Palavra encantada

por Poliana Dantas * – Há quem diga hoje que a música e a palavra (no sentido tanto artístico quanto estético) perderam a sua essência simples, e que estamos vivendo uma crise das composições e da indústria fonográfica em si, sendo bombardeados todos os dias com hits e jingles calculadamente criados para lucrar e causar euforia e alienação.

Mas através do documentário Palavra (en)cantada (2009) se tem a percepção de que nem tudo está perdido. O filme faz uma “cronologia atemporal” da história do cancioneiro brasileiro e suas vertentes, que vão desde o rigor formal e o lirismo dos poemas provençais à simplicidade e rapidez de raciocínio dos repentistas e dos rappers; dos morros boêmios e nostálgicos do Rio às antenas dos mangues recifenses; da temática bem comportada e burguesa da Bossa em tempos de copa à ousadia e rebeldia da Tropicália em tempos de chumbo. Tudo apresentado ao público charmosa e elegantemente (sem, no entanto, ser pedante ou algo do tipo) por meio de um riquíssimo e extenso acervo de imagens (para fetichista nenhum reclamar), além de ter ganhado um olhar especial de artistas consagrados como Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhotto, Chico Buarque, Jorge Mautner, José Celso Martinez, Lenine, Tom Zé, entre outros, focando principalmente nessa relação íntima que sempre existiu entre a poesia e a música.

Como diria Machado, música e literatura parecem realmente “se amarem e casarem”. Tanto é que a fusão entre essas duas, como tão bem soube imprimir na película a diretora Helena Solberg, resulta no que pode se chamar de resistência cultural; esta que, ilustrada tanto pelos gêneros musicais já citados quanto por outros que não foram “lembrados” durante o filme (como o forró, por exemplo), além de se postar como uma contracorrente aos clichês e tendências impostas pela fonografia atual, ainda tem poder suficiente para preservar – e disseminar – o que há de melhor no brasileiro: essa malemolência, essa ginga e sensibilidade ao brincar com os sons, com as letras, com a língua. É definitivamente uma magia sonora que chega aos nossos ouvidos.

Dotado de um clima leve e despretensioso, Palavra (en)cantada é destinado a ativar toda a sinestesia que há no nosso corpo (e alma, por que não). Um filme que sempre nos faz lembrar que, antes que queiramos ser uma unidade compacta, completamente bitolada a modismos e ideias sujas e ultrajantes, somos, sobretudo, mistos e únicos, e é isso que nos faz conservar nossa multiplicidade musical.

* Poliana Dantas é estudante do Instituto Federal de Pernambuco.

[ na abertura no post, Maria Bethânia no documentário ]


leia mais
Paulinho da Viola: Meu tempo é hoje (DVD)
Vozes da vanguarda
De Cabral a Simonal

6 comentários | Dê sua opinião

  1. Canela 28/09/2009 em 9:11 am

    Fiquei interessadíssima neste documentário! Está em cartaz? Onde podemos assisti-lo?

    Responder
  2. Lord Jim 28/09/2009 em 10:11 am

    Polyana, Polyana nao se deixe possuir pelo espirito da inspiradora do seu nominho lindo…a canção acabou mesmo, Chico e Caetano são poetas parnasianos mais fora de moda que calça boca de sino e camisa de gola rolê….

    Responder
  3. Daniel 28/09/2009 em 1:33 pm

    Canela, o documentário esteve em cartaz no primeiro semestre, em algumas cidades. Já era pra ter sido lançado em DVD, mas vi no site da Livraria Cultura que a publicação foi cancelada pela produtora. Acho que ainda vai sair, mas não se sabe quando. O jeito é ficar de olho.

    Abs.

    Responder
  4. Estêvão dos Anjos 07/10/2009 em 9:09 pm

    Esse documentário é muito bom, foi realmente uma surpresa vê-lo, eu que fui por acaso ao cinema sem saber que filme iria ver… Ele põe em discussão um assunto muito discutido: letras de músicas, são poesias? E faz todo esse apanhado histórico que a autora falou no texto mostrando o quanto a poesia está presente nas composições. Ao meu ver existe uma diferença bastante sutil…Octávio Paz diz que o que difere a prosa da poesia é o ritmo mais intenso que a segunda possui e que é sua essencia. Assim como a prosa e a poesia tem ritmos próprios crio que as letras também tem, elas foram criadas visando um acompanhamento musical, tanto que se nós fomos ler algumas letras de músicas se por a intonação do canto, ela fica meio morta, diferente da poesia… nao sei se me fiz entender… Mas tbm fiz um texto sobre o filme e pus no meu blog… n sei se posso deixar o link aqui, caso não, desculpa..
    http://www.sobrefilmeselivros.blogspot.com

    Responder
  5. jenifer 18/03/2010 em 8:17 pm

    muito bom!!!! encantador… o nome já diz. =]

    Responder
  6. Igor 19/05/2010 em 4:40 pm

    Um exemplo que ilustra melhor o que o Estêvão disse é canção “Só Danço Samba”, ali temos a real necessidade da música, já que a letra por si só não diz muita coisa. Achei interessante também o depoimento do Lenine sobre a língua portuguesa, tão rica em fonemas (temos na verdade 7 vogais, já que o “e” pode ser “é” e o “o” pode ser “ó” também). O Tom Zé falando sobre como recebemos a música hoje em dia (por todas as partes do corpo – nos sons de carro) também foi engraçado de ver.

    Responder

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

----- Consulte os arquivos do Amálgama ||| Publique ||| Contato ||| Para reproduzir nossos textos -----