Expectativas para “Milk”

por Ana Al Izdihar – Como você geralmente se lembra de Sean Penn? Sempre fazendo papel de machão? Bandido? Engraçado, eu também… Pois em breve o veremos interpretando um homossexual assumido no filme Milk, cuja estréia no Brasil está marcada para novembro próximo. E devo dizer que chega a dar medo vê-lo tão diferente! A seguir vou explicar por que me surpreendi tanto.

Disse que achava engraçado, pois se olharmos a filmografia de Sean Penn ela é até bem variada, não entendo porque a gente só lembra dele fazendo bandido… Um dos personagens dele que eu gostei muito foi o Jim de Não somos anjos, uma comédia em que ele interpreta um ex-presidiário (ok, um bandido… Desculpa!) que junto com Ned (Robert DeNiro) se disfarçam de padres e se escondem num mosteiro para fugir da polícia. Muito engraçado! Nos anos 80 fez uns papéis de galã. Já nos anos 90 eu destaco o fantástico pobre coitado de Reviravolta, de Oliver Stone, que entra numa cidade de gente louca e não consegue mais sair. Excelente interpretação: agoniado e patético! Ou quem não se emocionou com Sam, aquele homem com problemas mentais que luta na justiça para recuperar a guarda da filha?

Parece que Hollywood recentemente “abraçou” a causa gay e é politicamente correto fazer filmes sobre homossexuais, ou atores interpretando gays como se tivessem esperando por essa chance a vida toda. Mais um exemplo de oportunismo, talvez? Contudo, não me parece ser o caso de Sean. No caso dele não sinto um oportunismo (e posso estar enganada, hein?). Ele tem tido uma postura coerente e corajosa em sua carreira e mesmo fazendo o machão do pó, ou aquele que bateria na mulher, vem fazendo também papéis que fogem disso e sempre provou ser muito competente e fascinante. E é isso o que faz um grande ator: a surpresa e a vontade de superação da mesmice.

Ao ver o trailer de Milk já é possível sentir o quanto Sean se esmerou na construção desse personagem: seus gestos, seu andar, o jeito que ele franze a boca delicadamente para frente, com feminilidade, mas sem o estereótipo “da bicha louca”. É uma expressão facial sutil, mas está lá, tão emotiva. Só não se deixem enganar pela estratégia da edição de trailers, que é sempre a mesma: uma mega explosão de ação e emoção. As cenas mais impressionantes são as escolhidas e editadas de modo a fazer cócegas nas suas mais voláteis saliências – tudo hoje em dia tem de ter emoção ao extremo, não é mesmo? (Veja o livro O culto da emoção, do pensador francês Michel Lacroix.)

 

Voltando ao Sean, ao ver o trailer não ligue para a estratégia manjada da edição. Repare somente no ator, no seu gestual, no olhar, no jeito que ele pára, no jeito que ele olha, ou anda. Já prevejo que o melhor do filme será ele.

O diretor Gus Van Sants – que dirigiu Gênio Indomável, Paris, eu te amo – tem um olhar sensível, que esbarra no ultra emocional às vezes, mas acaba convencendo. O enredo é baseado em fatos reais: a vida e obra de Harvey Milk (ao lado), o primeiro gay a assumir um cargo público por eleição nos EUA. Não vou falar aqui muito da vida de Harvey Milk para não estragar a surpresa do filme, mesmo porque quando da época do lançamento deste, vocês ouvirão falar da biografia de Harvey o tempo todo. Também é previsível o comichão de popularidade da estória. Não acredito que superará em beleza, nem em profundidade a O Segredo de Brokeback Mountain, mas será uma estória bem contada, mesmo que um tanto melodramática no tom. Será eloqüente e, tendo Sean com sua manga sempre cheia de surpresas, não fugirá do sucesso, pelo menos médio.

Não vejo nada de mal nisso, entendem? Curtir filmes muito populares e/ou blockbusters. Já se foi o tempo em que eu era radical e não me permitia gostar desse tipo de filme, e me enfurnava em casa para assistir filmes alemães obscuros e depois fazer pose de cult. Ser “crítica” de alguma coisa nesse país parece uma prisão! Se você dá um passo para frente é brega, se dá um passo para o lado é cult, para a direita é careta, para trás é alienado… Já me libertei dos “quadrados” e das opiniões alheias. Aprendi isso com alguns professores acadêmicos mais conscientes…

Bem, na minha sincera opinião tem faltado – ao cinema em geral, mas principalmente ao americano -, aquele glamour do mocinho que dá uma lição de vida, que luta, luta, luta e vence. Aqueles heróis que sentiríamos prazer em imitar. Sem moralismos, estou longe disso, mas gosto desse tipo de filme sim. Ultimamente, os heróis vêm na pele dos vilões: homens feios, assassinos, covardes, ou bobos, que chamam mais atenção para os valores tortos da sociedade, e os “caras bonzinhos” são sempre idiotizados ou cafonas. Gosto de vilões, sem eles o enredo não é nada, mas e os heróis? Agora, parece que não raro esses heróis mais tradicionais têm de vir da vida real, pois já parece impossível “criar” mocinhos fictícios…

E para que esse tipo de enredo vingue nas bilheterias, as produções têm feito exatamente isso, como o emocionante e para cima Ray, o quase trágico Em busca da Terra do Nunca e o poético e profundo O Segredo de Brokeback Mountain. Milk tem chances de se tornar mais um do tipo, confiando em Gus Van Sants, em Sean Penn, no enredo de Dustin Lance Black e, claro, nas edições bem feitas. Quando estrear, conversamos de novo para conferir.


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4 comentários | Dê sua opinião

  1. Suelen de Andrade Viana 02/10/2008 em 10:19 pm

    Ana, você não me surpreende. Sabia que iria ler coisa boa por aqui quando soube que você escreveria sobre cinema para o Amálgama.
    Adorei! Valeu a dica!
    Sue

    Responder
  2. Renato Medeiros 02/10/2008 em 10:37 pm

    Já tinha ouvido falar do lançamento desse filme, mas não dei muita importância, mesmo tendo Sean Penn como protagonista (Sean Penn que me deixou de boca aberta quando vi “Os últimos passos de um homem”).

    Mas agora lendo esse seu texto, sei que não vou conseguir não ir aos cinemas ver isso, ou pelo menos fazer um download rápido por aqui mesmo.

    Acho que vou gostar novamente da atuação de Sean Penn e tenho uma leve impressão de que logo após o filme, terei curiosidade em saber mais sobre a pessoa Harvey Milk. Será? “Quando estrear, conversamos de novo para conferir”.

    Responder
  3. João Grando 03/10/2008 em 9:35 am

    Olha, a minha expectativa maior é pelo novo filme ser de Gus Van Sant, que foge de quaisquer rótulos, especialmente quando podemos considerar que ele encerrou uma trilogia conceitual com o magnífico Paranoid Park (completando Last Days e Elephant). E, pela experiência que temos desta trilogia, talvez Gus Van Sant não será fiel à história real e a usará para falar de outra coisa (mas não li nada a respeito, então não posso dizer).

    E respeito muito tua opinião sobre cinema, até porque provaste ter uma cabeça aberta, mas acho que não devemos criar uma expectativas acerca do tema homossexualismo no âmbito de Hollywood. Brockback Mountain já fez este barulho ao ir ao âmago da questão, usando a figura de Cowboy e tal, mas o principal do filme foi sua mistura cultural (um filme americanizado filmado com um olhar oriental e um romance subversivo tratado pelo seu lado romântico e não polêmico). O que quero dizer é assim ó: Brockback é realmente um grande filme. Mas o é por méritos que provavelmente não serão os mesmos de Van Sant (pelo que se sabe de sua filmografia): são dois grandes diretores, mas diferentes. E acredito que o tema homossexualismo seja pouco para aproximá-los para uma comparação de qualidade, mas somente como tratamento de tema.
    Mas tudo isso são questões para o futuro.
    Um abraço.

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  4. Ana Al Izdihar 06/10/2008 em 1:59 pm

    Pessoal,
    desculpa a demora em responder.
    Quero agradecer a participação de todos aqui no meu texto. Por favor, vamos continuar a nos corresponder.

    Suelen: a gente se ve mais aqui, hein?

    Renato: essa é minha intenção: provocar um pouco pra ver se as pessoas “pagam pra ver”, sabe como?

    João: hoje em dia não se fala mais em “fidelidade” em adaptações cinematográficas. E por isso eu usei aspas no verbo “criar”, na frase: ” ‘criar’ mocinhos fictícios”. Assim foi com “Ray”, mesmo sendo aprovado pessoalmente pelo Ray Charles (não foi 100% fiel, claro). Obrigada pela participação. Adorei

    Até mais

    Responder

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