Um convite à lembrança

por Diego Viana — Soltarei mil fogos de artifício se for verdadeiro o boato que ouvi na última semana: uma editora brasileira teria comprado os direitos de tradução e publicação de Augenlose Leser (“Leitor sem olhos”), último livro do escritor alemão Ganz Schrecklich, vencedor do prestigiado prêmio Unheimlich da Associação dos Críticos de Königsberg em 2008. Minhas fontes, com mania de mistério, não quiseram revelar qual casa vai publicar esse romance excepcional no Brasil, mas desconfio que seja algum dos selos da Record, a Rocco ou a Companhia das Letras. Em todo caso, é motivo para celebração. E como Schrecklich é pouco conhecido no Brasil, aproveito para apresentá-lo.

O traço distintivo da literatura de Ganz Schrecklich é um sarcasmo vertiginoso e compulsivo, que não deixa pedra sobre pedra. Ataca monumentos culturais, convicções políticas, correntes intelectuais, preconceitos contemporâneos, tudo. A verve destrutiva do autor prussiano (nascido em Stettin en 1949) se apresenta já na primeira página de seu primeiro romance, Gegen die Gegend (1978, inédito no Brasil): o herói Ohne Zukunft é metralhado ao pedir uma informação ao soldado alemão-oriental que guarda o muro de Berlim e, morrendo, decide que nunca mais fará turismo do outro lado da Cortina de Ferro. Agonizante, o herói ainda tem forças para admoestar o sentinela que o matou, com uma frase que entrou para os anais da literatura alemã por sua simplicidade e seu cinismo: “Fique sabendo que nunca mais volto aqui. O serviço de vocês é uma porcaria!”

Apenas dois romances de Schrecklich foram publicados no Brasil: Volto por ter ido (2001, NDA Editores) e Cada vez que procuro seu amor, encontro tatuagens (1994, NDA). Na minha opinião, estão longe de ser suas melhores obras, muito abaixo, por exemplo, do autobiográfico Ein Wand, Bitte (Uma Parede, Por Favor, 1987), em que um adolescente homossexual, apaixonado por Tom Cruise, tenta se passar por autista, na esperança de receber a visita que Dustin Hoffmann recebeu em Rainman. Outra pérola desse escritor de criatividade inesgotável é o relato em forma de falsa coletânea de ensaios, Ich hätte gedacht (Eu teria pensado, 2005), que se abre com uma frase enigmática, cujo teor profundamente cômico só se revela ao longo da leitura: “Recente pesquisa de campo conduzida entre romancistas de língua alemã indica que o pós-estruturalismo pode ser uma das principais causas de divórcio no meio intelectual; este artigo tem por objetivo oferecer uma explicação para esse curioso fenômeno, articulando o conceito de desconstrução com a afirmação ritual segundo a qual ‘o que Deus uniu, o homem não separará’”.

Seu último romance, Leitor sem Olhos, revela um Schrecklich no auge de seu poder de observação das contradições deste início de século. Nossa estrutura de crenças é demolida impiedosamente, em ataques sutis, quase imperceptíveis, à fé na democracia e no mercado, ao orgulho ético injustificado e, principalmente, a um anti-intelectualismo tinhoso e recém-estabelecido. Digo que os ataques são imperceptíveis porque o estilo é tão leve e fluido (lembra um pouco Paul Auster), que lemos uma centena de páginas sem cansar.

O enredo não poderia ser, em aparência, mais banal: Lange Warten é um sociólogo que, prestes a completar 50 anos, conhece todos os sucessos da vida moderna. É doutor honoris causa em universidades ao redor do mundo, seus livros são referência obrigatória em qualquer curso de graduação, seu nome é evocado para participar de programas de televisão e grupos de pesquisa governamentais. Para completar, ele ganha bastante dinheiro investindo no mercado de derivativos, o que parece um pouco deslocado na obra, mas explica a vida confortável de Warten.

Querendo celebrar seu aniversário, ele convida antigos amigos para um jantar em sua cabana estival, situada num bosque próximo a Heidelberg. São antigos colegas dos tempos de universidade, que Warten não vê há décadas. Além de celebrar seu meio século de existência, porém, Warten nutre o desejo secreto de exibir seu êxito diante dos velhos amigos; ao longo do relato, vamos descobrindo que o sucesso de Warten ocorreu contra todas as expectativas. Na juventude, ele parecia fadado ao fracasso, gago, incapaz de se ajustar às convenções, longe de atraente. Essa é a imagem que os outros ainda guardam dele.

A narrativa é dividida em três grandes partes. Na primeira, acompanhamos a chegada dos convivas. Warten observa, com uma ponta de estranhamento, que “vêm todos em casal, deixam seus belos automóveis no estacionamento e sobem caminhando sem reclamar; cumprimentam-me alegremente, como se jamais tivéssemos nos separado, e não têm uma palavra de elogio para a bela decoração da casa, que montei com tanto esmero”.

Pouco a pouco, vai se desenhando o abismo que separa as concepções do mundo de Warten e seus amigos. O sociólogo busca admiração pela sequência de belas namoradas que teve. A atual, apresentadora de telejornal e ex-modelo, ele a exibe como um troféu, esperando que todos a reconheçam. Mas os amigos, solidamente estabelecidos e casados, apenas conversam com ela, como se fosse mais um camarada. Warten se espanta de saber que ele é o único divorciado da turma e todos os outros são fiéis às juras feitas diante do altar. Sim, do altar: todos são casados no religioso. Warten tenta trazer a conversa para os grandes assuntos do mundo contemporâneo, esses que estão nos jornais: o crescimento da China, a instabilidade do Oriente Médio, as flutuações do petróleo. Mas à mesa só se discute que modelo de automóvel deve comprar alguém que se preocupa com o meio-ambiente, que países têm vinhos com menos risco de conter pesticidas, que marca de roupa é mais consciente de sua “carbon footprint”. Mais uma vez, Warten se sente excluído.

Na segunda parte, a mais curta e, aparentemente, mais descuidada do livro, o protagonista leva alguns dos convidados para conhecer sua biblioteca. A maior parte do capítulo é empregada na descrição das prateleiras, das colunas, dos volumes e da mesa de ébano que serve de escritório a Warten. Embora Schrecklich encontre sempre uma frase esplêndida para cada detalhe que quer descrever, o excesso de páginas dedicadas a uma única sala acaba se tornando enfadonho. Somente ao final da leitura, refletindo sobre a obra e suas ideias, é que adquire sentido para o leitor a enorme digressão descritiva, as palavras de um intelectual que descreve a biblioteca, sua sala preferida.

Para grande surpresa de Warten, a beleza e a ordem da sala não comovem ninguém. Homens e mulheres de meia-idade, com suas taças de vinho tinto, têm apenas um olhar opaco e evasivo para “aquele maravilhoso testemunho de uma carreira de estudos e reflexões, as leituras de toda uma vida, as referências, as memórias”. Perante uma reação tão frustrante, o sociólogo sente a energia lhe escapar. A frustração, somada à bebida, lhe sobe à cabeça e o conduz a admoestar os amigos, exigindo que eles manifestem alguma reação ao que vêem.

Mas os amigos dão de ombros. São unânimes em julgar que uma biblioteca de nada serve: eles lêem, depois deitam fora os livros. Emprestam a um amigo, dão para os filhos. Para cada uma daquelas pessoas, incluindo a atual namorada de Warten, possuir uma biblioteca nada mais é do que um exibicionismo tolo. A menção à palavra “exibicionismo” leva Warten à loucura, e nesse ponto Schrecklich recupera sua veia cômica: “É então que Dann Plötzlich, que eu considerava meu único verdadeiro amigo, lança o maior dos disparates: ‘Sabe, querido Lange’, ele diz, como se fosse a coisa mais natural do mundo, ‘esta tua sala, para mim, nada mais é do que um cemitério de árvores, cadáveres cobertos de tinta e cola’! ‘Cadáveres?!’, replico. Mas me falta a coragem de prosseguir: quero acrescentar que cadáver é o que ele vai virar se não calar o bico, e eu teria certeza de cobri-lo com tintas de todas as cores…”

O verdadeiro núcleo de Leitor sem Olhos é a terceira e última parte. Nela, os convivas já partiram, a namorada já se recolheu e, durante toda a madrugada, Warten permanece em sua biblioteca, entregue a devaneios e lembranças. Sozinho, ele se vê diante dos objetos que causaram tanta discórdia: as lombadas dos livros, onde se lêem os títulos e os nomes de autores. O encontro com essas imagens, descrito com brilhantismo, suscita em Warten um mergulho no passado e em seu próprio inconsciente. Schrecklich aproveita, assim, para repassar diversos episódios da juventude de seu herói, ao mesmo tempo em que se reconcilia com a história da Alemanha nos últimos 30 anos, a queda do muro de Berlim, a reunificação, a Copa do Mundo. Certas passagens são de um lirismo raro em obras contemporâneas, e mostram que Schrecklich segue apurando sua técnica narrativa.

Toda a vida do personagem se condensa no instante em que Warten se ergue para tomar um dos volumes da estante. É um livro que ele leu pela primeira vez na faculdade. As páginas estão todas riscadas e sublinhadas, as margens têm anotações “com as quais não concordo nem um pouco hoje em dia”, as páginas guardam os sulcos dos marcadores. Nesse instante, o herói compreende que a leitura é o que de menos importante se faz com um livro: “De repente, é como se eu não tivesse realmente lido nenhum desses volumes. Ao contrário, eu ainda estou lendo, estou talvez tendo um caso com eles, convivendo em concubinato secreto e excitante. Exibicionismo? Vejo tanta gente que trata os livros como commodities, como um papel higiênico que se esvai pelo encanamento subterrâneo. Ler o livro e livrar-se dele, como se a leitura fosse uma tarefa da qual devêssemos nos ver livres tão rápido quanto possível. Eis aí, penso em silêncio reverente, um verdadeiro fetichismo da leitura, que teria deixado Marx perplexo.”

Warten se reconcilia assim com sua coleção de livros, transformada de uma hora para outra numa grande rede de objetos vivos e extensões do corpo de seu leitor. A metamorfose é reproduzida por Schrecklich com palavras que só mesmo ele sabe encontrar, precisas e simples ao mesmo tempo. Para o final, o autor guarda uma surpresa que não vou entregar, que não quero estragar a leitura de ninguém.

Leitor sem Olhos deve ser lido como uma celebração do reencontro do indivíduo com seu meio, com sua realidade, com o entorno que se molda à sua volta enquanto ele vai vivendo e constituindo seu próprio ser. Schrecklich, sem alarde, chama a atenção para um dos muitos perigos de um mundo cada vez mais transferido para o virtual: o esquecimento do toque, do contato físico, da lenta cultura de uma convivência telúrica entre corpos dotados de massa e matéria. No caso, são livros, mas poderiam ser pessoas, casas, cidades.

Lange Warten é o símbolo dessa reconciliação que Ganz Schrecklich considera urgente. A biblioteca, ao mesmo tempo depósito de saberes e lembranças, espaço delimitado e local de trabalho, simboliza, em Leitor sem Olhos, todas as dimensões de uma vida em que o patrimônio físico às vezes oblitera o verdadeiro patrimônio que existe por trás: o edifício de uma vida. Assim, quando seu amigo Plötzlich chama a atenção para o primeiro patrimônio e suas limitações morais, Warten encontra uma porta aberta para recuperar em toda sua alegria o segundo patrimônio, isto é, sua verdadeira vida. É isso que a obra de Ganz Schrecklich nos convida a todos a fazer.

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PS: Se um autor tem coisas relevantes a dizer, que importa se ele existe ou não?


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1 comentário | Dê sua opinião

  1. Aline Cristina Silva 01/09/2010 em 5:32 pm

    Muito interessante o texto, ao ler o resumo do livro, já senti-me tocada; imagine lendo-o inteiro!

    Responder

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