Histórias cheias de tempo

por Renato Tardivo

-- "A vida naquela hora", de João Anzanello Carrascoza --

 

Um ano após lançar o excelente Espinhos e alfinetes (2010), João Anzanello Carrascoza retorna com mais uma coletânea de contos inéditos: A vida naquela hora. Oito são as narrativas, além da apresentação assinada por Fernando Paixão.

Antes mesmo da leitura, algumas coisas chamam a atenção: o colorido e a foto (em preto e branco) da capa, as letras verdes que tingem as páginas do miolo, o tamanho da fonte, decrescente à medida que cada história avança, enfim, são elementos que conferem à publicação uma atmosfera infantil.

E, se digo “infantil”, não é porque o livro seja destinado a crianças, mas – característica usual em Carrascoza – pelo fato de a infância protagonizar as histórias.

O título, de rara beleza, condensa em uma única (e breve) frase tudo o que temos – a vida – no espaço fugidio do instante – aquela hora. Condensação análoga é empreendida em cada uma das narrativas.

Nesse sentido, os contos dialogam com a fotografia: um recorte, um olhar que se constrói no mundo. Pode convidar a ver mais, para além de seus contornos, mas, por outro lado, suportar esses pequenos núcleos do real é por vezes penoso ou mesmo aversivo. Seus fragmentos fascinam e chocam.

Há, em todas as histórias, a criação de situações-limite, típicas das travessias em direção àquilo que “nunca mais seríamos” – como o menino, em “Tango”, que “não pensava na mãe nem no pai”. Ou o outro menino, em “Ponto colorido”, que ao testemunhar a História, “sentado à direita do pai”, reconhece a “arquitetura de seu destino” (referência a Raduan Nassar?) e constrói, às avessas, “concentrado, naquele momento, todos os seus dias, a sua existência inteira”.

Chegamos ao terceiro conto e notamos que a ambiência ficcional se repete – “o mesmo ver de ontem”. Lá está a família, o cheiro de café, o ponto de vista do filho(a), o dia nascendo de um jeito e morrendo (para sempre) de outro. O caminho do conhecido até o “mais difícil, ainda por vir”; ou, como em “Nova casa”, o (re)encontro com a “posse definitiva” do costume que só ocorre para marcar, nas últimas linhas, uma nova – e mais sofrida – ruptura.

-- O autor --

Apenas as duas últimas narrativas, “Primeiras letras” e “Credencial”, são escritas em primeira pessoa. Seus narradores, já crescidos, rememoram eventos emblemáticos da infância em après-coup – temporalidade psicanalítica na qual as inscrições do vivido são ressignificadas “só depois” (literalmente, “depois do trauma”). Fotos reveladas e presentificadas no instante em que se tiram novas. “Assim o tempo age na consciência: espalha imagens, chacoalha ideias, muda de lugar as lembranças”.

No conto final, “Primeiras letras”, o narrador se dirige a um leitor (invisível e sem voz) que o acompanha em viagem ao passado – ele reencontrará a irmã, que não vê há muito tempo: “Outro dia mesmo eu peguei a última foto dela [...] e olhando essa foto eu procurei naquela mulher a menina que me ensinou a ler, e aí, como se tivesse aberto uma represa, tudo voltou, e de repente ela estava ali, e parecia que esses anos todos não tinham passado, e lá estava eu ao pé dela, feito um menino”.

É sugestivo que o livro deságue nas “Primeiras letras”. É este o movimento que se empreende nas demais: a infância condensada – e imortalizada – no instante: “A vida é tão silenciosa, a gente nem percebe direito que está nela [...] mas, se estamos atentos, se sentimos essa dor [...], aí descobrimos toda a sua intensidade”.

Intensidade tatuada (de verde) com esperança, em uma atmosfera cujo fim são as primeiras (e pequenas) letras e a credencial mais pomposa é o sorriso de um corpo “cheio de tempo”. Manchado de terra.

::: A vida naquela hora ::: João Anzanello Carrascoza ::: Scipione, 2011, 120 páginas :::

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

----- Consulte os arquivos do Amálgama ||| Publique ||| Contato ||| Para reproduzir nossos textos -----