8–09–2008

Um cérebro analógico ripando CDs

por Luiz Biajoni – Demorou um tempo pra que eu pensasse que talvez pudesse colocar meus CDs dentro da memória do meu laptop. O comentário de um amigo me alertou: “Quero comprar um computador para colocar meus CDs nele e preservar os originais de riscos, furtos ou sumiços ocasionais por empréstimos”. Ei, pensei, eu tenho um laptop e não passo os meus CDs para ele. Arrumava, com isso, mais um dos meus intrincados problemas.

Sim, queria botar meus CDs no computador. Fazendo isso, podia copiá-los às pencas em mp3 para os amigos, podia fazer aquelas coletâneas, colocar em ordem seqüências que talvez quisesse ouvir em ocasiões especiais, teria à mão toda minha coleção a clique mínimo. Linda a tecnologia, pois não?

E os discos podiam ali ficar, intactos e bonitos, na ordem intocada da arrumação sentimental.

Meus discos estão dispostos em uma ordem tão intrínseca que quem olha desatento pode achar estranho que uma prateleira comece com Velvet Underground e acabe com Vic Chesnutt sendo que Nick Cave, Nick Drake, Leonard Cohen e Frank Black possam ser encontrados ali pelo meio.

Organizar os discos na estante é uma forma de crítica – parafraseio Borges.

Agora, assentava em mim esse problema: como começar a ripar os discos? Qual ordem considerar? Existiria na ripagem uma ordem outra, desconhecida de mim, nova, ascética, holística? Qual a capacidade de meu computador? Agüentaria ele todos os meus quinhentos-e- tantos discos? Teria que escolher? Cem, duzentos? Havia mesmo a necessidade de ripar todos?

As dúvidas me matavam, mas eu TINHA que começar.

Escolheria eu discos que já não ouvia mais? O caráter histórico teria importância nesse processo que era, no fim, mais salvaguarda que acesso?

Bom, decidi começar por ér, claro, Lou Reed. Deveria escolher seus discos mais importantes historicamente ou os melhores? Os que eu acho melhores AGORA ou os que eu já achei melhor e agora acho que o fato de ter ouvido demais fez com que meus ouvidos procurassem neles defeitos demais?

Por via das dúvidas, comecei a ripagem por Transformer, que, de um jeito ou de outro, é um disco do qual eu quero continuar ouvindo, até o fim dos meus dias, umas três ou quatro faixas. Copiei Berlim na seqüência, pois, embora não o ouça mais, é um dos poucos discos conceituais que merecem várias leituras, e acho que vou escrever com mais calma e maturidade sobre ele num futuro distante. Depois… bem… copiei New York, clássico atual mas que ouvi demais. Perfect night in London que é um dos grandes discos ao vivo de todos os tempos, e… bom… e… descobri, aí, que tenho particular apreço por Legendary hearts, de 1983. E pelo malhado Ecstasy, de 2000. E que quase jogaria todo o resto de Reed fora, tirando, claro, uma ou outra grande canção.

Exerci uma forma de crítica profunda ripando meus discos.

Não consegui escolher discos específicos de Vic Chesnutt, ripei-os todos. Mas consegui escolher uns três ou quatro de Nick Cave. Mandei pra dentro do computador os quatro Nick Drake – mas dos 20 Leonard Cohen escolhi só cinco. Sentimental, me vi ripando Talking book, do Stevie Wonder e quase todo Wilco. Kate Bush e Ten Years After e Stone Roses. Mais não conto, por uma certa vergonha – até nossos gostos merecem um certo tipo de discrição.

Olho agora para essa fragmentada discoteca agadeística e para minha estante intocada e me sinto desonesto. Não teria sido, lá no fundo, aquele disco do Pixies mais importante dentro da minha exígua vida sentimento-musical mais importante que qualquer Black Box Recorder? Não seria melhor ter guardado nessa eternidade físico-laptopeística If you’re feeling sinister que qualquer John Cale?

Não sei se caberiam todos os discos no meu computador ou mesmo se teria tempo para ripá-los todos… mas, iniciado o processo, posso ter apenas uma certeza: ele nunca chegará ao cabo.

Terminarei meus dias, talvez, achando que falta ainda comprar AQUELE disco, para colocar na pasta X do computador… entre as pastas “1 – Muito importante” e a “10 – Menos relevância – mas especial para dias frios”.

Minha mente funciona de maneira assustadora.

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| 4 comentários | Dê sua opinião ↓ |

  1. Renato Medeiros (25–09–2008 6:56 pm)

    Realmente, de maneira assustadora. rs (tô brincando)

    Mas é interessant eobservar como a tecnologia muda nossas relações com os objetos (lembrei de McLuhan agora e de seus meios de comunicação como extensão do homem). Uma vez escevi um texto an faculdade sobre isso.

    Dizia lá que eu, mesmo sendo tão jovem (20 anos), ainda peguei o fim do prazer que era ir numa loja de CDs e comprar um CD (prazer que já era menor do que o de ir numa loja de discos e comprar um vinil há uns 15 ou 20 anos, já esse prazer eu não vivi).

    Hoje em dia, pessoas apenas 5 anos mais novas do que eu já não sabem que prazer é esse e só conhecem o que é fazer o download dos discos. Claro que eu também estou nesse processo. Eu não compro mais discos há uns 3 anos e quase nem escuto os poucos 60 CDs que eu tenho. Também não precisei ripá-los no PC, baixo tudo an Internet, baixo os CDs que já tinah e baixo os lançamentos e os antigos que nunca achei na loja.

    Por isso digo, a tecnologia sim é assustadora! Acho que você nem é tão mais experiente do que eu (seria deselegante dizer mais velho, né?) e mesmo assim não estava familiarizado com um processo (o de ripar ou ouvir música no PC) que para mim sempre foi tão natural…

    Minha mente também funciona de forma assustadora O.O

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  2. Guii (25–11–2008 2:27 pm)

    Sou mil vezes sentimental com meus CD’s… aliás com tudo que é meu…

    Quando os ripei não tive tantas dúvidas pois minha coleção se limita a menos de 30 mídias!

    Mas imagino a confusão mental!

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  3. Prudenciano (28–03–2009 2:26 pm)

    Cara,eu tenho uma grande coleção de cdsHC/punk),e tenho um apego a eles e sempre acho um q me falta.

    mas eu ñ passo pro pc,gosto de por no r´dio e dar o play.

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  4. Hilton (24–09–2009 12:47 am)

    Pois é, meus caros…

    Tenho uns 400 LPs, incluindo 2 pictures-discs um do Metallica e um do Helloween, (este uma verdadeira obra de arte); um vinil branco – Dead Kennedys; o Tommy com o Who e a Sinfonica de Londres (com o Rod Stewart cantando Pinball Wizard!!!) com booklet, quadrafônico (dizem que foram prensadas só mil cópias, e 6 delas estão no Brasil); o Geordie (com o Brian Johnson – antes de entrar no AC/DC no vocal);o Grande Funk Railroad – Et Pluribus Funk (aquele com a capa em forma de moeda); entre outras verdadeiras raridades. E também uns 100 CDs.
    Já pensei em ripar os LPs, mas ia dar um trabalho danado configurar, sem contar que teria que comprar um pick-up novo, pois o meu velho Garrard não iria fornecer o áudio com a qualidade necessária…
    Resolvi apelar para o BitTorrent, e hoje tenho incontáveis gigabytes, inúmeras discografias completas, que sei que nunca vou ouvir, tudo na maior zona… espalhados em 2 HD do desktop, e mais alguma coisa no notebook recém adquirido. Ah, e acabo de comprar um HD externo de 500 GB… Onde isso vai parar?

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