claro, no final ela não se sente melhor, não se sente redimida nem quando – talvez inconscientemente – faz amor com um rapazote que teria a mesma idade que o garoto morto – e tenta ensinar à filha para que sua alma seja alva como a neve, como a da camada do bolo que a oferece e não como ela, toda maculada. E a filha diz que essa é a comovente estória de Geum-ja Shi e é justamente por essa falha tão humana de sua mãe e sua sinceridade em assumi-la é que a ama profundamente.
Além desse questionamento presente na narrativa, Sympathy for Lady Vengeance tem truques sutis e surpreendentes de câmera, uma fotografia maravilhosa com uma clara simbologia de cores para cada momento da vida de Geum-ja, como: enquanto está assumindo o perfil da bondosa na cadeia usa cores escuras ou pastéis e na sua fase vingativa fora da prisão predomina o vermelho nas roupas, na decoração de sua quitinete, nos seus sapatos altos e principalmente na sombra dos olhos. Aliás, é bastante revelador a sombra vermelha nos olhos, pois parece remeter à cegueira da vingança sanguinolenta.
Talvez Geum-ja se assemelhe às heroínas gregas ou shakespereanas: com algumas virtudes e um defeito que as leva à ruína. Tão trágica, tão imatura, tão humana e parecida com qualquer um de nós, em qualquer lugar do mundo - a redentora de todas nossas mazelas.
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Da trilogia q Park Chan Wook dirigiu sobre o tema “vingança”, este é oq eu considero o mais fraco.
Sympathy for Mr. Vengeance é cerebral. Um sequestro onde o sequestrador é surdo e q dá errado e vc vê a dor dos sequestradores. Psicológica e literalmente falando. A vingança traz vingança que traz vingança… e por aí vai. Alguns assuntos tabus em filmes são jogados na cara do telespectador, q uma hora ou outra não vai gostar dq vê.
A sequência, Oldboy, apela para as emoções. Um homem passa mais de 15 anos mantido preso em um quarto, sem saber pq. Quando sai, ele só pensa em q? É, vingança. Só q, por causa disso, vai sobrar pra ele. O ciclo de vingança do filme antessessor é rompido, mas com trágicas consequências. Outros tabus, mais situações grotescas.
Já o capítulo final, Sympathy for Lady Vengeance, talvez pelos antecessores serem muito bons, Wook tentou misturar cérebro e coração, e acabou não atingindo o ápice dos outros dois. Pra mim, os tabus, as situações expostas, até a vingança, não mantiveram a ascendente de qualidade q vinha condicionando os fãs. Talvez por isso, quem assista o filme sem expectativas aprecie mais dq aqueles q na época do lançamento de cada um deles, aguardava ansioso a sequência. Fora o fato dq, como dizem os escritores, o final é oq menos importa, por isso, aproveite a jornada.
1 abraço.
Fiquei curiosa…vou conferir esse filme, deve mecher muito com as emoçoes da gente…soh de ler fiquei com estomago embrulhado!
Eu gosto muito do Park. O meu predileto da trilogia ainda é o Oldboy, apesar de ter gostado muito de Lady Vengeance.
Estou ansiosa pelo novo filme dele que foi lançado em Cannes esse ano.
Um abraço
Olá, Sara!
Adoro o Park. É difícil escolher qual eu mais gosto, mas acho que o Oldboy tem um quê de maior acabamento, sei lá.
Tb espero desesperadamente pelo novo filme!
Obrigada por participar. Fiquemos ligadas!
A trilogia da vingança de Park Chan Wook é magnífica não por enfocar o desejo de retaliação que se submete às pessoas quando suas vidas são terrivelmente destruídas seja por um ato banal, seja por assumir um crime não cometido. Como você mencionou no texto, cabe refletir no quanto aos modelos ocidental e oriental de se enxergar o mundo (e que ao mesmo tmepo locomovem a sociedade em suas aldeias globais) remete aos valores universais aos quais somos criados, independentemente do local e da cultura em que nascemos e crescemos.
A dor de se perder um filho ou perder a própria vida – no que tange a ser retirado abruptamente de seu cotidiano pacífico – é uma dor que se torna particularmente difícil de reproduzir e assimilar por meio de tempo e superação de um sofrimento o qual irá deixar marcas indeléveis para o resto da vida. Mas a redenção é possível, como pôde ser visto nos três filmes, embora ela não venha na forma de um típico final feliz de novelas mexicanas e globais. Nota-se que a dor ainda persiste nestes personagens marcados pela vida, contudo este anseio pela redenção deve ser buscado no amor nutrido pela pessoa mais próxima, no caso da mãe para com sua filha.