Sade e a política contemporânea

por Raphael Douglas

-- "Franceses, mais um esforço se quiserdes ser republicanos", de Marquês de Sade --

 

O que pode Donatien Alphonse François de Sade (1740-1814), o Marquês de Sade, contribuir para a política contemporânea? Geralmente conhecido por escritos atrevidos, libertinos, libidinosos e libertários, Sade foi, também, um notável pensador da política. Que não se perca de vista seu espírito de homem das Luzes, participante ativo da Revolução Francesa e agudo crítico dos sistemas de poder central. Em Franceses, Mais um Esforço se Quiserdes Ser Republicanos, organizado e traduzido por Plínio Augusto Coelho e impresso pela Ateliê Editorial, encontramos um texto dos mais pertinentes para os perigos momentâneos.

Assim como o Egito de Mubarak e a Líbia de Kadafi, a França pré-revolucionária do séc. XVIII sofria com a presença de um tolhedor e impetuoso poder monárquico. O espírito francês, tomado por uma necessidade inexorável de democracia, deu vida ao que conhecemos hoje por Jornada do 10 de agosto de 1792. Luís XVI, com a monarquia já em frangalhos, nada pôde fazer para conter a gana democrática. Com a república instaurada, Sade — liberto da Bastilha e tornado membro da seção revolucionária de Piques — dá início a um esforço panfletário, tentando demonstrar a urgência da entrega efetiva do poder às mãos do povo.

Bradava aos populares para que não abrissem mão do poder de sanção das leis, alegando que a aristocracia não estava longe como se pensava, já que seus vapores ainda carregavam a atmosfera. Sade, observando em 1792 o insucesso da Assembleia Legislativa, anteviu que a lentidão e a indecisão democrática dos revolucionários poderia ser terreno da retomada do poder por parte de déspotas, reis ou imperadores. Quem governará? O Terror de Robespierre? A demora da resposta efetivou as previsões do Marquês. A República, praticamente natimorta, não sobreviveria mais do que 10 anos, quando Napoleão deu existência ao 18 de Brumário. A liberdade, “que só se adquire por rios de sangue”, estava novamente cerceada.

E hoje, derrubados os ditadores nas recentes revoluções árabes, quem se apresentará para reger populações não habituadas à democracia? Franceses, mais um esforço se quiserdes ser republicanos é um panfleto que pode ser lido no quinto diálogo da sua Filosofia na alcova, de 1795. Estamos diante de um escrito que pode ser útil no trato de um dos perigos do nosso tempo, basta apertar o F5 do pensamento.

::: Franceses, mais um esforço se quiserdes ser republicanos ::: Sade (trad. Plínio Coelho ) :::
::: Ateliê Editorial, 2010, 96 páginas ::: Compre na Livraria Cultura :::

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