24 Letras por Segundo

por Luiz Biajoni

-- "24 letras por segundo: 17 escritores interpretam seus cineastas favoritos", org. por Rodrigo Rosp --

 

Ideia bacana da Não Editora: chamar escritores para que recriassem, em contos, o clima de seus cineastas preferidos. O resultado é esse 24 Letras por Segundo. Como toda reunião temática de contos, é desuniforme – mas reserva boas surpresas.

Assim que peguei o livro, fui de cara ler o conto de meu amigo Milton Ribeiro, baseado na atmosfera de Roman Polanski — e adorei. Passei então para o primeiro conto, de Bernardo Moraes, baseado na obra de Tarantino — e a surpresa foi ainda maior. Embalado, li o conto que vinha na sequência, “Um Mar para Carmina”, de Monique Revillion, que tem como base Tim Burton e… puxa, meu queixo caiu. Belíssimo conto, o melhor do livro, na verdade – depois volto a ele.

O organizador da coletânea, Rodrigo Rosp, foi o responsável pelo conto “baseado” na filmografia de Woody Allen. Achei-o meio… fácil — aquela coisa do Oráculo grego fora da história que conversa com o protagonista, já vimos isso demais, né? O mesmo posso dizer do conto de Juarez Guedes Cruz, com base em “Corpo Fechado”, de Shyamalan. É interessante e inventivo, mas parte de uma premissa muito óbvia.

Até aí o livro ia bem, mas o conto da sequência, em que Reginaldo Pujol Filho emula os Irmãos Coen, enjoou. É o conto mais longo, com uma pretensão metalingüística chata e um desenrolar forçado. Para piorar, o conto da sequência, de Pena Cabreira, sobre obra de Terry Gillian, usa dialeto sulista (pra quê mesmo?) em um enredo até interessante, mas atrapalhado na proposta formal. Chato.

“O Elevador”, de Pedro Gonzaga (Wong Kar-Wai), é interessante e bem curto — deu um alívio. Aí Silvio Pilau quer fazer uma espécie de roteiro de cinema inspirado em Kevin Smith e o nível cai de novo. Neste momento tive a impressão que colocaram os melhores contos no começo do volume. Mas aí tem o interessante conto de Milton Ribeiro (Polanski) e a boa narração de Eric Novello (Bertolucci), seguida da tentativa de Bruno Mattos de passar para o papel o imaginário de Zé do Caixão — e não é que ele consegue?

Aparece então “Três Copos”, mais uma tentativa de alta literatura para contar uma história de meia dúzia de páginas baseada em Sylvain Chomet. O autor, Diego Grando, é mestre em escrita criativa (antes dos contos somos apresentados aos autores, todos acompanham minibio, um lance meio pedante) e parece querer mostrar isso no seu conto, tornando-o apenas difícil e enpolado, tudo o que Chomet não é.

Mas aí o livro melhora novamente com os contos de Samir Machado de Machado (Spielberg) e Antônio Xerxenesky (Hal Hartley), que são diretos, honestos e totalmente fiéis ao clima dos cineastas escolhidos. Então chega o segundo melhor conto do livro: “O Paradigma do Mexilhão”, de Rafael Bán Jacobsen, que alguém devia realmente fazer chegar às mãos de Almodovar. É emocionante como as coisas vão se revelando, a nós e ao marinheiro Echeverría, protagonista do conto. É interessante também como esse conto se liga ao de Monique Revillion (Tim Burton), embora o de Bán Jacobsen seja mais cru e o de Revillion mais etéreo; parecem conectados pela temática da morte associada ao mar. Esses dois contos valem o livro.

No epílogo temos “O Fabuloso Juarez”, de Victor Paes, que é interessante. E no final, com um exercício bem-sucedido de metaliguagem com David Lynch, temos o poeta Márcio-André numa trama de crime e troca de identidades. É o conto que melhor retrata o universo do cineasta homenageado.

Tenho que dizer também do projeto gráfico bacanérrimo do livro, de Guilherme Smee e Samir Machado de Machado.

Antes dos contos há também a filmografia resumida de cada diretor.

O livro é um excelente presente para cinéfilos amantes de livros.

—–
[atualização] Faltou informar que “O fabuloso Juares” é baseado em Milos Forman.

::: 24 letras por segundo ::: Rodrigo Rosp (org.) ::: Não Editora, 2011, 192 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::

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