Um ônibus chamado dilema
por Vanessa Souza – Um homem com remorso por ter cometido um ato corrupto. Uma linda mulher carregada de ressentimentos e a impressão de ter sido levada pelas circunstâncias, ao invés de ter feito escolhas. Uma menina de cinco anos, ora depressiva, ao chorar por tudo, ora violenta, ao querer destruir seus brinquedos. Um amante, que percebe ser a mulher igual às outras, não merecendo uma tentativa de salvamento. A sogra, o sogro, o chefe, o colega de trabalho. Todos personagens sem nome, que mal conseguem lidar com suas coisas de dentro, o que dirá com as angústias dos outros. Esse é o enredo de Outra vida, de Rodrigo Lacerda.
A história se passa em uma rodoviária, onde marido, mulher e filha vão pegar um ônibus para a cidade de onde vieram. O marido vê o retorno para casa como uma nova chance da família se estruturar. A mulher enxerga como um retrocesso. A menina sente-se dividida, mas sempre toma partido do pai, aquele que lhe dá mais afeto e menos reprimendas.
Antes de ler Outra vida, fui à palestra de Rodrigo Lacerda na FLIP deste ano. Lá, ele contou que os personagens do referido livro são banais e anônimos. Ela, funcionária de uma loja. Ele, o marido, um funcionário público. Ambos, vivendo situações corriqueiras na essência. “Convenhamos, noventa e nove por cento da nossa vida é gasta fazendo coisas banais. Ou a gente ressignifica esses momentos banais, ou a vida se torna insuportável. Se você não consegue (re)valorizar isso, você não tem escape”, sentencia na ocasião.
Os personagens do romance parecem não ter escape algum.
“O que ela quer com você é só sexo”, dissera a mãe. “E a senhora acha pouco?”, ele teve vontade de responder”.
No início do livro, os pais do marido e da mulher fizeram grandes objeções. A mulher, bem nascida e mimada. O marido, filho de açougueiro. As famílias previam o breve fim do relacionamento. Mas a mulher engravidou. E casaram. As diferenças entre o casal, que pareciam completá-los no início, começaram a se tornar um abismo entre eles.
“Seus outros namorados precisavam que ela vivesse uma insegurança permanente e uma fragilidade individual que a obrigavam a se humilhar para merecer algum amor, quando não apenas uma falsa promessa de fidelidade. Com o marido era o inverso. Seus abraços pareciam fechá-la contra qualquer mágoa” – refletiu a mulher, enquanto aguardava o ônibus que não queria pegar.
O amante diz para a mulher que vai encontrá-la na rodoviária. Ela sente medo e apreensão pelo encontro, tentando esconder-se e evitar o confronto a todo custo. “Sentia por ela uma amálgama de tesão, afeto e autêntica admiração. Se quisesse, teria se apaixonado. Mas não quis, não quer”, reflete o amante enquanto procura a mulher no meio de tanta gente ordinária em uma rodoviária suja – impressões dele.
Como Odisseu que precisa voltar para casa e a viagem é imensamente dura, marido, mulher e filha também tencionam fazê-lo. Em pouco mais de duas horas, muita coisa pode acontecer antes do embarque. O eterno retorno se dará para esses três? Concluo com palavras do Caio F. Abreu. “Mas sempre me pergunto por que raios a gente tem que partir. Voltar, depois, quase impossível”.
::: Outra vida ::: Rodrigo Lacerda ::: Alfaguara, 2009, 184 páginas :::
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Vanessa, como estive presente tambem a palestra do escritor na Flip 2009 e como médico me impressionou a narrativa do parto da personagem. Naquele instante me veia a mente todos os momentos vividos muitas vezes, nas salas de parto por onde andei. Sons, cheiros, movimentos e procedimentos, culminando com o brotar de um novo ser. Para ser sincero, apesar de naquele momento de certa nostalgia, me senti tambem melancólico, por não mais participar e compartilhar com a gestantes deste momento. No mais concordo com o autor, gastamos muito do nosso tempo com banalidades. Parabens pelo texto
Acredito que qualquer ser mortal poderia em algum momento se identificar com algum destes personagens, de suas quedas, de sua culpa humana. Seu texto realmente desperta o interesse em ler o livro, parabéns!
Vanessa:
Seu narrativa com o enfoque nos desejos humanos que os personagens representam em cada um de nós; desperta um interesse imediato dessa leitura, vou comprar o livro tão logo puder e me deliciar lendo o mesmo………….
BJs: Colega Denise
Todos nós sempre voltamos pra casa .