Convivendo com Leviatã

por Carlos Mauro de Oliveira Júnior

-- "Apoiando Hitler: Consentimento e coerção na Alemanha nazista", de Robert Gellately --

 

Tudo que se lhe exigia era uma espécie de patriotismo primitivo ao qual se podia apelar sempre que fosse necessário levá-los a aceitar ações menores ou maior expediente de trabalho.
George Orwell, 1984

O livro do professor Gellately tem uma grande virtude. Ele nos convida a refletir. Depois de muitos escritos – acadêmicos ou literários – sobre os Estados autoritários, sobre o totalitarismo ou a respeito da Alemanha de Hitler, somos convidados a pensar sobre uma tese comum: o grau de inserção da população no projeto político de um grupo ou a força de uma ideologia.

Na citação acima, Orwell, fala de como a propaganda do Estado pressiona o povo em busca de consentimento e obediência. Este é um dos temas, talvez o principal, do livro que analisamos. Curiosamente, a resposta de Gellately a esta questão vai em outra direção. Fala mesmo de um fracasso do projeto de “comunidade nacional” dos nazistas ao insistir que muitas denúncias à Gestapo que iniciaram investigações, foram feitas por cidadãos comuns e tiveram por causa mais o desejo de obter vantagens pessoais – dinheiro, empregos, bens – que a real aceitação aos valores do Estado. O autor fala em uma espécie de manipulação. E isto é interessante.

Muitos cidadãos alemães começaram a aceitar o intervencionismo do sistema como “normal” e exigiram que ele funcionasse a seu favor. (p. 304)

O livro deseja contestar a tradicional tese de que os alemães não tinham conhecimento de grande parte dos atos dos nazistas. Desta forma, o segredo em relação às atitudes do Estado permitiria explicar a relativa longevidade do poder de Hitler e seus sequazes. Uma leitura da imprensa do período (entre 1933 e 1945) permite a Gellately construir uma avaliação diferente. A hipótese diz respeito a um jogo de consentimento e coerção, cuidadosamente construído pelos nazistas, especialmente preocupados com a propaganda dirigida às massas. Neste sentido, devemos substituir a tese do desconhecimento pela hipótese de um apoio construído.

O argumento do autor aposta na racionalidade das estratégias dos nazistas no início do governo, entre 1933 e 1939, resolvendo problemas que perturbavam a sociedade, como o desemprego e a fraqueza inerente à República de Weimar, iniciada com o fim da Primeira Guerra, ao invés de algumas visões anteriores sobre a Alemanha de Hitler que falam apenas em irracionalidade ou fanatismo. Resumindo, o governo Hitler teria conseguido pôr fim ao desemprego e à instabilidade oriunda da crise econômica. Mais do que isto, teve sucesso em reprimir seus opositores comunistas e socialdemocratas.

O último aspecto merece destaque. A hipótese do autor fala que o consentimento construído se deveu, em grande parte, a uma sensação de força e eficiência despertada pelo autoritarismo nazista: um Estado (ou sistema) policial. Cita mesmo o apoio conquistado junto a antigos agentes policiais, não mais restringidos pelas garantias jurídicas dos cidadãos.

Os cidadãos foram informados de que o princípio liberal de “nenhum crime sem uma lei” foi trocado para “nenhum crime sem uma punição”. (p. 74)

Uma investigação “rápida” leva à solução dos problemas. Solução compreendida como a eliminação dos crimes da sociedade, identificados como patologias ou outras metáforas de origem médica e biológica. “Além do mais”, como escreveu John Lukacs em seu Cinco dias em Londres: Negociações que mudaram o rumo da II Guerra, “fora da Alemanha e na cabeça de muitas pessoas, o governo de Hitler, seu regime, suas ideias representavam uma força nova e original ao lado das alternativas desgastadas que eram a democracia liberal e o comunismo ‘internacional’.”

A ideia de eliminação do “outsider” (aqui entendido como antissocial) – aquele que se portava como um organismo estranho à sociedade alemã perfeita – conquista, gradualmente, os corações e mentes do povo. Com a aceitação da ideia, os nazistas foram alargando o número dos grupos sociais (e étnicos) sujeitos aos campos de concentração, à reeducação e outras formas de repressão. Gellately cita os socialistas, ciganos, homossexuais, poloneses, judeus, preguiçosos (que não queriam trabalhar), soviéticos, entre outros.

Não apenas a identidade social dos outsiders perseguidos era largamente determinada pelas tradições alemãs como o tratamento mais radical dispensado a eles tinha o propósito de exercer apelo aos bons cidadãos e conquistá-los. (p. 150)

O consentimento existente recebe assim uma explicação mais racional e menos fanática. Todavia, o autor não rejeita a importância do fanatismo antissemita ou da xenofobia. Teoricamente busca a conexão de várias causas. Um exemplo pode ser citado. A escravização de prisioneiros de campos de concentração gerava lucros às empresas alemãs. No entanto, com a virada soviética na guerra, diminuiu o número de prisioneiros disponíveis para a “destruição pelo trabalho”. Assim sendo, o recurso a uma maior escravização dos judeus seria necessário. O problema era que os interesses econômicos esbarravam no fanatismo racista, que defendia a tortura e morte dos “inimigos do Estado”. Neste momento, o autor concilia explicações diferentes.

Havia uma contínua tensão entre a esperança de explorar os prisioneiros e a motivação para exterminá-los. (p. 316)

Outra contribuição do livro é demonstrar que em algum momento, mais especificamente a partir de 1944, a noção de “outsider” foi usada contra cidadãos alemães. Tratava-se daquilo que os nazistas chamavam de “front interno”. Havia uma mitologia ligada à origem do regime que informava que a derrota alemã na Primeira Guerra teria ocorrido por traição interna (uma conspiração). Logo, cabia ao Terceiro Reich impedir que o mesmo se repetisse. A repressão policial, e as denúncias civis, foram concentradas em crimes menores, como ouvir rádios estrangeiras ou contribuir para a difusão do pessimismo com relação à guerra e ao regime.

-- O autor --

Este é um ponto importante. Para Gellately, o consentimento existia pois a repressão alcançava um número pequeno de grupos alemães. A maior parte das vítimas era estrangeira ou “desajustada” — os nazistas não consideravam os judeus nascidos na Alemanha como sendo alemães; este foi o primeiro choque sofrido pelo grupo. O livro mostra alguns exemplos de surpresa, decepção e indecisão (deixar ou não a pátria) vivenciados pelos judeus diante do fato. Pior ainda quando este sentimento se difundiu. Este fato se modificou com o desenrolar da guerra e, como vimos acima, mais alemães ficaram sujeitos à ação violenta do governo.

Com este fato chegamos ao papel da imprensa na construção do sistema hitlerista e de seu apoio. E, da mesma forma, à importância desta para a construção da tese.

O cuidadoso controle governamental sobre a imprensa não impedia que os atos repressivos fossem divulgados. Ao contrário. Estes deviam ser divulgados de uma maneira que explicasse os motivos da ação, dissuadisse os cidadãos de práticas proibidas e, principalmente, demonstrasse que as vítimas eram culpadas pelo castigo que recebiam. Isto para não falar em promessas de “reeducação” e de um retorno possível à sociedade. O uso da esterilização dos acusados de casos patológicos de crime e reincidência ajudava a garantir a tranquilidade social.

Retornando ao ponto das legiões de escravos do regime vagando pelas estradas – famintos e maltrapilhos – para trabalhar nas fábricas, o autor insiste que não era possível que a população não soubesse dos crimes estatais cometidos. A tese do desconhecimento não resiste.

Importante que se ressalte que a hipótese do consentimento é acompanhada da ideia de uma articulação desta com a coerção. O recurso maciço aos meios de comunicação tinha por objetivo garantir a aceitação e isto foi devastador às oposições. Isto explicaria em parte as denúncias espontâneas e, como vimos no trecho de George Orwell, esta é uma tese tradicional sobre os regimes totalitários.

Para Gellately, contudo, há também a ideia de manipulação deste sistema por parte da população. Cita exemplos de vantagens obtidas com a eliminação dos judeus, antes referida; e, da mesma forma, a possibilidade de se livrar de um cônjuge (alemão) indesejável, acusando-o de ouvir programas estrangeiros de rádio.

Isto nos leva ao mérito maior do livro, segundo a nossa leitura. A reflexão possível sobre até que ponto estamos sujeitos às tentações de um Estado eficiente, livre de corrupção e seguro. Mesmo que estas conquistas sociais se façam em detrimento dos “indesejados”, sejam minorias ou opositores. Refletir sobre isto ajuda a conjurar a ameaça. Lembrar a época de Hitler pode nos ajudar a não repetir os mesmos erros.

A maioria das pessoas parecia disposta a viver com a ideia de uma sociedade de vigilância, a colocar de lado a oportunidade para desenvolver as liberdades que em geral identificamos com as democracias liberais em troca de ruas livres de crime, de um retorno à prosperidade e ao que consideravam um bom governo. (p. 388)

::: Apoiando Hitler ::: Robert Gellately (trad. Vitor Paolozzi) ::: Record, 2011, 518 páginas :::
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2 comentários | Dê sua opinião

  1. Hugo Silva 21/09/2011 em 5:27 pm

    Olá,

    Muito boa a resenha, parece, realmente, que se trata de um livro indispensável sobre a experiência totalitária nazista na Alemanha.

    A tese do livro se aproxima muito, na minha opinião, da de livros de penalista sobre o direito penal alemão, como o tratamento que este recebe pelo jurista italiano Luigi Ferrajoli no livro “Direito e Razão: Teoria do garantismo penal”, embora a tese não seja plenamente desenvolvida (não é o objetivo do livro) e o direito penal nazista seja tema central em apenas alguns capítulos do livro.

    Abraços

    Responder
  2. Catatau 23/09/2011 em 2:20 pm

    Muito interessante!

    Faz lembrar “Amém”, de Costa Gravas, e também o que Deleuze falava sobre o fascismo: não, as massas não foram enganadas, em algum momento algum tipo de desejo tornou o fascismo possível e perdurável, nenhum governo se mantem por puro e simples engano.

    Responder

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