Os inconformados
por Daniel Lopes – Dois livros recentemente lançados no Brasil – de um professor e ficcionista brasileiro e de um ficcionista e crítico argentino – servem à luta para arrancar a literatura de um pedestal que, na verdade, a desvaloriza. Estamos falando de Quem ama literatura não estuda literatura, de Joel Rufino dos Santos, e de Pequeno manual de procedimentos, de César Aira.
Enquanto Quem ama… (Rocco, 2008) é mais formal, Pequeno manual… (Arte e Letra, 2007) tem mais descontração, apesar do fato de Aira ser um refinado escritor. Joel Rufino é professor de literatura aposentado; lecionou por 20 anos no curo de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e é autor de dezenas de livros, dentre romances, ensaios, infantis e por aí vai. Aira, por sua vez, é mais ficcionista que crítico; assim como Rufino, é extremamente prolífico, embora o Pequeno manual… tenha sido um dos poucos livros seus que até agora mereceram tradução no Brasil. Por ironia, trata-se de um livro que não existe. Ou melhor, não há uma edição original, e a reunião e organização dos textos que o compõem foram feitas por Marco Chaga e Eduard Marquardt, da editora gaúcha. Marquardt também assina a tradução e o posfácio. Não deixa de ser louvável o esforço dos dois.
Se é desculpável que a dessacralização da literatura não seja o tema principal de César Aira, o mesmo não se pode dizer do livro de Joel Rufino. Porque em ambos o tema principal não é esse, mas Joel propõe em seu título que será, e eu duvido que alguém tenha comprado o livro pensando que não seria. Os artigos de Aira tratam muito de arte, mas há também crônicas sobre atualidade (e mesmo um conto sobre um carrinho de supermercado que é a encarnação do Mal…); embora em vários momentos o polêmico autor argentino puxe pelo colarinho aqueles que querem colocar a literatura acima de tudo e todos, não vá o leitor sair desta resenha para comprar seu livro pensando que se trata apenas, ou mesmo principalmente, disto.
O único capítulo de Quem ama literatura… em que realmente há um ataque direto ao modo como se ensina e estuda literatura no país é o terceiro, intitulado “Madalena, ou a falsidade da literatura”. Na verdade, os quatro capítulos do livro são quatro ensaios, reunidos pelo autor meio à esmo, já que, como ele próprio reconhece na introdução, não têm muito a ver um com o outro. No citado capítulo, Joel coloca na mira o estruturalismo. Professor calejado, ele vê na atitude estruturalista o mal dos males dos cursos de Letras do país, já que quer reduzir as obras literárias às minucias – maravilhas e dissabores – do texto pelo texto.
Entre os infinitos cursos superiores que já deixei pelo caminho está o de Letras Inglês, mas não deu tempo de melhor avaliar o ensino da literatura propriamente dita. Mas se alguém sério como Joel levanta a questão, estamos aqui para ouvir. Ademais, quem nunca lê com certa freqüência em jornais, revistas e mesmo em blogs alguns esbirros estruturalistas? Segundo Rufino, o estrago vem sendo feito desde o período colonial. Então,
Veio a redemocratização nos anos 80, a prática literária se emancipou, mas não o ensino acadêmico, ancorado nos postulados da fase histórica anterior. (…) Nos últimos trinta anos, com o surgimento de novas formas de poder conspícuo – o ensino superior privado, as escolas de comunicação, as manifestações cult, a publicidade etc. -, o papel normativo do ensino superior de letras se escondeu por trás de uma indiferença provecta, enquanto a média dos seus professores assumia um niilismo pretensioso.
Segundo essa gente, um texto literário “existe somente porque significa”, e é inútil o estudo interdisciplinar abordando os diversos fatores a envolver determinada obra. Curioso. Eu venho de ler um romance (ótimo, aliás) de Saul Bellow, Dangling man (1944). Eu daria tudo para ver um estruturalista escrever um ensaio de 7 páginas sobre o “significado” do romance sem apelar para a história do período em que foi escrito – da Segunda Guerra Mundial, dos efeitos finais da crise econômica que começou em 1929, sem cuja compreensão não se entenderá as angústias e desafios dos personagens. De fato, eu daria de muita boa vontade papel e caneta para o tal crítico, tudo em nome da diversão.
Para Joel,
a ‘tara textual’ canonizou, na academia, uma habilidosa estilista, Clarice Lispector, que pode ser curtida como tal, mas só será compreendida (e cabalmente desfrutada) se cotejada com o conteúdo de idéias que, na sua aparente desumanização, a humaniza. De talentosa escritora, o baixo estruturalismo a transformaria em vaca sagrada.
Assim sendo, é muito mais útil àqueles que estudam literatura – na academia ou por conta própria – se debruçar sobre as teorias de Freud, Darwin, Caio Prado Jr., Einstein (bem como dispensar um tempo para entender o contexto histórico em que cada uma delas foi gerada), do que passar um semestre estudando um teórico estruturalista que ensina como dissecar em 10 laudas uma oração de James Joyce.
Foi com esse espírito de multidisciplinaridade, sem dúvida, que Joel Rufino escreveu seus dois primeiros ensaios, sobre pensadores sociais os mais diversos – o segundo, “Quem ama mata”, é totalmente dedicado a Freud. A intenção foi boa, mas fica claro a quem está lendo que o autor não soube controlar sua pena. Passamos parágrafos inteiros lendo sobre Marx, por exemplo, sempre na expectativa de que no parágrafo seguinte leremos sobre a importância do marxismo para o estudo da literatura, mas isso quase nunca acontece, e assim o livro vai se perdendo em exegeses que não acrescentam nada a quem estuda ou estudou ciências sociais e ainda deixa vendo navios quem se interessa por modelos de estudo literário não-estruturalistas.
Provocações
Aira e Joel não medem esforços para destruir a visão sacralizada da literatura. Daí as provocações. O brasileiro, no início de seu livro, cita Borges, para quem a literatura não serve para nada. (Eu, que nunca entendi nenhuma das ficções de Borges, diria que a sua literatura, sem dúvida, não serve para nada; mas deixemos as frases de efeito para os autores resenhados e seus, hum…, ídolos.) Aira diz que seu tipo de literatura preferida é o flipbook, aquele com desenhos que ganham movimento à medida que você passa as páginas rapidamente.
Joel diz que a literatura é variada, não se resume apenas às belas-letras, no que está certo. Mas aí, indignado, pergunta “por que um professor de literatura não pode se ocupar de telenovelas?”. Bem, eu teria muita vontade de saber se, em seus anos de magistério, o professor Joel gastou um tempo significativo analisando telenovelas com seus alunos. De qualquer forma, ousaria dar-lhe uma resposta: um professor de literatura pode até fazer menção a telenovelas, mas não deve se ocupar disso, não deve colocar a novela das oito em seu plano de curso; pelo mesmo motivo que as ementas dos cursos de cinema e tevê não têm obrigatoriedade de ensinar as belas-letras. A verdadeira multidisciplinaridade não perde nunca seu foco principal – no caso da literatura, a literatura em suas diversas formas (cordel, letras de música, anedotas…).
César Aira, no texto “Nossas probabilidades”, escreve que “deveríamos nos felicitar por aparecer [um grande escritor] a cada cinqüenta ou cem anos”. Em outro momento, diz que aconselha sempre jovens a lerem bons livros de história, filosofia, ciências, mas que não recomenda com tanta empolgação que leiam literatura, já que podem acumular grande conhecimento lendo os primeiros e quase nenhum lendo literatura. Acontece que a função de um bom romance não é munir seu leitor de conhecimentos dito “práticos” sobre o período em que se passa, daqueles que lhe podem ser úteis em um exame de vestibular; da mesma forma que a função primeira de um livro de história, por melhor que seja, não é se debruçar sobre o abstrato ou simbólico, e sim ao concreto dos fatos. É como se Aira dissesse que a água mata mais sede que o barro – uma afirmação verdadeira surgida de uma comparação equivocada, já que cada um tem a sua utilidade.
Evoco novamente Dangling man, o romance de Bellow. Na estória, que se passa no início dos anos 40, você não tem uma tabela com os efeitos da crise econômica que explodiu duas décadas antes, tampouco o relato da guerra que come solta no outro lado do oceano; essas informações você certamente encontra em um livro de história. O que há em Dangling man é o retrato de um homem – o diário de um homem -, um jovem que abandonou o emprego e vaga pelas ruas enquanto espera ansiosamente pela convocação do exército, a fim de que possa embarcar rumo à Segunda Guerra. Uma ficção, sem dúvida, mas indispensável para dar uma dimensão mais humana às estatísticas – aliás, perguntem a Tony Judt ou ao Hobsbawm se eles ignoram os romances, contos e poesias produzidos no período sobre os quais estão pesquisando.
A boa notícia é que não precisamos levar a sério demais Joel Rufino e César Aira em seus piores momentos de enfant terrible. As infindáveis páginas que, com incontido deleite, dedicam a grandes nomes da literatura brasileira e mundial os traem terrivelmente. Pela briga comprada com o estruturalismo e o pedantismo acadêmico e pela profunda dedicação ao estudo da literatura, estão perdoados.
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![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)

Uma vez eu quase comprei -por incrível que pareça- esses dois livros. Mas resolvi esperar, e não é que me deparo com esse texto seu muito do bem feito?
beijos!
O estudo acadêmico de Literatura feito no Brasil revelou-se tendencioso há algumas décadas para o estruturalismo inócuo. Esse “desserviço” à cultura nacional foi um equívoco daqueles que assim professaram seus estudos, o que não quer dizer que estudar literatura seja essa coisa infértil e, por vezes, estúpida. Mas, enfim, o absimo que abriram é profundo.
Mas, atualmente, atacar o Estruturalismo logo será (ou já é?) como chutar cachorro morto, pois curiosamente, há um reação a ele que está ganhando espaço cada vez maior, e numa velocidade impressionante e igualmente equivocada: os “estudos culturais” como substituto dos “estudos literários”. Nesse ponto, é notória a perda da referência estética e propriamente literária produzindo ensaios que equiparam o mais tacanho regionalismo aos escritos de Guimarães Rosa, por exemplo, pois ambos seriam manifstações culturais que expressam o modus vivendi etc etc de um povo etc etc, e é aqui que a Literatura foi de novo pro abismo.
Parece que, assim como inúmeros poetas, o academicismo brasileiro é viciado em maniqueísmo e nos teóricos da moda. Como se há muito não se soubesse que é impossível estudar Literatura (mesmo, de verdade) sem observar que a estrutura é parte intrínseca à discursividade e de sua justa medida provém o prazer de um boa leitura, mesmo para quem não precisou debruçar-se sobre teoria nenhuma.
Aliás, antes de ESTUDAR Literatura, é preciso LER Literatura. Mas ao que parece, o texto que interessa à maioria dos estudiosos está em sua titulação, em sua carreira acadêmica. E tudo isso, como se Aristóteles nunca tivesse escrito sua Poética.
“Quem ama LITERATURA não estuda LITERATURA”
Precisava mesmo o Joel Rufino dos Santos parodiar o Içami Tiba (“Quem ama EDUCA”)? Parece-me muito apelativo.
A literatura nasceu junto com os primeiros pensamento do homem, fundamental, é essência da condição humana.
O ser emergido da inconsciência, já na infância dos tempos, fixou na linguagem oral e nas pinturas rupestres a volatilização de seus pensamentos e sentimentos.
A literatura fixa a alma, incrementa a imaginação, alimenta os sonhos; sustenta o escritor e o livreiro, move a indústria gráfica; gera riquezas materiais e espirituais.
A literatura modela a fonte de sua existência, o pensamento.
A literatura é inútil com o ser humano.
marcomartim@yahoo.com.br
Muito obrigado pela leitura.
Quem não é capaz de entender uma ficção de Borges não tem moral para teorizar sobre literatura.