6–10–2008

Gainsbourg

por Luiz Biajoni – Tive a sorte de ser o primeiro sobrinho de duas tias e um tio que foram adolescentes nos anos 60 e 70. Assim, quando tinha uns 12, no início dos 80, tive acesso a uma série de discos (de vinil, claro) interessantíssimos. Beatles, Presley, Dylan e outros mais obscuros. No meio dessa pilha tinha um disco verde, com o sugestivo nome Erotica. A canção que puxava esse álbum era “Je t’aime… moi non plus”, dum tal Serge Gainsbourg. Eu ouvia meio que escondido, enquanto sobrevoava nuvens purpúreas de imaginação.
 
Cresci pensando nesse cara. Para fazer uma música tão sensacional o cara devia ser também. “Je t’aime…” virou tema de um comercial de um prostíbulo campineiro (“A Fazendinha”) que passava sempre antes do Jô Onze e Meia, no SBT… a canção sofreu uma avacalhação. Mas continuei achando a música ótima – aquela linha de baixo sentimental…  
 
Quando os CDs importados ficaram mais acessíveis fui até uma loja e encomendei um Best Of do Gainsbourg. Aí me apaixonei pelo cara, mesmo sem saber sua história ou conhecer a língua.
 
Também por essa época, com acesso à TV paga, pude ver (e gravar) Paixão selvagem, o filme dirigido por Gainsbourg que tem o mesmo título da canção e Jane Birkin, Joe D’Alessandro e Depardieau no elenco. Babei e revi mil vezes.
 
O fato é que a editora Barracuda lançou no Brasil a biografia do compositor-cantor-cineasta-ator, grande sedutor e figura polêmica: Serge Gainsbourg – Um punhado de gitanes (2004). Mesmo que nada se conheça sobre esse bardo bêbado e fumante inveterado, a leitura vale – como se fosse uma ficção. O sujeito era uma figura! 
 
Feíssimo, Gainsbourg começou na música com mais de 30 anos. Namorou Brigite Bardot, casou com Jane Birkin (ao lado) e, viciado em gamines, casou com uma jovem cantora, Bambou, quase 30 anos mais jovem que ele – com quem teve um quarto filho. Fez de todas, cantoras; fez músicas polêmicas; fumou centenas de milhares de cigarros (até cinco maços num dia!) e entrou para o imaginário francês como símbolo de transgressão e (paradoxo) refinamento e bom gosto. Um cruzamento entre Johnny Rotten, Bowie e Burt Bacharach. 
 
Tem tantas histórias maravilhosas no livro que ressaltar apenas uma é mostrar apenas uma faceta desse artista completo. Só lendo mesmo. Mick Harvey, dos Bad Seeds de Nick Cave, disse que a barreira lingüística restringiu Gainsbourg à França – sendo que ele tem o mesmo nível poético e musical de Leonard Cohen ou Dylan.
 
Quando morreu, em 1991, vítima de seu terceiro ataque cardíaco, aos 62 anos (o primeiro foi aos 45), o presidente Mitterand, o Ministro da Cultura Jack Lang e Jacques Chirac, prefeito de Paris, apareceram para lamentar em público. Nicolas Godin, do Air, diz que “todo francês se lembra de onde estava quando ficou sabendo da morte de Serge”. Sua casa e seu túmulo são alguns dos pontos mais visitados de Paris. As pessoas vão até la e depositam Gitanes em homenagem ao ídolo.

O sujeito é também um dos mais procurados no YouTube – que tem vários vídeos históricos com ele, alguns até lamentáveis.

Leia também:

| 6 comentários | Dê sua opinião ↓ |

  1. Ju Dacoregio (6–10–2008 1:45 pm)

    “Je t’aime… moi non plus” não é uma das minhas canções preferidas, mas ela é grudenta e mesmo que eu tenha vontade de avançar o cd e passar pra próxima música nunca consigo.

    -Responder

  2. Sabrina (6–10–2008 6:42 pm)

    Palmas para o eterno blasè Serge Gainsbourg…seu charme, sua ironia, seu glamour típico dos franceses…E para celebrar o casal mais sussurrante da história, nada melhor que ’69, Année érotique’…

    Ont pris le ferry-boat
    De leur lit par le hublot
    Ils regardent la côte
    Ils s’aiment et la traversée
    Durera toute une année
    Ils vaincront les maléfices
    Jusqu’en soixante-dix
    Soixant’-neuf
    Année érotique
    Soixant’-neuf
    Année érotique…

    P.S. Foi bom para você? Vou acender um cigarro…

    -Responder

  3. Sabrina (6–10–2008 6:55 pm)

    A moçoila ao lado dele na foto é Jane Birkin e não Brigitte Bardot…

    [obrigado, Sabrina, já corrigi.
    daniel - editor
    ]

    -Responder

  4. Fábio Shiraga (11–10–2008 9:23 pm)

    Eu ainda não o conheci, mas acho que já gosto do Gainsbourg só pelas histórias que ouço o Biajoni contar.

    -Responder

  5. soraya (20–10–2008 6:10 am)

    melhor que biajoni contar sobre je taime moi non plus, seria ele cantar , com jane, em rede nacional…rs

    -Responder

  6. Marcio (9–08–2009 7:51 pm)

    Os tempos de hoje onde tudo se replica e tudo se copia, acabam por ofuscar aquilo que realmente é original, Gainsgourg e Birkin com seu*CLASSICO* Je t’aime… foi um marco da sutileza sensual, No you tube pode-se assistir com titulo de( Jane Birkin & Serge Gainsbourg -Je T’ame moi non plus) de 1969; Observem a beleza de *ENFANT* de Jane Birkin,mesmo sem usar recursos de maquiagem,branqueamento dental etc… Ela arrebenta, é BELISSIMA!!

    -Responder