Vestígios de Praga

por Maria Ivonilda

-- "Malá Strana: Vestígios de Praga", de Jan Neruda --

 

Malá Strana, publicado em língua portuguesa pela Record, com tradução de Luis Carlos Cabral, é um livro de Jan Neruda (1834-1891). Neruda é um autor que muitos associam a Pablo Neruda, afirmando que o poeta chileno adotou o pseudônimo inspirado no nome do escritor tcheco, mas não se sabe ao certo. Nesse livro, Jan Neruda retrata o dia a dia de um bairro classe média de Praga, o Malá Strana, em um contexto correspondente aos fins do século XIX.

De todo modo, esse retrato não diz respeito a uma das vinte cidades mais visitadas do mundo, cujos monumentos integram o patrimônio histórico mundial, isto é, não se trata aqui de um olhar “estrangeiro” sobre Praga. Na verdade, o retrato feito por Jan Neruda diz respeito a um olhar de dentro e para dentro de Praga. Nesse sentido, há conexões em uma realidade histórico-social que são identificadas pelo autor com a precisão que talvez não esteja presente em outros relatos: Jan Neruda, de fato, mergulha no cotidiano e explora, de forma realista, casos que aparentemente estão isolados e portam-se como independentes, mas que, quando recebem a devida atenção, se mostram como casos interligados. Reitero: a lente usada por Jan Neruda é realista, o que não implica em uma leitura cansativa, pois a riqueza de detalhes que ele transpõe para o papel não é de forma alguma excessiva; afinal, ao optar por um livro de contos, o autor deixa claro que não quer nos convencer de coisa alguma. O que são retratadas são situações cotidianas que, embora tenham uma certa ordem cronológica, nem sempre partem de um ponto fixo.

É um pouco difícil não fazer uma associação entre Jan Neruda e Franz Kafka. Do ponto de vista biográfico, além do fato de ambos serem escritores e nascidos em Praga, há uma inquietação que produz o pensamento crítico, e confesso que me chamou a atenção o fato de ambos terem optado por cursar filosofia, embora Kafka tenha sido impedido pelo pai. Mas no que diz respeito à obra em si, há certamente uma semelhança entre os escritores, principalmente no que se refere a uma descrição de ambientes. Há uma riqueza de detalhes nos contos de Neruda que me fez lembrar imediatamente dos ambientes de Gregor Samsa descritos por Kafka em sua obra A metamorfose. Obviamente, não se trata exatamente do mesmo caráter descritivo, pois se Neruda se preocupa mais com o humano em seu direcionamento cotidiano e faz suas descrições de forma realista, Kafka constrói, com afirmou Heinz Politzer, um “realismo da irrealidade” para falar sobre a condição universal humana – o que não impede de identificarmos algumas semelhanças entre os estilos assumidos pelos dois autores. Para mim algumas dessas semelhanças se tornam evidentes logo depois da leitura do primeiro conto, intitulado “Uma semana e uma casa tranquila”.

-- O autor --

Dos vários bons contos da obra, dois chamaram minha atenção. O primeiro é intitulado “A missão de São Venceslau”. Nele, Neruda se detém a falar sobre um indivíduo em uma situação no qual é refém do medo, e o autor conduz a narrativa contextualizando a situação em uma atmosfera religiosa. É um conto bastante interessante, no qual Neruda não faz juízos de valor, mas oferece metáforas brilhantes que nos permitem ver algo “além” do que está sendo mostrado, no sentido de que podemos fazer uma analogia com a condição humana.

O segundo conto que eu ressalto aqui é o último conto da obra e também o mais longo: nele, Neruda parece fazer um distanciamento do resto da obra, pois o conto parece muito independente de tudo o que foi colocado até então. O texto, intitulado “Figuras”, traz à tona um personagem cínico típico de algumas obras que admiro. Novamente, é difícil não fazer comparações: nesse caso, comparo o personagem central a outros personagens já conhecidos de nós, são eles o Lord Henry Wotton, de O retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde), e Jean-Baptiste Clamence, de A queda (Camus). Talvez o advogado cínico, que se muda para o bairro Malá Strana para estudar sossegadamente, mas é “impedido” de fazer isso porque faz um contato direto e contínuo com seus vizinhos, guarde mais semelhanças com Clamence, também advogado, descrito na obra camusiana. Há no conto de Neruda o mesmo tom confessional da obra de Camus, assim como está presente a mesma dose de cinismo em um personagem que não faz o menor esforço para agradar quem quer que seja. E que, por isso mesmo, faz com que nos enxerguemos nele, pois os seus pensamentos e ações são os nossos pensamentos não ditos e nossas ações não realizadas. E, sim, considero que há uma certa genialidade em expressar aquilo que aparentemente não pode ser dito e nem realizado.

Com isso encerro a minha indicação desse livro que tem sido considerado o “lançamento do semestre”. De fato, com a enxurrada de livros que só são lançados porque contém histórias que reproduzem a mesma fórmula das telenovelas, há de se louvar a iniciativa de tradução deste livro para o público de língua portuguesa, principalmente o brasileiro, que é tão maltratado com a agressão à sua inteligência e sensibilidade por parte de uma mídia caduca, mas ainda detentora de poder.

::: Malá Strana: Vestígios de Praga ::: Jan Neruda (trad. Luis Carlos Cabral) :::
::: Record, 2011, 416 páginas :::
::: compre no Submarino ou na Livraria Cultura :::

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