Verissimo, o analista especializado em clareza
2–09–2008 – – Enviar para e-mail
“Olhando o fogo, também pensei em seu poder
hipnótico e em como ele devia inflamar a
imaginação de quem o contemplava, no tempo das
cavernas, e via nele fantasmas e presságios.
O fogo era, de certa forma, a televisão da
pré-história – com uma programação muito melhor.”
L. F. Verissimo
por Daniel Lopes – No mar de platitudes e ignorância que é a grande mídia brasileira, alguém como Luis Fernando Verissimo é quase um milagre. Só não é único porque existem outros nomes, como Sérgio Augusto, que também servem de contraponto. Verissimo tem suas crônicas publicadas no Estado e no Globo – uma voz de esquerda em veículos de direita. É como se os próprios editores tivessem consciência da miséria intelectual da maioria de seus repórteres e colunistas e chamado Verissimo e mais uns cinco para o negócio não ser ruim de todo.
Verissimo, claro, é muita coisa. Não se resume a comentarista político de esquerda. Suas muitas crônicas tratam de assuntos os mais diversos, e já deram origem a coletâneas que, pela variedade temática, parecem obras de autores diferentes. Mas, não levassem a assinatura de Verissimo nas capas, ainda assim, pela leitura de um parágrafo qualquer, identificaríamos o “culpado” daquilo.
Porque há uma tremenda sinceridade em seus textos. Ele vai sempre direto ao ponto. Não dá voltas e mais voltas para chegar onde pensava querer e no final não ser entendido por ninguém – daí as crônicas sempre em poucos parágrafos. Dá nomes aos bois e é destemido sem ser arrogante. Como já leu mais que dois livros de história, não cai nessa conversa de “fim da história” ou “fim das ideologias” – aliás, a pior de todas as ideologias. A elite brasileira, nos textos de Verissimo, é a elite brasileira – predadora e de tremendo mau gosto, como já apontou Raymundo Faoro. A cretinice política nacional é cretinice, e não “realpolitik”. E nós (pelo menos eu), que não somos nem políticos nem de elite, não somos coitadinhos indefesos, e sim otários da mais perfeita estirpe.
Em um volume de crônicas que acaba de sair, tudo isso fica provado. O mundo é bárbaro - E o que nós temos a ver com isso (Objetiva), apresenta, como indica o título, um desfile das mazelas nacionais e internacionais (principalmente chinesas e estadunidenses); e, como deixa claro o subtítulo, não é um livro apocalíptico. A visão catastrofista, como se sabe, cai muito bem ao preguiçoso e niilista individualismo destes anos que correm, que consegue, no máximo, gerar um movimento como o “Cansei” (como diria José Simão, nosso melhor iconoclasta, “Cansou? Senta!”).
Tenho para mim que, lendo a coluna de LFV, o assinante do Globo, por exemplo, ganha mais conhecimentos sobre política do que lendo a Lucia Hippolito; e sabe mais sobre economia do que lendo os artigos de Míriam Leitão. Meu Deus, os artigos de Míriam Leitão… Ela é tão liberal que me pergunto se um dia já parou pra ler Adam Smith. Suas análises encontram par, na TV, com os comentários de Joelmir Beting, na Band, para quem “inflação é como gravidez” – ou seja, não existe “pouca inflação” como não existe “pouca gravidez”. E os editoriais e infográficos da Veja, comparando o país a uma casa e o governo a um pai de família, para concluir que “não se deve gastar mais do que se ganha”? É de começar a dar o nó na corda. Quanto a essa última metáfora, escreve Verissimo:
(…) me ocorre uma situação familiar supersimples: um dia o seu Egídio é obrigado a escolher entre alimentar os seus filhos e pagar a sua dívida. Qual o exemplo que ele deve dar para a nação? Está certo, melodrama não. Mas se vamos recorrer a exemplos simplistas, então sejamos simplistas até o fim.
E o que devemos dizer do renomado sociólogo que disse em entrevista à Folha de São Paulo que “o tempo histórico da reforma agrária já passou”? Nada, claro. A vida continua.
Homem de ideologia, mas não de partido, Verissimo precisa de apenas dois parágrafos para fazer a melhor análise de conjuntura (como dizem os doutos) do Brasil dos últimos anos: o PT faz um governo de PSDB e o PSDB fez um governo de PFL.
Além do temário mais ligado às hard news (ou à desconstrução delas), o cronista é impagável quando se volta para os Grandes Problemas e Mistérios do Homem e do Universo. Mestre da frase e da ironia, debruça-se sobre a inadiável questão do Motor da Humanidade, e conclui:
Eu acho que a verdadeira força motriz do desenvolvimento humano (…) foi a preguiça.
Com a possível exceção da própria preguiça, nenhum outro animal é tão preguiçoso quanto o Homem. O desenvolvimento do dedão opositor nasceu da preguiça de combinar dentes e garras para comer e ainda ter que limpar os farelos do peito depois. A linguagem é fruto da preguiça de roncar, grunhir, pular e bater no peito para se comunicar com os outros e, mesmo, ninguém agüentava mais mímico. A técnica é fruto da preguiça. (…)
O produto supremo da ciência militar, o foguete intercontinental com ogivas nucleares múltiplas, é uma obra-prima da preguiça aplicada: apertando-se um único botão se matam milhões de outros sem sair da poltrona. Uma combinação perfeita do instinto assassino e do comodismo. A apoteose do dedão.
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8 comentários:



Daniel!
É sempre um prazer ler teus comentários, este, então, sobre Veríssimo, junta dois gênios! Parabéns. E, cá prá nós, Mirian Leitão? Ninguém merece. Já vi ela culpar o Lula por um problema na Previdência Social do Chile…
Abraços!
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Concordo com o Paulo Vilmar. Essa Mirian Leitão é um tremendo erro econômico e político do país. Pior que tem gente que nem percebe as atrocidades que ela diz.
Bem, quanto a seu texto, muito bom, pertinente, sensato. Gostei. O Veríssimo é um dos autores que uso muito em sala de aula, por motivos óbvios, não? Beijo .
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Viva à clareza! Pro lixo com o prolixo! (trocadilho um tanto quanto infame, mas o que importa é o conteúdo).
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Paulo, pra não falar daquele comentário clássico em que ela disse que, com o Requião, o Paraná deixou de exportar uma certa quantidade de soja (quantidade essa maior que a produção mundial).
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Legal, tenho todos os livros dessa série do Veríssimo, exceto este. Vou correndo comprar nem q seja num sebonline.
Outra coisa, já percebi q qdo comento q gosto de ler Veríssimo a reação é de duas uma: ou me dizem q O Tempo e o Vento é bom mas q não leram ainda pq é enorme (a taquicardia geralmente aparece nessa hora, mas é pior qdo digo Stephen King e começam a falar de casca de noz) ou me olham como se eu tivesse falado a palavra bunda numa festinha de criança. Só falta chorarem.
It’s hard, very hard.
1 abraço.
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Oi Daniel,
Obrigada pela visita em meu blog e por seu comentário. Adoro Verissimo e indiquei inclusive esse seu texto sobre ele e seu livro pois achei bem legal. Apareça sempre por lá.
Abraço,
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Otimo texto Daniel.
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É muita babação de ovo..O LFV é uma especie de Jô Soares da classe media “bem pensante”: faz neguinho (e branquinho) se sentir inteligente sem ter de pensar nada por si mesmo…É superficial, oportunista e nunca briga com o poder vigente..e não da pra livrar a cara em quem publica nos veiculos que o abrigam. É um tipo de sub-Millor Fernandes sem um passado glorioso que alivie seus pecados atuais.
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