Como ser um super-herói
[ este post foi publicado inicialmente ontem, 27, no blog do Rafa Losso, por ocasião do “tranplante de posts” proposto pela campanha da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos ]
por Otávio Dias – Outro dia, estava assistindo The Mentalist, na TV. O personagem principal dessa série resolve casos policiais fazendo uso de mágica – isso mesmo, mágica –, muita astúcia e capacidade de observação. Há muita ciência nas séries televisivas atuais, a serviço e beneficiando-se delas (muitas vezes um processo metodológico é distorcido em nome do programa e, ao mesmo tempo, o programa divulga as ferramentas que desenvolvemos graças ao método científico). Mas volto ao episódio que assistia: ao final, Patrick Jane (o protagonista), reclama quase que para si mesmo por encontrar pessoas próximas a uma vítima de assassinato, que o agradecem pela resolução rápida do caso. À reclamação, seus colegas fazem cara de interrogação e a chefe de equipe logo esclarece que “ele gosta de se passar por Zorro. Quem é aquele homem mascarado, se perguntam, eu nunca tive a oportunidade de agradecê-lo”. Ao que o mentalista Jane apenas responde, com um aceno de cabeça, “exatamente”.
Há diversos tipos de herói e a personagem Patrick Jane é apenas um, de tantos possíveis. Quando criança, temos como heróis nossos pais; crescendo, passamos pra outras personagens e tipos diferentes de heroísmo: Ben 10, Batman, bombeiro, polícia e, algumas vezes, um artista. E nesse ponto paro e me explico, porque todo mundo quer ter seu conceito pessoal de arte (tenho o meu, e exponho pra vocês aqui, agora): arte não se trata de uma beleza objetiva e mensurável, mas de transformação. Nesse sentido, Einstein e Picasso são grandes artistas contemporâneos e que conduziram multidões por novas formas de entender o mundo, filosófica e artisticamente. Mais ou menos à mesma época em que os dois moços explodiram, inclusive, vemos a arte tornar-se pela primeira vez mercadoria pop: temos o primeiro superstar, Harry Houdini, Chaplin e o cinema de massa, a ficção científica que começa a caminhar e os primeiros vôos do homem, feitos lá sobre as ruas de Paris.
E já misturei tudo, porque queria dizer que um de meus grandes heróis é Isaac Asimov e outro é uma de suas criações, muito bem encarnado por Robin Williams na adaptação cinematográfica O homem bicentenário. Porque Asimov pôde explorar psicologicamente relações que ainda haveríamos de ter com o universo, a estatística e o desenvolvimento da informática e cibernética. Também porque (o assim nascido) robô Andrew, defeituoso – melhor seria dizer idiossincrático –, fez o que acredito todo ser humano deveria compreender ter o potencial pra realizar: buscou se transformar e transcender sua programação original. Nessa busca por aquela qualidade indefinível que faz de nós homens, Andrew criou peças mecânicas, elétricas e, finalmente, biomecânicas: órgãos que ele mesmo poderia usar, aproximando seu corpo mais e mais do nosso. Via de duas mãos, suas criações poderiam ser usadas por nós pra melhorar nossa qualidade de vida. Quando uma máquina se torna humana e quando um humano se torna uma máquina? São nossas peças que nos definem como um ou outro? Eis o que Andrew nos impõe.
Outros heróis, mais pop, são os X-Men. Foram, durante muitos anos, representantes do que de melhor havia de argumento em quadrinhos americanos, possibilitando que todo tipo de problemas do mundo real fosse discutido num universo fictício. Num dos mais interessantes arcos de história por eles figurado que já li, mutantes – pessoas com capacidades especiais codificadas em seu DNA – são mortos para terem órgãos específicos transplantados em humanos, criando toda uma categoria de pessoas artificialmente transformadas. O que temos mais próximo disso hoje, no mundo real, é o transumanismo, movimento sem componente de ódio que advoga o uso da ciência e tecnologia pra melhorar a qualidade de vida e, num futuro próximo, escapar à morte.
Ainda não sabemos o que define vida. O assunto é controverso e as brigas giram costumeiramente ao redor dos temas “aborto” e “células-tronco”. O que sabemos é que precisamos de um planeta com características similares às da Terra, porque nossos corpos adaptaram-se a ele ao longo de milhares e milhares de anos. Aprendemos também como sobreviver em condições ambientais diferentes: sob os oceanos, em viagens espaciais (ainda curtas), em remotos desertos brancos e congelados; e temos certeza de que somente vivemos assim e aprendemos porque temos um corpo, fantástico recipiente de sinais elétricos e instrumento da nossa própria modificação.
Modificação, transformação. Podemos superar dificuldades e nos elevarmos além de expectativas através de nossos esforços individuais. E podemos, também, transformarmo-nos em heróis – temos todos o potencial para tanto. Podemos absorver o conceito de herói, do cavaleiro solitário que tanto gosto faz ao mentalista. Basta algumas palavras, pôr a mão na consciência, desprender-se e ajudar que se desprendam de um corpo que cedo ou tarde deixamos de usar. É uma oportunidade de ser herói duas, três, sei lá quantas vezes: todos os órgãos do nosso corpo podem ser aproveitados por outra pessoa, alguém com um fígado que não funcione bem, ou que precise de sessões rotineiras de diálise ou não tenha mais coração pra viver entre hospitais. Mais ainda: que tipo de superpoder não é, por exemplo, conceder a uma criança presa a uma cama a capacidade de andar de bicicleta, brincar de fechadinha, cair e se machucar durante o esconde-esconde?
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![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)

muito legal vou usar sua opinião