12–09–2008

Tutsis e hutus

Refugiados numa Missão Católica abandonada (Congo)por Pe. Osnildo Klann*, em Kisangani/Congo – Ouvi dizer que ontem (11) de manhã nosso vizinho, Ruanda, dominado pelos tutsis, declarou guerra à Republica Democrática do Congo. Não é novidade a guerra no leste congolês. A diferença é que agora seria oficial, se realmente essa declaração aconteceu. Não é fácil ter notícias aqui do que acontece no leste. Mas na realidade a gente daquela região sempre vive em constante tensão de guerra. Para entendermos um pouco a situação, faz-se necessário atentar para os detalhes e relembrar eventos.

 
Os países
Ruanda: pequeno território localizado no Planalto Central Africano, com elevadas montanhas vulcânicas e clima tropical de altitude. Faz fronteira com a República Democrática do Congo (ex- Zaire). A população é composta por 90% de hutus e 9% de tutsis, com um total de 6,5 milhões em 1998.

Burundi: localizado ao sul de Ruanda, com uma área de apenas 27.834 km2 , e uma população total de 6,6 milhões de habitantes, composta por 85% de hutus e 14% de tutsis.

 
As etnias
Os tutsis eram predominantemente pastoreiros e apresentavam maior estatura. Os hutus, de pele mais escura e menor estatura, tinham tradição agrícola. A partir da colonização sob o domínio alemão, e posteriormente belga, esses dois povos tiveram sua organização modificada.

Os tutsis foram escolhidos para assumirem cargos da administração estatal, treinamento militar, acesso exclusivo à educação, uma vez que as escolas exigiam estatura mínima, visando impedir o ingresso dos hutus. Tinham estatura vigorosa; raça pura, que os alemães da época tanto prezavam. Descendentes, talvez, da Rainha de Sabá.

Os hutus, pelo contrário, eram agricultores e de aparência física mais fraca. Eles não caíram nas graças dos alemães. Quando chegaram à região, os belgas continuaram a mesma política de discriminação, e assim incentivavam a rivalidade entre essas duas tribos, rivalidade que continua até hoje e que já provocou genocídios – e mesmo agora está provocando assassinatos numerosos com armas brancas.

 
Os conflitos
O conflito entre tutsis e hutus é mais uma demonstração do efeito retardado da política colonial européia no continente africano. Até o início da colonização alemã na região, as duas etnias viviam em relativa harmonia, no território que hoje é ocupado por Ruanda e Burundi.

Em 1959, os ressentimentos acumulados pelos hutus no período colonial explodem. Nesta primeira rebelião, militares tutsis foram aprisionados e tiveram seus pés cortados a golpes de facão, com o objetivo de diminuir a diferença de estatura (e, simbolicamente, diminuir as diferenças sociais).

Em 1962, a Ruanda tornou-se independente e a minoria tutsi ficou a mercê dos hutus, sendo obrigado a migrar para Uganda, a fim de organizarem uma nova tomada de poder. Este conflito se intensificou a partir de abril de 1994, quando os presidentes de Ruanda e Burundi, de etnia hutu, foram mortos em um atentado que derrubou o avião onde viajavam juntos. Foi o estopim para o genocídio com mais de 1 milhão de mortos e mais de 2 milhões de refugiados.

Em julho de 1998, foi elaborado um acordo de cessar fogo, com o estabelecimento de um governo formado por representantes tutsis e hutus. Mas esse acordo pouco resultado tive. As rivalidades continuam.

 
Os tutsis e os hutus no território congolês
Para destituir Mobutu do poder, Kabila, pai do atual presidente congolês, contou com a colaboração dos ruandeses e dos ugandeses. Depois da vitória, os militares desses dois países não queriam mais sair da RD do Congo, disputando a posse da terra, uma vez que o território deles é extremamente pequeno e porque essas etnias afirmam serem suas essas terras congolesas. Principalmente as terras dos Grandes Lagos. Durante dias, eles lutaram na RD do Congo, principalmente na região norte e leste, matando milhares e milhares de congoleses. A intervenção da ONU estabeleceu uma paz frágil. Os tutsis de Ruanda continuaram apoiando um general congolês revolucionário, Nkunda, e os hutus continuaram atacando as populações da região do Kivu com as milicias interahamwe (paramilitares hutus).

Esses revolucionários criaram um clima de intranqüilidade e uma psicose de guerra no leste congolês. Tropas estrangeiras infernizavam a vida das populações. A Conferência dos bispos da RD do Congo fez um alerta às autoridades congolesas e internacionais, denunciando a presença de militares estrangeiros em território congolês, e condenando fortemente toda violência e proclamando, em alto e bom som, a soberania da nação congolesa. Isso em 2004.

Apesar de todo o clamor do povo e dos senhores bispos, as autoridades nacionais e estrangeiras pouco se importavam com a situação dramática do povo do leste congolês, vitima da violência, das incursões militares em suas cidades e aldeias.

Em 2007, os bispos novamente protestaram, chamando a atenção das autoridades para a triste situação no leste. Em dezembro de 2007, no Memorandum da Conferência Episcopal Nacional do Congo aos participantes da conferência sobre a paz, a segurança e o desenvolvimento no norte e no sul (Kivu), os bispos afirmaram: “O sucesso de uma tal conferência depende do espírito de diálogo na transparência e na verdade, da determinação e da sinceridade dos participantes. Nada se fará, se a conferência não abordar as questões de fundo e em todas as suas dimensões: humanitárias, territoriais, históricas, econômicas, políticas, étnicas, jurídicas”.

 
Depois da Conferência
Infelizmente, pouco resultado trouxe a conferência de Goma. A intranqüilidade continua na região. As milícias paramilitares continuam apavorando os habitantes do Kivu. Agora mesmo estão em guerra. E o governo não tem força nem moral para tomar uma atitude enérgica contra esses grupos, pois não tem um exército forte nem coragem de agir, já que está compromissado com os tutsis, que o ajudaram a derrubar Mobutu. Além disso, a penetração dos tutsis no território congolês, e mesmo no próprio governo do país é uma realidade. E eles são os mais interessados na posse dessas ricas terras do leste congolês.

 
* Padre Osnildo Carlos Klann é catarinense, membro da Congregaçâo dos Padres do Sagrado Coraçâo de Jesus, à qual serviu no Brasil e na Itália. Hoje, desenvolve projetos junto à população de Kisangani, na República Democrática do Congo.

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| 16 comentários | Dê sua opinião ↓ |

  1. Marilia Fatima Bandeira (12–09–2008 12:47 pm)

    Daniel,

    Conheço o Padre Osnildo há anos e estou muito feliz por você dar a ele a oportunidade de divulgar o trabalho maravilhoso que faz junto às crianças do Congo…
    A pobreza e a fome na África merecem a atenção do mundo…

    Parabéns pela iniciativa…

    Marilia

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  2. Sérgia (18–11–2008 10:30 pm)

    Essa rivalidade na RDc é consequencia da colonização europeia.Se olhar para o mapa da Republica Democratica do Congo verão que as limitações do país são complicadas,complicadas ate nao forão mal feitas.Acredito que o conflito no leste do Congo não tem so causas economicas uma vez que a RDC é rica em minerais.A RDC faz fronteira com 8 países e esses países tem suas raizes e alguns na RDC tem seus compatriotas na RDC deixando os tutsi e hutus olhamos para o mapa e focamos a Zambia.A Zambia esta sub dividida o pais começa num extremo existe no meio do país uma pequena parcela pertencente a RDC em consequencia o que que vai acontecer a Zambia vai querer tomar aquela parcela,e por ai fora.Uma vez que a RDC é um país desorganizado,alto índice de corrupção,tornasse um alvo fácil para esses conflitos todos.Por isso acho que as tribos não deveriam se separar dessa forma,ficando em países tão próximos porque gera esses tipo de conflito.Falei da Zambia podia falar de Angola que tem uma das suas províncias mto perto a RDC.

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  3. carlos pereira (27–12–2008 7:14 pm)

    bem…eu não estou de acordo que seja apenas uma consequencia da colonização europeia, na verdade os países africanos de lingua oficial portuguesa não têem passado por este tipo de situações, na verdade houve conflitos entre partidos politicos financiados por estados soberanos (o MPLA financiado pela Ex URSS e a UNITA financiado pelos USA) tambem a frelimo foi um movimento financiado e daí ter criado muita instabilidade em moçambique, mas em termos de etnias nunca que eu tenha conhecimento, houve situações de alguma relevancia, ou seja, mesmo na guiné bissau que é um estado maioritariamente muçulmano, as relações com católicos tem sido pacifica. em Cabo Verde tambem nunca aconteceu nada que tivesse colocado em causa a unidade do país….
    resumindo, não querendo puxar a brasa á minha sardinha, acho que o relacionamento entre portugueses e africanos foi no meio de eventuais erros algo que pode orgulhar, não só nós, como tambem a nossa lingua, que soube unir os povos, que me emocionam aínda hoje até quando participam em manifestações desportivas….

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  4. aline (27–03–2009 9:00 am)

    eu adorei o saite de vcz e gostaria de saber mais sobre o pais

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  5. naiara (28–04–2009 1:52 pm)

    eu acho q esse tempo de gerras sao de muitas mortes e sofrimentos para muitos e pessoas q em todos os tempos morem sem ter feito nada

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  6. Samia (28–09–2009 3:34 pm)

    essas informações ajudou muito a complementar o meu trabalho :)

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  7. Iago (5–10–2009 9:52 pm)

    Essas informações ajudaram muito a complementar o meu trabalho… E a iniciativa do senhor Padre é muito boa.

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  8. thayze araujo (7–10–2009 8:09 pm)

    Eh..sempre bom termos informaçoes para estarmos ligados no mundo..e tambem para ajudar a fazermos os trabalhos escolares..hehe..continuem nos ajudando coloquem mais variadas informaçoes..bjo..

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  9. Emily e Guilherme (20–10–2009 7:40 am)

    Achei o texto complicado (-_-)’ eu e o Guilherme só estamos na oitava série e não conseguimos definir as partes mais importantes! (:[])

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  10. victória (11–11–2009 6:13 pm)

    É muito legal a exposição desse trabalho, pois mim ajudou em uma pesquiza muito complicada ;D

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  11. alexsander (24–11–2009 3:55 pm)
  12. Rômulo Lima (27–12–2009 11:08 pm)

    Sabia até então muito pouco sobre estes conflitos na R. D. do Congo. Ainda, sobre os tutsis e hutus.

    Obrigado pelas informações.

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  13. Carolina (23–03–2010 10:44 am)

    Muito bom, esclareceu minhas dúvidas.
    Apesar de achar interessante esse tipo de assunto, acho também muito triste, porque tudo começou com uma besteira.
    E é surpreendente saber, que em pleno século XXI, ainda existem esses tipo de ‘guerras’ por causa da etnia. Mas pode-se entender porque essa região é muito pobre tanto nas necessidades do dia-a-dia , quanto na educação.

    Parabéns pelo site.

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    nicolas:

    eu sò tenho 13 annos essa guerra começou quando eles dividiram os povos para causar conflito entre eles.
    eles dividem o pais em duas partes tutsis e hutus para eles lutarem atè a morte as pessoas q comandam esses povos mataram muitas pessoas 1 milhao de pessoas nessa guerra em um anno eles deixam as pessoas se acabarem para deixar muita pouk pessoas para eles dominarem e fazerem os favores para eles assim eles acabam escravisando matando deixam com fome trabalhndo eles vao morrendo de pouco a pouko

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  14. Rafael L (13–04–2010 11:07 pm)

    Muito esclarecedor! E saber que tudo começou pelos europeus que simplesmente pegaram uma regua e separaram a africa, deixando em um mesmo territorio tutsis e hutus!! :@

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  15. Rafael A. (2–05–2010 9:44 pm)

    Muito bom, me ajudou a fazer o meu trabalho!! Vlw

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