De beijos e sorvetes

por Camila Pavanelli – Uma das notícias mais simpáticas dos últimos dias foi a de que esta moça está publicando em seu blog uma linda e singela série de fotos de casais beijando-se em Paris. Com o detalhe de que ela é metade do casal em todas as fotos. E a outra metade é sempre um homem diferente.

Yang Ya-Ching teve uma ideia simples e forte, como de resto costumam ser as boas ideias: registrar fotos de beijos com cem homens diferentes, ao longo do período de um ano, em diferentes localidades de Paris. Ela aborda o desconhecido na rua, pede o beijo e, no caso do – alguns chamariam-no sortudo – topar, avisa o fotógrafo contratado especialmente para isso e corre pro abraço (mesmo).

Naturalmente, o projeto gerou tediosos e previsíveis comentários ofensivos em seu blog, que vão do racismo (vai pegá hómi lá na sua terra!) ao machismo (vaca! cachorra!) e frequentemente combinam os dois (vai pegá hómi lá na sua terra, sua vaca cachorra!). Um dos mais curiosos é o que diz “aposto que essa mulher só está fazendo isso para ter uma desculpa para beijar um monte de homem!”. No que sou obrigada a perguntar… E daí? Qual é exatamente o problema em fazer o que quer que seja só para beijar um monte de homem? E se fosse para beijar um só, podia? E se fossem dois? Pegava mal, ou só começa a ficar feio a partir de três? E se ela estivesse fazendo esse projeto para cavar uma exposição no MoMA? Aí sim a obra seria justificada ou louvável?

Pessoalmente, não entendo nada de arte moderna e nunca beijei em Paris, mas acho a ideia da moça bastante interessante e potente, embora um pouco limitada demais para o meu gosto. Se a ideia é mostrar o amor fluido, líquido e blablablá da pós-modernidade, até que o projeto é adequado. Afinal, a série de fotos sugere, dentre outras coisas, que o amor pode acontecer e se expressar tanto em lugares turísticos quanto prosaicos; que o amor de um dia nem sempre tem a ver com o amor do dia seguinte (não só os homens das fotos variam como os cenários dos beijos também); que o sentimento de amor não está irremediavelmente preso ao objeto do amor, podendo dar-se (platitude das platitudes) por mais de uma pessoa simultaneamente ou por uma pessoa depois da outra, bem seguidinho; principalmente, que nem por isso o amor é menos belo ou verdadeiro, muito pelo contrário.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ainda assim, as limitações do projeto me frustram um pouco. Em primeiro lugar, até agora só vi homem bonito nas fotos. Evidentemente, Yang Ya-Ching tem todo o direito de não querer beijar nenhum mocorongo, mas a questão não é essa: em se tratando de um projeto artístico – e este é um daqueles casos em que vida e arte se confundem -, seria interessante que as fotos revelassem uma gama menos estreita de tipos físicos.

Ainda mais significativa do que a ausência de feios, porém, é a ausência de mulheres. Mais uma vez, desnecessário dizer que cada um sabe de si, mas a conversa aqui é sobre arte e não (apenas) sobre os gostos pessoais da artista. Reitero que toda celebração do amor, a princípio, me parece bem-vinda – mas vamos combinar que já temos suficientes representações positivas do amor heterossexual entre pessoas fisicamente atraentes, não? O projeto certamente me interessaria muito mais se estivesse voltado para a diversidade humana que o amor abrange e comporta.

Mas dado que não tenho pretensões de fazer uma crítica profunda da obra (aliás, só o fato de considerá-la obra de arte já é ousado e certamente questionável), pois isso exigiria conhecimentos para os quais a minha boa-vontade e o Tio Google certamente não bastariam, falarei das lembranças que me foram por ela evocadas – o que, aliás, é das melhores coisas que se pode fazer com uma obra qualquer: prosseguir associando livremente.

Assim, compartilho com vocês a lembrança de uma imagem que, se não fosse por Yang Ya-Ching, provavelmente teria permanecido em alguma gaveta pré-consciente da minha memória até o fim dos tempos. Lembrei-me de uma reportagem da MTV brasileira de muitos anos atrás, do tempo em que a MTV ainda tinha programas musicais. Para falar a verdade, nem sei dizer se a MTV brasileira continua exibindo programas musicais até hoje ou adaptou-se totalmente ao esquema da MTV americana; do que não tenho nenhuma dúvida é da existência, tanto ontem como hoje e sempre, de VJs gostosas na emissora.

Sigamos. A reportagem em questão mostrava a VJ gostosa da vez deliciando-se com um sundae de creme, fazendo aquela cara de Ana Maria Braga. E ao final da reportagem, quando já começavam a aparecer os créditos, mostrou-se o behind the scene. Que consistia basicamente na VJ gostosa cuspindo todo o sorvete que havia acabado de saborear.

Eu entendo que um líquido branco escorrendo da boca de uma bela mulher possa ser uma imagem bastante erótica em determinados contextos. Mas, no caso que estou contando, podem acreditar: não era sexy não. Era só triste. Triste e perfeitamente lógico: afinal, não se pode ter tudo na vida, não é mesmo? Não dá para ser gostosa nível-mostrar-a-bunda-na-TV e devorar um sundae ao mesmo tempo.

Mas voltemos a Yang Ya-Ching. A ponte entre essas duas imagens – a gostosa que cospe o sorvete e a moça que beija vários homens – está no sentimento que me foi causado por ambas. Pois também a artista beijoqueira evocou em mim um indisfarçável sentimento de tristeza – a mesma que se sente ao observar um alimento perfeitamente delicioso sendo cuspido fora. Afinal, Yang Ya-Ching aparece nas fotos beijando dezenas de homens bonitos e, depois disso… Ela vai embora! Ela não está – pelo menos até onde sabemos – transando com nenhum deles!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aí alguém vai me dizer que o beijo é um prazer por si só – não é como o sundae que precisa ser engolido para ser apreciado em sua totalidade. Pois é, eu sei que é assim que as pessoas pensam. Mas, já que uma das tags deste post é “curiosidades”, deixa eu aproveitar e contar uma coisa curiosa para vocês: para mim não é assim que funciona não. Para mim, beijo é sexo. Claro que o beijo é um prazer que pode ser pensado isoladamente, tal qual mordida na orelha ou chupada na nuca. Tudo isso são prazeres por si só. Mas eles nunca vêm isolados ou descontextualizados. Todos se articulam no campo mais amplo do desejo sexual.

Reparem que nem por isso eu acho que se-beijou-tem-que-trepar, imediata e necessariamente. Mas mesmo quando o sexo não se concretiza, ele sempre está ali, como horizonte que determina a posteriori boa parte do sentido do beijo – e, em alguns casos, até mesmo de alguns abraços. Por isso as fotos de Yang Ya-Ching produzem em mim a angústia do coito – ou do sundae, como queiram – interrompido. São fotos que evocam a memória de um prazer pendente, que nunca pôde plenamente se realizar.

Reparem também que não sou louca de achar que a VJ gostosa e a artista beijoqueira sofreram por conta disso. Eu tenho noção de que essa viagem do prazer interrompido é só minha. Ao que tudo indica, as duas mulheres ficaram plenamente satisfeitas com seus sorvetes e homens pela metade. Além disso, não tenho por que negar minha admiração e inveja delas. Se deus me oferecesse agora, pegar ou largar, um corpo de gostosa e lindas fotos de beijos em Paris para poder mostrar, é claro que eu caía em cima com o ímpeto de uma solteirona no momento em que o buquê é lançado.

Mas, por mais que eu não negue que essas coisas sejam boas e invejáveis… A verdade é que a vida é tão curta, e há tantas outras atividades tão mais interessantes para se fazer. Como, por exemplo, chupar e engolir (estamos falando de sorvetes! ou não). E transar – com cem homens ou com um só, não importa.

Desde que seja por inteiro.

fotos: blog de Yang Ya-Ching

  • Daniel

    Camila, tem algo que eu queria te dizer ( :-p )

    No todo, a ideia da nossa colega beijoqueira é interessante, e algumas das paisagens nas fotos são tão bonitas que por si só já passam uma sensação de belo e agradável maior que a do beijo em si. Não sei se é Arte, mas pra qualquer projeto sincero importa antes comunicar o que pretende, e com honestidade, do que ganhar a chancela dos experts.

    Mas também acho que faltou variedade de homens no projeto da moça. Um pouco de fealdade não faz mal a ninguém.

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  • http://romerioromulo.wordpress.com romério rômulo

    camila:
    nada tenho contra o projeto da moça. ao contrário, essas coisas até me atraem.
    só achei tudo muito produzido, com uma pose excessivamente purificada. falta
    beijo real na história. fico à espera dos desdobramentos. certamente você vai trazê-los aqui.
    romério

  • http://www.tmoreirarocha.blogspot.com Túlio Moreira Rocha

    Tem que ser por inteiro, sempre. Acho que eu me sentiria profundamente frustrado de beijar centenas de pessoas das quais não lembraria nome ou não saberia sobre filmes ou músicas que gostam… São cem que não valem nada.

  • Adriana Godoy

    Gostei de sua análise a respeito dessa “arte”. Compartilho com você essa sensação de que está faltando alguma coisa. muito fluido seu texto, gostoso de ler. Abraço.

  • http://www.overboestar.blogspot.com gerusa

    Assim que li a ideia, pensei justamente nas mulheres. Mas aí depende, talvez ela só queira mostrar beijos e paisagens… E por falar nisso, essa ultima foto ficou linda, com uma cara de cartão postal.

  • http://leguts.blogspot.com Olivio

    Pois é, Camila, a Yang Ya não quer beijar desdentado, né?! Mas o importante é beijar! Como diz nosso vizinho e mecanico Carlão, aqui do bairro, com sua voz tonitroante: “Tem que transar todo dia! E beijando! Beijando muito!”

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  • ana lisboa

    ahehahehae muito boa olivio concordo plenamente
    ahehaheae

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  • Alan Leite

    A idéia da moça é interessante. Não sei se eu concordo com a idéia de que a reprovação da promiscuidade seja um machismo, se for assim as mulheres que reclamam dos homens “galinhas” seriam feministas? Mas essa discussão não é objetivo aqui.

    A idéia de que a interrupção da relação após um beijo, não se extedendo ao sexo, interrompe uma sequência esperada é meio óbvia, sendo a comparação com o sorvete expelido também clara.

    No mais, acho pode-se sim, chamar o trabalho da moça de arte. A presença de realidade é escolha do artista, quem disse que ela é realista…
    Post de bom gosto, as fotos me agradaram…….

  • http://escapismogenuino.wordpress.com Adriana

    gostei muito desse texto. Concordo – seja qual for a idéia, que seja por inteiro. como diz Adriana Calcanhoto: “Eu gosto dos que têm fome. Dos que morrem de vontade. Dos que secam de desejo. Dos que ardem.”

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