Sionismo, história, teologia e geopolítica

por André Egg

 

Saiu em português, com certo atraso, o livro A invenção do povo judeu (Benvirá, 2011), do historiador israelense Shlomo Sand. Já vinha provocando debates com edições em francês e inglês há um bom tempo. Ainda não entendi se também tem edição em hebraico, mas de todo modo Sand é professor de História na universidade em Tel-Aviv.

Eu já fiz uma resenha do livro para o jornal Gazeta do Povo (PR), de modo que não preciso repetir aqui a reflexão a respeito da obra.

Só gostaria de complementar uma questão.

O livro de Sand fez toda a reflexão histórica pertinente ao assunto, passando pela discussão teórica da questão de nação, pela construção da historiografia sionista no século XIX, pelos meandros que prenderam a vida universitária israelense a essa ideologia complicada.

Além disso, se deu ao trabalho de fazer um grande panorama do conhecimento histórico válido sobre a história dos antigos hebreus, sobre o reino de Judá, sobre o cativeiro babilônico, sobre o reino hasmoneu, sobre a situação dos judeus no mundo helênico e no império romano. Sobre o judaísmo antigo, sobre e pretensa diáspora após Tito destruir Jerusalém, sobre os reinos judeus resultantes de proselitismo — Himiar, no sul da península Arábica; a rainha Kahina, no norte da África; os Khazares no cáucaso. Estes últimos dados como origem mais provável da ydishland do Leste Europeu.

Tudo isso para desmontar a ideologia que sustenta o Estado judeu no Oriente Médio: a de um povo étnico uniforme deslocado de suas terras há 1.900 anos, que passou este tempo mantendo uma pureza racial indicativa de sua predestinação divina, e esperando o momento de voltar a uma terra que é sua por direito divino.

Isso tudo mantém o Estado judeu identificado como o país de todos os judeus do mundo, por mais que seja impossível uma definição de quem é e quem não é judeu “de sangue”. Sand demonstra fartamente como a religião termina como o único fiador da etnicidade judaica. E sonha com um verdadeiro Estado laico capaz de dar cidadania plena aos não-judeus. Mas para isso, seria necessário desmontar a aliança entre Estado e rabinato. Ou ao menos começar desmontando a subserviência da intelectualidade universitária a esta ideologia nociva.

Shlomo Sand indica a esperança de que o decréscimo do antissemitismo no mundo e a consequente diminuição do sentimento de pertencimento religioso entre os judeus mais jovens permita uma redução da influência das comunidades rabínicas mundo afora sobre o pobre Estado que está no centro dos piores conflitos do mundo.

Mas acho que Sand deixou de fora alguns pontos importantes que sustentam o esquema sionista no Ocidente, especialmente nos EUA, onde Israel vem garantindo apoio diplomático e militar para toda e qualquer atrocidade que julgue necessário cometer.

E pra mim esses pontos passam pela forma como o evangelicalismo e o fundamentalismo modernos articulam o mesmo discurso sionista sobre o Velho Testamento como livro de história factual. Mas vão muito mais longe. É possível, e muitos cristãos fazem isso, imaginar que o Velho Testamento fosse uma narrativa confiável, e seguir acreditando na doutrina começada com o Apóstolo Paulo de que a Igreja Cristã é o “Israel de Deus” (é só ler a Epístola aos Gálatas para entender do que estou falando).

O problema é que o fundamentalismo inclui entre suas verdades básicas da fé não apenas uma leitura literal do Velho Testamento como verdade histórica, mas ainda comete a insanidade de misturar isso com uma leitura alegórica: só um fundamentalista saberia determinar com precisão quando a leitura da Bíblia deve ser literal e quando deve ser alegórica — se você discordar dele, será excluído, por melhores que sejam seus argumentos. É essa leitura alegórica que determina a escatologia esdrúxula que os autores dos panfletos de 1910 colocaram como fundamentos da fé. A certeza de que Jesus voltará em algum momento próximo para restabelecer um reino em Jerusalém e salvar seus eleitos, estabelecendo um reino de paz e justiça de mil anos.

Esse milenarismo sempre conviveu com o cristianismo e foi sua face mais obscura e violenta durante os últimos 2 mil anos. Entretanto, recentemente, ele ganhou foros de conhecimento elevado nas publicações de editoras norte-americanas e nos seminários teológicos que distribuem títulos de “Doutor em Divindade” do tipo pagou-passou. Não por coincidência, temos no Brasil vários pastores formados nestes lugares. A partir da década de 1950 a geopolítica norte-americana (macartismo e Guerra Fria) passou a coincidir “misteriosamente” com a escatologia fundamentalista: a União Européia em formação estaria nas profecias bíblicas como terra do anti-cristo, a Rússia comunista seria o “Gogue e Magogue” descrito em profecias obscuras que anunciam um Armagedon de sangue e fogo.

Ou seja, o conflito israelo-palestino é lido pelos evangélicos (não só nos EUA) como um conflito divinamente orientado, onde Deus está do lado de seu povo escolhido, e os pobres palestinos que se danem. Some-se a isso o caldo de dupla predestinação que forma o grosso do cristianismo anglo-saxão (ideia idiota que diz que antes da fundação do mundo Deus separou uns para a salvação e outros para a perdição) e tem-se o panorama de por que a política pró Estado judeu tem tanto apoio na direita norte-americana.

Se o livro de Sand desmonta cuidadosamente o sionismo como discurso histórico, boa parte da chance de paz no Oriente Médio terá que passar por uma desconstrução equivalente do fundamentalismo evangélico e de suas bases teológicas, bem como de sua escatologia.

5 comentários | Dê sua opinião

  1. Hugo Silva 29/09/2011 em 1:42 pm

    Muito bom o texto, André.
    Realmente esta é um dos principais pontos do problema Israel-Palestina.
    Abraços

    Responder
  2. Luiz Costa 30/09/2011 em 8:27 am

    André,

    Respondendo a sua dúvida do primeiro parágrafo: existe uma edição em hebraico, que saiu pela editora Resling em 2008.

    Abraços.

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  3. Marcelo Silber 23/01/2012 em 12:18 pm

    É André, um livro que desconstrói “mitos” do sionismo escrito em hebraico, e comercializado em Israel. Será que isso seria possível em alguma nação árabe, ou de fé islâmica ? Aí está a base de uma das grandes diferenças entre Israel e os palestiinos ou outros de fé islâmica.
    Outro ponto : Shlomo Sand fala em decréscimo do antissemitismo no mundo…é fato notório que o antissemitismo está em plena ascenção no mundo, principalmente na Europa e países como Irã. Aí vc pode falar que tudo não passa de uma resposta à política de Israel…ok, mas e quando Israel não sequer existia e o antissemitismo foi mais forte do que nunca na Europa, que culminou com o holocausto da 2ª guerra ?
    É necessário ao povo judeu e israelense aceitar críticas a politica Israelense, mas é necessário que se saiba que em muitos casos os ataques a Israel e ao sionismo não passam de um antissemitismo disfarçado. É necessário separar o joio do trigo.
    Um abraço a todos

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  4. Marcelo Silber 23/01/2012 em 12:28 pm

    Explicando: ” Será que isso seria possível em alguma nação árabe, ou de fé islâmica ? Aí está a base de uma das grandes diferenças entre Israel e os palestiinos ou outros de fé islâmica.”
    Essa capacidade de autocrítica é uma cracteristica marcante do povo judeu e dos Israelenses desde o inicio ( e anterior) a criação do estado de Israel. Será que em breve haverá um amadurecimento na mentalidade dos povos de fé islamica (sem generalizações) e seja possível movimentos internos de auto-critica, inclusive no tocante a relação com os judeus e Israel ?
    Espero que o desdobramento das revoluções árabes sejam um caminho para esse aprimoramento democratico. Acredito que essa capacidade auto-critica judaica seja resultado do processo de “iluminismo” judaico pelo qual a comunidade passou na europa no século XIX. Quem sabe não teremos um processo de”iluminismo” árabe em andamento ?

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  5. Marcelo Silber 23/01/2012 em 1:07 pm

    Não querendo ser injusto, sei da existencia de intelectuais árabes e principalmente palestinos, que têm uma visão lucida e amadurecida sobre o conflito com Israel, e publicaram suas obras. Pena que tais obras e opiniões acabam passadas quase que incólumes por seus países e seus órgãos de imprensa.
    É mais do que urgente que existam canais de comunicação e cooperação entre a esquerda israelense e judaica mundial e sua contrapartida árabe e muçulmana. Atualmente os extremistas de ambos os lados alimentam uns aos outros numa aliança silenciosa. Está na hora dos moderados fazerem o mesmo, mas diferentemente de seus opostos, de uma forma corajosa, aberta e franca.

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