Entre outras coisas, Ratzinger
por Cairbar Garcia * – A deformação das características éticas da sociedade moderna, onde o statu quo se encarrega de suplantar o bom senso, a justiça e, acima de tudo, os quase inexistentes sentimentos de afeto, tem contribuído para a auto-destruição acelerada do ser humano que, se ganha em longevidade, perde muito em qualidade de vida.
É evidente que a história da humanidade foi escrita com barbáries inomináveis, vindo o ser humano a ter um pouco de percepção humanitária somente depois da Segunda Guerra Gundial, o que não justifica o terrível estado de degradação atual, pois é sabido que nos últimos cinqüenta anos o homem aprendeu mais dos que nos outros 1950 anos Depois de Cristo.
Hoje não existem mais instituições estáveis, não são respeitados os mais elementares preceitos de igualdade, não existe o amor em nenhuma de suas formas, haja vista que até Ratzinger, o papa de plantão, abriu a bocarra estúpida para soltar a brutalidade a seguir, referindo-se aos crimes hediondos do Santos Oficio: “… Deus, embora não faltando nunca à sua promessa de salvação, teve que recorrer amiúde ao castigo” (extraído desse artigo de José Saramago). É de se perguntar ao Santo Papa se os poderosos, os reis e a Igreja Católica tinham procuração de Deus para torturar, queimar e matar milhões de pessoas no mundo.
O fator determinante para o aleijão comportamental da sociedade contemporânea tem raízes nos primórdios da História. O homem jamais foi um ser dotado de bondade espontânea, não se preocupa nunca com o sofrimento dos iguais da espécie e, se chega a sentir qualquer compaixão, se é capaz de se incomodar com as desgraças dos que não lhe são próximos, o faz por circunstâncias que raramente são um indicativo de amor ou solidariedade.
É evidente que existe uma pequena parte da sociedade cumprindo papéis muito diversos dos castigos apregoados por Ratzinger, defendendo a natureza, procurando ajudar de uma maneira ou de outra na construção de um mundo menos traumático. Mas enquanto essa louvável minoria luta incansavelmente, uma grande maioria egoísta, pouco preocupada com o papa ou com a suposta salvação divina, age totalmente na contra-mão. Assim, seria viver de utopia almejar um mundo melhor para as futuras gerações.
* Cairbar Garcia foi colaborador do Diário da Região e da Rádio Anchieta, ambos de São José do Rio Preto-SP, onde mora ainda hoje. A rádio acabou fechada pela ditadura militar. Trabalhou na Secretaria da Educação paulista, da qual foi obrigado a aposentar-se precocemente sob pretexto, por parte da chefia, de “incapacidade mental”.
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Nossa! Quando eu li seu texto eu parecia ouvir uma pessoa extremamente irritada, aborrecida, indignada com tudo que a gente tem feito com nossa existencia. O papa levou porrada com esse texto, mas eu também apanhei. Logo hoje que estive pensando exatamente na bondade e solidariedade que algumas pessoas conseguem realmente ter de forma expontânea. Não sei, ou eu sou muito ingênua ou existem sim pessoas capazes de solidariedade pura. Seu texto é corrido, forte, coerente, mas para mim, apesar de concordar com muito do que vc disse, parece muito pessimista.
Sue
Cairbar, só um ponto: eu penso que o homem aprendeu muito mais nos 1950 anos anteriores a estes últimos 50 e poucos.
Basta olharmos ao oriente.
Não é porque o ocidente abriu seus olhos para algumas coisas que aprendemos tanto não. A menos que reduzamos conhecimento à tecnologia e evolução à libertação sexual (que é relativa). Talvez justamente este tipo de análise (ênfase no material) que nos gere tudo isso.
Mas no mais, tu estás certo, dentro dos limites relativos da palavra certo.