O semblante é a economia do discurso

["The great war", de René Magrite]por Vanessa Souza – Eu estava em uma grande loja de departamentos – bem, nem tão grande – na cidade onde morei 22, dos meus 27 anos. Minha cidade, minha pequena pátria, onde nasci, as ruas que percorro sem medo da violência urbana, sem pessoas pedindo uma “moedinha aí, tia”, sem corpos envoltos em trapos sujos pelas ruas – como se fizessem parte da paisagem, já que ninguém se escandaliza mais com eles, só desviam um pouco da rota para não pisar, acidentalmente, em cima. Não lembro exatamente o que olhava, pijamas, talvez, fazia frio e eu não levara muita roupa. Subitamente, alguém grita meu nome.

- Vanessa! Que bom te ver! – exclama uma mulher atarracada, de olhos muito pintados, mechas roxas no cabelo e unhas enormes com uma cor de esmalte reluzente, não sei definir o nome da cor, essas que se lêem nas cartelas de cores dos catálogos de moda, algo como rosa chiclete.

- Oi… Tudo bem? – respondi, timidamente, educadamente, lentamente. Caramba, quem é essa mulher? Não tem idade para ser amiga de colégio, graduação ou especialização, já que tem, provavelmente, uns 10 anos a mais que eu. Não é do meu círculo de amigos. Será que trabalhou comigo? Pense, pense rápido, pense… Disfarce também.

- Passeando aqui? Veio ver os pais? Nunca mais te vi por aqui… – disse ela, sorridente. 

Enquanto eu esboçava um meio sorriso, e procurava no fundo da memória quem era a desconhecida, sem nada dizer, meu semblante me entregou: ela começou a perceber que eu não lembrava quem era ela.

- Vim visitar a minha família. Faz cinco anos que não moro mais aqui… – pense, pense, pense. Quem é essa mulher? Meu embaraço foi aumentando, acompanhado da culpa de não saber quem era aquela cidadã. Preciso inventar alguma coisa para não decepcioná-la.

- Agora eu estou trabalhando no Zeus, vê se passa lá! – disse a estranha, sorrindo, ainda. 

Zeus! Céus! O que vem a ser isso? Uma boate? Uma loja? Como? Eu ainda tentava disfarçar, mas como disse Lacan, sei lá em qual seminário, o semblante é uma economia do discurso, a verdade não contraria o semblante, o semblante a sustenta. E a grande verdade ali é que eu não sabia quem era a estranha que me abordara, tão amistosamente. E ela, fatalmente, percebeu. 

- Peraí, Vanessa, você não está lembrando de mim, né? – indaga ela, com o desapontamento expresso em seu tom de voz.

- Não, imagina… – respondi, super sem graça e ruborizando. Maldita cútis pálida!

- Bem, eu já vou indo, tudo de bom para você, e vê se aparece lá no Zeus! – e se foi, desaparecendo entre as araras, e eu querendo desaparecer daquele lugar. 

Com o rosto queimando, fui para o provador levando comigo umas peças de roupa. Um pequeno cubículo para me esconder do meu próprio desembaraço. Enquanto me olhava no espelho, lembrei-me de quem era ela: uma manicure de um salão de beleza que eu freqüentava. Seu nome, ainda não sei. E Zeus, creio, o novo salão de beleza em que ela trabalhava.

Enquanto caminhava naquelas ruas tão conhecidas, de volta para a casa dos meus pais, pensei que poderia ter dito a verdade, logo no começo. Para poupar a estranha, tentei dissimular. Em vão. De mais a mais, meu semblante me entregou. Economia total do discurso. Onde a memória falta, onde as palavras não se reproduzem, o semblante salta aos olhos. Ele não nega. E entrega.


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8 comentários | Dê sua opinião

  1. Joao~Grando 08/10/2008 em 9:38 am

    Pois é. É mesmo. Teríamos de andar com máscaras se quiséssemos mentir certas mentiras.

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  2. Lila 08/10/2008 em 10:17 am

    como vc. mesma disse que o semblante não mente e esse tipo de coisa acontece frequentemente,ou pelo menos mais vezes do que gostaríamos, não teria problema nenhum em dizer que não estava reconhecendo-a de uma maneira sutil e gentil…rs….

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  3. Elisa 08/10/2008 em 11:24 am

    Amiga, para o bem e para o mal, os semblantes que economizam discursos são os mais verdadeiros. E melhor que assim o sejam, não? Ainda que passemos pequenas “vergonhas” como essa, e tenhamos que remediar com palavras.
    beijinhos

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  4. Fabiana 08/10/2008 em 12:14 pm

    É sempre um prazer ler os seus textos, eles conseguem se comunicar, unindo duas almas, a sua com a do leitor, me senti em sua pele nessa pequena gafe transformada num grande conto! Continue assim e seja cada dia mais feliz : )

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  5. Ricardo Valente 08/10/2008 em 3:56 pm

    Final poético, profético, sei lá. Gostei, Vanessa. Não me conhece? Abraço!

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  6. Ma 08/10/2008 em 6:55 pm

    Excelente conto, Vane!

    Final poético, profético [2]

    Bjos, amiga!!

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  7. Tais Luso 08/10/2008 em 8:32 pm

    Vane, eu estou passando por uma destas! Como almoço fora, encontro a criatura todo o dia no mesmo restaurante, e ela fica encarando (de longe) pra dar um alozinho… E dou! Só que não lembro donde é a fulana… Estamos neste ‘namoro’ há semanas. E meu marido fica a me cutucar para que eu fale com ela, rsrsrs. Mas para dizer o quê?? Que não a conheço? De onde ela surgiu? Agora comecei a me esconder da mulher. Estou numa saia justa, amiga!
    Adorei esta tua história.
    Beijão
    Tais

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  8. Anderson Mendes 10/10/2008 em 7:12 pm

    Concordo Vanessa, no dia em que o difícil ato de dizer a verdade se tornar automático ao ser humano… Imagine o magnânimo nível evolutivo que teremos alcançado?

    Pena que meu pessimismo não me permite achar que nossa geração viverá isso… rs

    Forte abraço!…

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