Poesia multifacetada

3–09–2008 – Enviar para e-mail

Poema visual de Arnaldo Antunespor Renato Medeiros – Não é incomum encontrar quem diga que a poesia visual não é poesia e nem mesmo arte. Mas apesar de ser tão discriminada, desde o século passado esse fazer poético apresenta-se como o que há de mais experimental na poesia contemporânea.

A poesia visual dispensa formas rígidas e elementos como a rima, a métrica ou a linearidade, para investir em diálogos com outras linguagens artísticas. Reflete o tempo todo sobre o signo e ultrapassa os limites do papel. É um processo de intersemiose. Se permite circular por novos espaços, novas mídias e novos códigos. Talvez seja por isso que ela é tão mal vista, afinal, é uma arte transgressora, que muitas vezes incomoda a ordem de pensamento daqueles acostumados com situações mais convencionais. A poesia visual burla o sistema e desconstrói o estabelecido.

 

 

 

 

 

  “O ovo” (séc. 3 a.C.), do grego Simias de Rodes, é o primeiro poema visual de que se tem notícia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  Poema de Sady Bianchin (Rio de Janeiro)

Apresentar essa possibilidade poética é a meta do livro Poesia visual em Alagoas (Edufal), de Marta Emília de Souza e Silva, publicado em 2007, durante a III Bienal Nacional do Livro de Alagoas. Segundo a autora, a poesia visual “encontra-se hoje lado a lado com as poéticas tradicionais, que se caracterizam pela presença fundamental do verso, do texto e do discurso.” Acrescenta que essas são tendências poéticas que hoje convivem e não se anulam, o que é característica da multifacetada e tão comentada pós-modernidade.

A autora fundamenta sua obra a partir dos estudos do poeta e pesquisador Philadelpho Menezes, que elaborou as seguintes categorias poético-visuais: poema espacializado, poema figurativo, poema embalagem, poema caligráfico, poema colagem, poema processo, poema logogrâmico, poema funcional e poema concreto. Aqui vale observar que toda poesia concreta é visual, mas nem todo poema visual é concreto. Definitivamente, a poesia concreta é a mais conhecida das categorias poético-visuais e não é raro perceber que a poesia visual muitas vezes é considerada uma espécie de sinonímia da poesia concreta.

Ainda com base em Philadelpho Menezes, a autora mapeou os artistas que produzem poesia visual em Alagoas seguindo a classificação: poema em que a visualidade está na forma gráfica da palavra; poema em que a visualidade está alheia à palavra; e poema em que a visualidade está em formas gráficas integradas à palavra. É na primeira classificação que se encontra o poema concreto, o que demonstra que a poesia visual vai bem mais além da poesia concreta.

Marta Emília observou de perto as produções poéticas de artistas como Edgard Braga, Milton Rosendo, Marcos de Farias Costa, Wado, Beto Brito e até incluiu as fotomontagens de Jorge de Lima como uma investida no campo da experimentação e das artes visuais. Dessa maneira, a autora dá sua contribuição para formar um retrato da poesia visual no Brasil.

O livro imprime a sensação de que vale a pena romper os limites bem definidos das várias linguagens artísticas para se deixar levar pela verdadeira amálgama que é a poesia visual.

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2 comentários:

  1. João Grando (3–09–2008 9:31 am)

    Multifacetada, claro, quando se refere às diferentens maneiras de fazer poesia. Mas o interessante (ou uma coisa interessante) da poesia visual é a unidade que ela propõe, a convergência de matérias: ela tem de ser daquele jeito para ter seu sentido pleno.

    [Responder]

  2. paulovilmar (4–09–2008 11:03 am)

    Renato!
    Ótimo post. A poesia visual, traz, a meu ver, um componente, além do visual, que a disngue ainda mais, ela é sempre bem humorada.
    Abraços

    [Responder]