Camada pré-sal não é pra avestruz
por Otávio Dias – Nos últimos anos, nos impressionamos mais e mais com perspectivas sombrias para o futuro próximo. “Como serão as coisas daqui 100 anos?” é uma pergunta que o personagem-título da peça O mentiroso, que conta com trabalho meu, faz. Perguntamo-nos freqüentemente como será nosso futuro. É fenômeno comum a todos. Como indivíduos, costumamos nos preocupar com nossa família, trabalho. Como parte de uma coletividade, as preocupações costumam ser outras: viveremos numa sociedade melhor?, o mundo será tão ou mais saudável para nossos filhos em 2015, 2025, 2050?
Tem-se falado muito sobre o futuro do Brasil nos últimos meses, por causa do tal do pré-sal. Marketing, mania, ferramenta pra que esqueçamos de tantas outras coisas, somos bombardeados todos os dias com novas notícias: nova estatal!, Brasil cheio da bufunfa, de ouro negro!, Lula quer apressar, oposição quer atrasar… A lista é grande.
E, já que é pra nadar em marketing e desinformação, pensei em fazê-lo com um tanto de estilo. Afinal, toneladas de filmes já trataram do futuro, sob uma ou outra ótica. Relembro duas séries de filmes, a começar por aquela que conta a história de Mad Max, que lançou Mel Gibson ao estrelato. Road movies pós-apocalípticos, os filmes dessa série contam o que se passa numa Terra “em um futuro não muito distante”. No final das contas, as histórias do segundo e terceiro filmes da série tinham como mote a sobrevivência num mundo sem fontes de energia; que se dirá do tão cobiçado petróleo, plataforma de energia sobre a qual colocamos nossos carros e tantas indústrias. E quanto à Batertown, a cidade movida por fezes?
Pra contrabalançar estes filmes – e pulando de um estilo a outro, oposto –, lembrei da trilogia De volta para o futuro, onde a energia acaba por se tornar motivação pra quase todas as dificuldades que acabam por acontecer nos filmes: no primeiro, começamos com plutônio e acabamos num 1955 sem fonte de energia que gere o 1,21 Gigawatt necessário pra que o capacitor de fluxo seja ativado e a viagem de volta para casa, possível; no segundo filme, somos apresentados ao Mr. Fusion, que gera toda a energia necessária pra que o DeLorean voe e, claro, leve o doutor e o garoto à 2015 (caramba, já estamos perto e nada de carros voadores, roupas com ventiladores, tênis que fecham automaticamente…); no terceiro filme, nada de petróleo: é um trem maria-fumaça, com máquina a vapor envenenada, que leva “Clint Eastwood” de volta à 1985. Abordagens completamente diferentes a um mesmo problema: como viver sem energia?
A pergunta é boa e vale um bocado para nós que vivemos uma realidade pós-apagão (ainda não pós-apocalíptica, relaxa). Acabamos por esquecer completamente de algo que nós, brasileiros, estávamos a fazer bem: desenvolver fontes alternativas de combustível. Vínhamos, aliás, caminhando à frente da concorrência, nessa fundamental busca por fontes mais limpas e renováveis de energia. Os Estados Unidos, um dos principais desenvolvedores de novas tecnologias no mundo, vinham apostando muito no etanol de milho. Os lobistas do milho norte-americano tentaram passar a lábia na natureza, no governo e na população mundial, em ânsia de vender sua produção e tecnologia. Mas essa natureza, ah!, ela tem sua maneira de ser… muito própria. Acabamos por sermos nós, brasileiros, favorecidos pelas inclinações dela, porque cientistas de todo o mundo concluíram que o etanol de milho não é uma fonte de energia tão limpa quanto o etanol da cana de açúcar, produzido em larga escala aqui no Brasil. Os parâmetros pra comparação são diversos e alguns deles podem ser consultados nos sites da ABIN e Rastro de Carbono. Temos informações espalhadas por aí, ao menos.
Particularmente, não sei se houve qualquer mudança nos planos de investimentos em pesquisa para novos combustíveis e tecnologias (e pesquisa e tecnologia são coisas de que carecemos sempre, e sempre mais que de nova estatal, principalmente se temos planos de nos tornarmos país avançado). Tais notícias deixaram de fazer parte dos noticiários e, se não deixadas em segundo plano, certamente são deixadas de lado, ante a uma ânsia de encontrar novas fontes de renda pra produzir populismo. Imediatismo puro. Enquanto isso, Índia e China avançam, produzindo veículos elétricos cada vez mais baratos e eficientes. Claro, a eletricidade pode não ser a solução definitiva para os problemas energéticos e ambientais que estamos a enfrentar, mas me soa mais repleto de perspectivas que a produção de mais petróleo.

Reva NXR – Pode até não ser bonito, mas é limpo e carrega tranqüilamente até 4 pessoas, o elétrico indiano
Triste, dureza. E sequer falei em outras fontes de energia, como aquela extraída do núcleo atômico… Só espero que não resolvam queimar a Amazônia inteira pra produzir carvão! Buscar petróleo na camada pré-sal não é tarefa pra avestruz: tratemos de manter um olho pra fora da terra, no futuro.

