Se Dorival Caymmi tivesse nascido em New Orleans: ensaio sobre uma versão inexistente de “O vento”
por Camila Pavanelli – Não sei como soa o vento na Bahia. Em São Paulo, é um “vu” ou um “fi” nos ouvidos, e só: o vento bate nos prédios e não ressoa, não ecoa, nada acontece. Curiosamente, “O vento” de Caymmi combina bem com São Paulo. O assobio da música contempla tanto o “fi” quanto o “vu”: primeiro, a nota mais aguda, e depois a mais grave. Em New Orleans, no bairro em que me encontro, isso não bastaria.
Se Dorival Caymmi tivesse nascido aqui, além de chamar o vento ele chamaria também Naná Vasconcelos, pois o próprio vento clama por Naná. As grandes fileiras de árvores tão cheias de folhas são chacoalhadas pelo vento de forma a emular as famosas levadas de caxixi do percussionista mais original – e que há trinta anos faz exatamente a mesma coisa, onde e o que quer que toque – do planeta.
Faz pouco tempo, a rebarba do furacão lançou um vento muito musical sobre a cidade. Passei o dia pensando em Dorival e imaginando um arranjo implausível para “O vento”, mescla de Itapoã e Abaeté com St. Charles Avenue e Frenchmen Street.
Terence Blanchard, meu trompetista favorito de New Orleans, seria o solista. Intuo que ele poderia interpretar a melodia muito bem, mantendo-se fiel à rítmica e enfatizando a repetitividade da melodia – que na versão de Mônica Salmaso, por exemplo, é lindamente obscurecida pela letra e pela percussão.
Mas fidelidade demais entedia. Teríamos, então, que o começo da música, com os “vamos chamar o vento” e os assobios, inovaria: seria uma valsa-jazz, em 6/8, bem mais para o lento que para o andado. A banda, por sinal, é um quarteto: trompete, piano, baixo e bateria, mais a participação especial de Naná – que, na última chamada do vento, solta um “coquê!” que ecoa até o compasso seguinte. O assobio, aliás, não é assobiado: é feito pelo trompete. De resto, podemos imaginar um baterista bem solto, colorindo tudo com timbres de variados pratos (leia-se – ou antes, ouça-se – Brian Blade); um baixista que adora suingar numa valsa (Christian McBride); e um pianista tão apaixonado por New Orleans quanto pela música brasileira (Aaron Goldberg).
Uma vez chamado o vento, vem o “vento que dá na vela”. A banda passa ao 4/4 e ouviríamos então uma das grandes graças deste arranjo: o tempero dos caxixis de Naná.
Quando chegássemos ao “curimã, ê”, a harmonia mudaria junto com a percussão: a levada rítmica de Naná seria outra. E na segunda passagem do “curimã, ê”, teríamos uma mudança adicional: a modulação harmônica seria acompanhada por um timbre mais agudo dos caxixis.
E voltamos a chamar ao vento, e o primeiro e o segundo chorus pertencem ao trompete. Naná silencia: os caxixis têm sua hora e lugar. O piano não sola, e nem precisa, pois ouve tudo, responde a tudo. O terceiro chorus é do baixo, e tenhamos em mente que esse arriscado momento do arranjo só funcionaria com um baixista como McBride, capaz de fazer a música crescer ainda mais em dinâmica e em interesse para o ouvinte.
Temos, enfim, a segunda e última exposição do tema – de novo comparecem os caxixis e coquês de Naná. Essa re-exposição é absolutamente respeitosa a Caymmi na medida em que desrespeita completamente a melodia original: a brincadeira com uma obra-prima está entre os maiores tributos que a ela se pode prestar.
O vento é chamado uma última vez. As árvores de New Orleans agradecem.
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quase dá para ouvir.
que lindo, que lindo…
Vamos chamar o vento… Muito legal o arranjo! Que bons ventos a estimulem a novas idéias musicais.