De sexo e fogo
por Daniel Lopes – Acabei de concluir a releitura de O anatomista (L&PM, 2005), romance de 1996 do argentino Federico Andahazi, ainda na ativa. Boas lembranças. Aliás, o motivo que me fez ir atrás de comprar esse livro foi a decisão de relê-lo para redescobrir seus encantos. A primeira vez que o li (a edição prévia era da Dumará), o fiz, inclusive, no Ensino Médio, em meio a umas tantas aulas de física, matemática, química e biologia. À época, aluguei o livro numa locadora próxima ao colégio, impulsionado apenas pela capa, com detalhe da pintura “Adão e Eva” (1507), de Albrecht Dürer, que se repete na edição da L&PM.
Como eu constataria, o livro não tinha apenas a capa de belo, e nós sabemos que existem livros de belas capas e só. Se você consegue se apaixonar por um livro que lê enquanto um professor explica que a adição de um íon comum diminui a solubilidade de um conjunto iônico, então, no seu conceito, você encontrou um clássico.
Mas, se minha memória dos acontecimentos da semana passada é ruim (inclusive memória de boas leituras), o que dizer de algo de cinco, seis anos atrás. Só lembrava que O anatomista havia me fascinado. Por quê? Agora lembro. Tudo aqui é empolgante. Toda página. De uma estória que se passa na Idade Média, não apenas a narração, eivada de ironia, é genial. Eis, amigos, a crônica das andanças do anatomista Mateo Colombo, que tenta salvar a pele do fogo da Santa Inquisição enquanto continua seus estudos sobre o que descobriu e nomeou como “Amor Veneris” – o que hoje chamamos de clitóris. Como um bom cientista, Mateo não pode prescindir da prática. E lá vai ele atrás de prostitutas e cadáveres de mulheres para, respectivamente, testar a eficácia da excitação do Amor Veneris para se deixar uma mulher caidinha e para simplesmente desenhar o mapa anatômico do seu achado. É que ele está caidão por Mona Sofia, a mais bela puta da Itália, veneziana de pernas que parecem de madeira fina, olhos verdes que se assemelham a safiras, mãos delicadas e por aí vai. Ela desdenha dos clamores de Mateo, coitado.
A escrita de Andahazi é envolvente demais. Elegante. Excitante como Mona Sofia nua, posando para o encantado anatomista-artista. Seu texto tem aqui e acolá uma passagem de humor negro, o que é mais efetivo quando a Inquisição é o alvo. Assim: “Isso sem contar a aversão que o nosso anatomista sentia pelo fogo e pelo cheiro de carne, sobretudo em se tratando da própria”. Com passagens assim, ninguém sente falta de discursos contra a Igreja. Melhor rir das pequenas e grandes tragédias, a envolverem homens simples e a humanidade de uma forma geral.
Os Doutores da Igreja levaram Mateo a julgamento no Tribunal porque o cientista ousou descobrir “a razão anatômica do amor” (palavras do narrador). Como deixar livre do fogo do inferno alguém que encontrou a fórmula para obter o amor das mulheres? Como deixar distante do tridente de Satanás aquele que gerou uma teoria que poderia dar às mulheres a idéia, primeiro, e depois a certeza de que tinham a chave para o controle de seu destino bem entre as pernas?
Mateo Colombro só não é queimado porque em cima da hora recebe ordem de ir a Roma, onde necessitam de seus serviços medicinais. Mais especificamente ao Vaticano, onde o papa Paulo III está moribundo, desacreditado por e descrente dos seus súditos e médicos. A má-fama de nosso anatomista, enfim, não deixa de ser uma fama. E lá se foi Mateo Colombo ao Vaticano. O que é o começo do fim de um grande livro.
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“O Anatonista”. Obrigado pela lembrança. Está aí um livro que já me foi recomendado e que nunca me lembro de adquirir. Assim como você, me disseram que é ótimo.
E obrigado por ligar-me ao Amalgáma.