25–09–2008

Qualquer direção que ele pudesse tomar, jamais a encontraria


Av. Atlântica (1921) [foto de Augusto Malta]por Vanessa Souza – O título ficou vago, eu sei. Do que trata o texto? Normalmente eu escrevo e, só depois, escolho um título. Lembro-me dos tempos da faculdade de jornalismo: em sei-lá-que-semestre, a turma teve que produzir uma revista. Todos tinham que ler as reportagens de todos e opinar sobre os títulos. Essa parte do título nos tomou mais tempo e energia do que a própria produção dos textos. Os “pais” das histórias não aceitavam, sem relutar, os nomes que os colegas queriam dar aos seus “filhos”. Certa vez nomeei um escrito com o título: “O pior do texto é escolher o título”.

Mas não é sobre a função do nome que desejo escrever. Assassinando aquela regra básica do jornalismo, de que o lead deve chamar o leitor para o principal, começo escrevendo sobre o que não vou me referir. A psicanálise sobrepõe-se ao jornalismo, nesse momento – para mim, Vanessa Souza, fique claro.

Participei dias atrás de um colóquio internacional de psicanálise. Na verdade, escrita e psicanálise. Foram três dias de imersão do tema, umas 10 horas por dia, além das discussões para além do auditório. Voltando para a vida aqui fora, passei mais quatro dias a escrever todas as minhas anotações, frases, referências, pinçando os temas, buscando o que ficou vago, mergulhando naquilo que mais marcou. Por isso, o meu dossiê pessoal sobre essa vivência, que resultou em 37 páginas digitadas em fonte 12 – e uma possível tendinite – será esmiuçado nesse espaço.

Uma das falas do colóquio que mais me instigou foi a de Flávia Trocoli, da Unicamp, pós-doutora em lingüística e psicanalista. O tema apresentado por ela foi “O legado de nossa miséria: contingência e transmissão em Machado de Assis”.

Só agora, voltarei ao título. “Qualquer direção que ele pudesse tomar, jamais a encontraria”, palavras de Flávia. A frase é sobre Bentinho e Capitu. Nesse momento, lembrei-me de um amigo psicólogo, que me contou um dia, por e-mail, em tom confessional, que ficou, e é, até hoje, apaixonado pela personagem Capitu. Na ocasião, não me ative aos seus motivos. Agora, compreendo melhor…

Vale deixar claro que eu não sou especialista lato sensu, nem stricto sensu, em Machado de Assis ou literatura, eu o li na infância/adolescência, e meus olhares sobre as coisas, palavras e pessoas mudaram muito desde então.

Trocoli coloca Capitu como a indecifrável e não toda dita. Bentinho deseja dizer-lhe muitas coisas, mas faltava-lhe a língua. Rememorando o que não disse, a falta de palavras se duplica, e o atormenta. “A impossibilidade de dizer é proporcional à aniquilação”, afirma a psicanalista.

E o que são os olhos de ressaca de Capitu? A tormenta, o que atormenta Bentinho, que é incapaz de dizer o que o estonteava e tonteava. Até a queda. “Se me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo” (Dom Casmurro).

Em Dom Casmurro dá-se o ato da traição quando o outro faz falta e abandona. E essa falta, que é só nossa, traz ares de ressaca. E o desencontro. Pois qualquer direção que ele pudesse tomar, jamais a encontraria.

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  1. Aline Machado (25–09–2008 11:37 am)

    Ao ler esse texto.. me veio na cabeça um trecho da canção Capitu de Luiz Tatit:

    “Capitu
    A ressaca dos mares
    A sereia do sul
    Captando os olhares
    Nosso totem tabu
    A mulher em milhares
    Capitu

    No site o seu poder provoca o ócio, o ócio
    Um passo para o vício, o vício
    É só navegar, é só te seguir, e então naufragar

    Capitu
    Feminino com arte
    A traição atraente
    Um capítulo à parte
    Quase vírus ardente
    Imperando no site
    Capitu…”

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  2. Adriano Hungaro (25–09–2008 12:12 pm)

    VAN! Como sempre… divinamente show! Adoro ler teus manuscritos. Sucesso sempre.

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  3. Eutimio (25–09–2008 12:39 pm)

    Não estou seguro de ter compredido a mensagem, me parece similar à dada pela minhoca a Alicia ” Se não sabes para onde queres ir, tanto faz para onde fores”
    Colocado de outra maneira, se não se paensa cuidadosamente que somos e que podemos e queremos. Como podemos planejar para onde ir?
    Vou ler Machado para comporeender melhor

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  4. Soila (25–09–2008 12:44 pm)

    Adorei… não sou especialista em psicanálise, nem tampouco paro para pensar na questão, apesar de sentir q vivo isso intensamente. Texto triste, ou seria eu tomada pela tristeza? Palavras doces…

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  5. Fabiana (25–09–2008 3:10 pm)

    Assim como Machado de Assis também és tu Vanessa, complexa, questionadora, a companhia mais bela que já tivemos. Parabéns pela homenagem a esse grande nome da literatura nacional no ano de centenário de sua morte!

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  6. Roger Jones (25–09–2008 4:20 pm)

    o que é mais difícil, distante, duro e cruel ? me diz, Vanessa, me diz… abandonar o outro e ficar à mercê de si ? ou abandonar a si e ficar à mercê do outro ? que solidão será mais dilacerante, ingreme e inerme: a solidão que quem não é amado ou a solidão de quem não ama ?

    hein, Vanessa ?

    hein ?

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  7. Tais Luso (25–09–2008 9:31 pm)

    Vane!!

    Amiga… sabes que gostei muito, não? Li este texto várias vezes depois que nos encontramos naquele nosso café. E falamos do tanto que trabalhaste quando chegaste das palestras. O texto ficou na medida. Gosto de te ler, da seriedade que passas aos teus textos com apenas 26 anos e com uma cabeça bem mais madura.

    Mas hoje, relendo mais uma vez me detive em algo que não comentamos: o título dos textos! O nome do filho! Este assunto vai ficar para o nosso próximo café. Mas como comentaste – no começo do teu texto – queria deixar registrado, pela sua importância, embora não seja essa a tua intenção, e sim o texto em si, entendi.

    Adoro Machado: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Adoro isso.

    Beleza, Vane…Segue! E vou ficar esperando ‘aquele’, no próximo mês.

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  8. Tais Luso (25–09–2008 9:33 pm)

    rsrsrsrs, não me despedi!!!
    Beijos, amiga!
    Tais

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  9. Elisa (3–10–2008 7:55 am)

    Digo que ele jamais a encontraria porque o que de verdade precisa encontrar não está fora, mas dentro de si. Mas a dor dessa imersão afugenta muitos.
    Beijos querida!
    bom te acompanhar por aqui

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