Dona Maria Tereza está vivíssima

por Luciano Oliveira - A viúva do ex-presidente João Goulart, dona Maria Tereza, musa do histórico Comício da Central do Brasil num longínquo março de 1964  como ela estava linda com aquela montanha-russa montada na cabeça à base de laquê! , está viva. Aliás, está vivíssima e cuidando dos seus interesses, pois vai receber quase 650 mil reais a título de indenização pela deposição do seu marido.

Depois dos ex-pasquinianos Jaguar e Ziraldo, e do imortal Heitor Cony, é mais um nome ilustre que vem se juntar a alguns brasileiros (e agora brasileiras!) que, heróis da minha juventude que já vai se tornando também longínqua, prestam-se hoje em dia ao papel de bolsistas da ditadura finda há vinte e cinco anos. Fico indignado. E como não sei fazer algo de mais útil na vida, escrevo.

A ditadura militar foi, como todas as ditaduras, um horror. Vivi aqueles tempos e sei do que estou falando. Mas é um acontecimento histórico. Um acontecimento tecido tanto por causas estruturais quanto pela ação dos atores que viveram aqueles anos. João Goulart foi um desses atores. Nesse sentido, o golpe de 64  mesmo que de forma alguma se resuma a isto!  é o resultado de decisões que vão do presidente da república até um general obscuro e estabanado, Mourão Filho, que pôs as tropas na rua na madrugada do 31 de março. O regime caiu com uma facilidade que desnorteou os próprios golpistas. Não se pode contar uma história que não aconteceu. Mas é legítimo perguntar-se o que teria acontecido se Goulart tivesse resistido. A tragédia poderia ter sido maior, é verdade. Mas também tudo poderia ter se resolvido como já se decidiram várias batalhas de Itararé neste país de ralas convicções: prisão dos sublevados, seguida de anistia para pacificar os quartéis.

Enfim, tudo isso é especulação. Quero, lembrando essas coisas, apenas dizer que João Goulart e sua indisposição para a violência  ou inabilidade para o papel de estadista , guardadas as devidíssimas distâncias, é uma figura trágica como foram Louis XVI, na França, ou Nicolau II, na Rússia  personagens trágicos levados de roldão por um redemoinho para o qual contribuíram e que não puderam ou não souberam conduzir. É isso. Ele não é uma vítima; ele é um vencido. Como tal, entrou para a história brasileira, e isso é tudo o que lhe devemos. (Tanto mais que, a menos que tenha dilapidado o patrimônio  mas o que temos a ver com isso? , dona Maria Tereza deve ser uma mulher rica, pois o homem com quem casou, João Belchior Marques Goulart, era um homem rico, dono de extensas fazendas aqui e no Uruguai.)

O Brasil! Ah… o Brasil!

Esta terra continua sendo regaço generoso do “Homem Cordial” de Sérgio Buarque de Holanda, do “Macunaíma” de Mário de Andrade, do “Vadinho” de Jorge Amado. Tudo se resolve  para quem pode, evidentemente  com uma boa e suculenta mamada nas tetas do governo. Enquanto as mães dos desaparecidos que ainda restam continuam em vão clamando pelos ossos dos filhos, este é o acerto de contas que conseguimos fazer com o nosso passado. Um acerto de contas!


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10 comentários | Dê sua opinião

  1. Helena Ortiz 03/09/2010 em 8:06 am

    Parabéns. Um protesto justo defendido por um brilhante texto. Uma luta, no final, rentável. Imagine se todo o mundo que lutou por causas em diferentes momentos históricos fosse depois ressarcido por suas participações. Será a culpa pela lei da anistia?

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  2. Fernando da Mota Lima 03/09/2010 em 10:27 am

    Luciano´:
    É com prazer que leio mais um dos seus justos e indignados artigos em tom de denúncia contra pseudo-revolucionários e picaretas brasileiros que converteram a oposição à ditadura em polpudos investimentos. É o caso, convém nomear alguns famosos, das pessoas citadas no seu artigo. E pensar que crescemos admirando gente como Cony, Ziraldo, Jaguar e outros. Imagine, como acima sugere Helena Ortiz, se toda pessoa que sofresse por defender convicções políticas fosse mais tarde indenizada por perdas e danos físicos e psíquicos… Bem que poderíamos entrar com processo na justiça para também recebermos os trocados que a extinta ditadura nos deve.
    Fernando.

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  3. rayssa gon 03/09/2010 em 10:34 am

    desculpe, mas meu cerebro meio que parou de funcionar depois do “650 mil”.

    eu ainda to tentando cognizar essa quantia………

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  4. Flics 03/09/2010 em 11:13 pm

    Não se trata de indenizar porque defenderam convicções políticas…. são indenizados – se exagerada ou insuficientemente, se justa ou injustamente, isto é outra questão – porque foram proibidos pelo Estado – então ocupado ilegalmente através de um golpe militar – de exercer as suas profissões, seja pela prisão, pelo exílio, cassação de direitos ou atos de terrorismo.

    Mas… sim… pessoalmente prefiro a opção das Madres de la Plaza de Mayo que recusaram qualquer indenização monetária e lutam até hoje pedindo o aparecimento de seus filhos e “Verdade e Justiça”.

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  5. André Egg 04/09/2010 em 9:16 am

    Também é um bom jeito de não punir os criminosos que continuam mandando nas nossas Forças Armadas.

    O João Goulart foi vítima do processo político, que ele não tinha como conduzir. Resistir ao golpe era uma opção que ele não queria, justamente para não deixar o movimento popular fugir ao controle. Afinal de contas, ele anunciou medidas demagógicas (como as Reformas de Base) que não estava disposto a cumprir.

    Não sei se é saudável construir essa cultura de indenizações no Brasil. Mas precisamos urgentemente por a pratos limpos nosso passado político.

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  6. Rodrigo Della Santina 04/09/2010 em 2:26 pm

    Meu caro, realmente parabéns pelo texto. Sua indignação faz sentido, já que temos a tendência a aceitar o que nos dão (ou a falta de preocupação?), cuidando que “assim são as coisas, que mais podemos fazer?” e não erguemos a voz, as mãos para uma atitude relevante e modificadora. Daí o Lula e talvez a Dilma no poder.
    Quero parabenizar o blog: está belo e bem feito. E digo que voltarei para ler as próximas postagens, como o fiz com as já postadas.
    Grande abraço,
    Rodrigo

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  7. rafael 06/09/2010 em 10:15 am

    Essas indenizações me cheriam a um belo cala boca, vejam voces que figuras notórias as quais poderiam exigir a punição dos golpistas ficam todas em vergonhoso silêncio.

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  8. Henrique Finco 07/09/2010 em 12:06 am

    É, as indenizações deveriam ser cobradas dos torturadores, dos golpistas, dos apoiadores do golpe de primeiro de abril e dos que se beneficiaram do golpe. Ou não? Para mim é evidente que as indenizações têm sentido; a falta de sentido é a de que TODOS tenham que pagar. As indenizações são devidas e devem ser pagas – e ainda são de pouco tamanho – e quem deveria pagá-las são os que perpretaram os atos que geraram as indenizações.
    Alguém aqui acha que as indenizações são indevidas? Indevida é a forma de onde elas são tiradas. Deveriam ser tiradas do patrimônio dos Frias (Folha de São Paulo), do coronel torturador Brilhante Ustra, do “Brigadeiro” Burnier e de seus herdeiros, etc, etc, etc – como está sendo feito na Argentina, no Uruguay e no Chile – ou não?

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  9. Leonan 08/09/2010 em 2:58 pm

    A muito a história foi trocada pelas indenzações. Afinal, os covardes de todos os lados conseguiram se esconder atrás de uma anistiam “ampla, geral e irrestrita”.

    Resolveram que é mai$ vantajo$o vender os mortos em troca das indenizações e peferiram colocar a verdade em baixo do tapete. Pois covardes (de todas as cores) nunca querem mostrar quem realmente foram ou que a verdade apareça, provando que nossos autoproclamados herois não eram tão herois assim.
    Tenho inveja dos argentinos e das mães da praça de maio, que não são covardes, não são venais e não vendem a memória dos seus mortos.

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  10. Rafael Meneghetti 21/09/2010 em 6:09 pm

    É triste ler esse texto de Luciano Oliveira. Pois percebemos o quanto viveu e não compreendeu o que foi a ditadura. Para que o povo brasileiro esquece fácil das coisas ou é alienado. João Goulart era rico sim, com muitos campos, um latifundiário, e mesmo assim a “direita” o taxou de comunista, para verem como o povo é facilmente alienado. As reformas de base era tão reais, ao contrário do que diz André Egg quando chama de demagógicas, que os conservadores articularam o golpe. O que me impressiona é um Sociólogo escrever um texto desses, parece que não buscou ler mais informações. João Goulart não reagiu porque o EUA já estava a postos com a chamada “Operação Brodher San”, com os navios de guerra cheios de soldados na costa brasileira para agirem caso ocorresse a resistência. E sobre a indenização financeira, nada mais justo. Para os desinformados, os militares invadiram todas as fazendas de de João Goulart acabando com todo patrimônio. E mais, ele ainda foi perseguido no Uruguai e na Argentina, onde acabou morrendo de forma muito suspeita, existem indícios de que João Goulart foi assassinado.

    Num tempo de democracia que vivemos, aceito que as pessoas de direita não gostem de João Goulart, que defendam políticas diferentes. Mas não dá pra admitir que tentem modificar a história sem o mínimo de embasamento. Convido a todos que olhem os vídeos sobre João Goulart no youtube e aprendam um pouco mais sobre a história do Brasil.

    Grande abraço a todos!

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