Minhas histórias com Elvis Costello

por Luiz Biajoni – Eu já comprei disco por causa da capa. Só me arrependi de um. O disco não me agradou, mas diga se a capa de Psalm 69: The Way To Succeed And The Way To Suck Eggs, do Ministry, não é mesmo maravilhosa?
 
Em 1989 eu trabalhava em banco e cumpria serviço militar. Passava sempre por uma loja de discos para ver as novidades. Tinha uma capa extravagante de um cantor com o nome idem, era o Spike do Elvis Costello. Pensava: “Para o cara aparecer na capa pintado desse jeito ou é idiota ou é genial”. Um dia sobrou uma grana e comprei o disco sem saber o que tinha dentro. Era totalmente diferente do que eu ouvia na época; punk, pós-punk. Tinha uns metais, tinha Paul McCartney… Mas gostei no ato. 
 
Meus amigos iam em casa para escutar discos, eu colocava o Costello e o pessoal torcia o nariz. Nas guardas noturnas do Tiro de Guerra levava o encarte com as letras e ficava traduzindo, encontrando os significados, as citações… E fui saber um pouco mais sobre o cara – sem internet era difícil, creia! 
 
Pois não é que o Costello tinha sido punk? Estava mais para mod, é verdade, mas soube que ele tinha pelo menos um disco-referência no gênero: Armed Forces
 
Chegou o Natal daquele 89 e no amigo oculto da família pedi, para quem tivesse me tirado, um disco do Costello – que não fosse o Spike, claro. A “sorte” caiu com um tio, Fernando, que só foi encontrar um título numa lojinha obscura de Campinas. Era Mighty Like a Rose. De 87, Mighty… também tinha McCartney e um acento surf-music. Não era tão bom quanto Spike, mas a música de abertura, “The Other Side of Summer”, é maravilhosa! 
 
(Meu tio me esconjurou e rezava para não cair mais comigo nos futuros Natais. Até hoje a família lembra do nome Elvis Costello e do sacrifício do tio para encontrar o disco.)
 
O fato é que eu falava com as pessoas e ninguém parecia conhecer Costello. Eram tempos difíceis aqueles de comunicação restrita. Fiquei surpreso quando a revista Showbizz colocou Spike como um dos melhores discos do ano, naquele ranque que era feito em janeiro. 
 
Ainda assim, segui me imaginando o guardador de um segredo conhecido por poucos. 
 
Um dia, numa conversa com um cara que tinha casado com uma amiga, falei do Costello. Ele disse que não só conhecia como tinha os “dois melhores discos” do cara: Armed Forces (de 79) e King of America (de 86). Como assim?, pensei. E logo armei uma visita à casa do casal para conferir se era vero. Era. 
 
Ele colocou primeiro o King… pra eu ouvir. Quando começou “Brilliant Mistake” tive a certeza de que queria aquele disco… Depois foi a vez de Armed… e eu desembestei: canções diretas com menos de 3 minutos e energia adolescente? Vindas daquele cara que cantava com orquestra e o Macca? 
 
Fiz a minha cara de piedade – a mesma do Gato de Botas do Shrek 2 – e acabei levando ambos para casa, onde estão até hoje! Agora deixa eu falar dessa minha culpa e da minha consciência pesada por ter roubado esses dois discos desse cara:
 
Fui ficando com os discos e sempre inventando uma desculpa para mim mesmo para não devolver. Não sei o que acontecia, nunca dava para a gente se encontrar. Eu perdi o telefone dele. E depois fui trabalhar em outra cidade – o que nos afastou mais. Os CDs apareceram, um raio torrou meu tocador de vinil, os discos ficaram encostados. Virava e mexia e eu pensava nos discos lá e o cara imaginando que eu era um puta sacana, ladri di raridadi, o que eu era mesmo. 
 
Comecei a comprar CDs em sites. Comprei CDs na extinta CD Now, hoje incorporada à Amazon; na Barnes & Noble (que enviava o CD como se fosse um livro, escrito “Book” e tudo e, assim, não pagava imposto!) e até em sites de gravadoras. Aí caí no site da Rhino – com suas famosas caixinhas pearl-box, verdes, marca-registrada. E a Rhino tinha os CDs do Costello! Vou comprar o King… e o Armed… em CD e aí devolvo os vinis, pensei. E comprei. 
 
Mas é impressionante: não consigo me desfazer desses vinis! Ambos, nas versões da Rhino, têm váaarios bonus tracks e os discos parecem intermináveis! Como agora tenho um tocador, prefiro ouvir o vinil – toca dum lado, vira e acabou… 
 
Corta. 
 
Tinha acabado de comprar meu carro e tinha um som legal nele. Queria um disco para fazer a estréia do som. Numa loja do Shopping Galeria, em Campinas, dei de cara com All This Useless Beauty, de Costello. Estava perto do meu aniversário e minha mulher na época comprou pra mim… ia fazer uma dedicatória mas não tínhamos caneta e ficou para depois – e ela jamais foi feita. O fato é que esse disco virou a trilha sonora do meu carro por muito tempo… Ainda hoje, muitos anos depois, acho que ele cai bem melhor se ouvido na estrada do que em casa. É um disco bonito, melodioso, com piano… mas tem também músicas de energia rock, como “Complicated Shadows”, por exemplo… uma excelente canção! 
 
Foi por essa época que Costello apareceu um pouco mais na mídia por conta da gravação de “She”, de Charles Aznavour, para o filme Um Lugar Chamado Nothing Hill. Não vi o filme até hoje e a música é ruim de doer, vai dizer? 
 
Um pouco depois o Costello fez um disco lindo com o Burt Bacharach, que minha mulher levou na separação. Não devo comprar ou baixar outro desse.

Corta. 
 
Estou em Ilhabella, passando uns dias com a minha irmã, cunhado, sobrinho. Completamente sem dinheiro, minha irmã bancando a parada. Tinha 16 reais na carteira, para ser mais exato. Entro em uma loja de revistas, livros e CDs e fico lá, lambendo com a testa. Dou de cara com When I Was Cruel, do… Costello. O preço? R$16,00! – em promoção! O que faz um compulsivo como eu? 
 
Num primeiro momento fiquei animado com o disco. Passadas algumas audições, pesco apenas algumas faixas. No final, Costello é (ou está) eclético demais. Ele lança discos eruditos, como crooner, discos mais pesados, discos mais pop, românticos, eruditos… Acaba me parecendo uma certa “falta de personalidade”. O cara começou punk, partiu para um pop algo experimental, com letras trabalhadas… Alguém falou que a voz dele é supimpa e ele foi cantar músicas dos outros. Como deve saber ler partitura, foi trabalhar com orquestra. Hoje mistura tudo e parece Toddy com banana. Sabe? Já tomou Toddy com banana? É bom, mas só às vezes, em alguns dias, sob alguns estados de espírito. 
 
Se estivéssemos ainda na década de 80 e eu tivesse que fazer uma fita com canções de Costello, ficaria assim: 

Lado A: 
- Accidentes Will Happen 
- Moods for Moderns 
- Two Little Hitlers  
- Dont Let Me Be Misunderstood 
- Glitter Gulch 
- Brilliant Mistake 
- Eisenhower Blues 
- The Big Light 
- Jack Of All Parades 
 
Lado B: 
- The Other Side of Summer 
- Georgie and Her Rival 
- So Like Candy 
- This Town 
- Veronica 
- Satellite 
- Complicated Shadows 
- Shallow Grave 
- When I Was Cruel no. 2 
 
Sim, tem canções de discos pós-oitentas mas, ei, esse é só um texto viajadão sobre eu mesmo, não sobre o Grande Elvis Costello. 


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8 comentários | Dê sua opinião

  1. Tarcísio do Disco. 29/09/2008 em 11:42 am

    Oi

    Saiu uma deluxe edition ( duplo ) do my aim is true com raridades, vale a pena dar uma conferida. É isso.

    Até mais,

    Responder
  2. fm 30/09/2008 em 2:23 am

    Biajoni,
    já comprei muitos discos, na era do bolachão, por causa da capa.
    Uma que me marcou muito foi a disco do Gentle Giant, ‘Octopusy’, de Charles White, que comprei e nunca ouvi as músicas. Na época dei o disco para um amigo e fiquei com a capa.
    Não afirmaria hoje que é uma obra prima, os tempos mudaram e eu com ele.
    Por muito tempo achei que John Lennon tinha mais personalidade que o Macca.
    Muito tempo depois percebi que os Beatles, generalizando, tinha a cara do Macca.
    Certa vez lí que Mccartney ficava puto com Lennon por ele repetir o mesmo acorde enquanto a melodia variava. Isso me intrigou na época. Mas me ligou para um fato, Maca era mais musical que Lennon. Muito tempo depois descobri que Harrison também era, e Maca era mais que todos.
    Não diria que foi um choque, mas me fez reavaliar muitas coisas.
    O Rafael Galvão, à algum tempo atrás, fez um post em que defendia a ideia que quando uma banda qualquer faz sucesso e se parece com os Beatles é um mérito, e quando Paul lançava um disco que cheirava Beatles era um demérito.
    Acho que o que ele estava falando sobre personalidade. E me lembro que você recebeu essa observação do Rafafel com muito entusiasmo num comentario seu.
    Mas acho muito difícil julgar Elvis Costelo por falta de personalidade.
    Assim como acho difícil afirmar que John Lennon ou Harrison não era importantes para os Beatles.
    O curioso é que quando ouvi Costello pela primeira vez , e por isso gostei, achei que tinha algo de Beatles. Mas tarde descobri que o que ele tinha era um ‘que’ de Mccartney. Ou seja, se aplicarmos a teoria do Galvão, ele já era persona non grata no mundo da originalidade.
    Vi o filme ‘Um lugar chamado Nothing Hill’ e não gostei, mas achei uma grande sacada a interpretação de Costello da canção ‘She’.
    Ok, pontos de vista diferentes. É uma outra discussão.
    Mas também nunca entendi sua mania, e de muito outros, de empilharem filmes segundo qualquer importância.
    Minha paixão por música e filme não me permite tal crueldade.
    Sua seleção é muito boa, mas desde ‘Armed Forces’ Costello já era variado musicalmente, e de certa forma, é o Costelo que viria após este disco.
    Não me entusiasma esse seu culto a originalidade. Ao mesmo tempo acho que Costello é original como nunca.
    Assim como acho que Paul Mccartney, e Newman eram originais.
    ‘Gata em teto de zinco quente’ com Newmann Elizabeth Taylor foi um bartato, e você está de brincadeira quando o compara com Richard Burton.
    Bem , só posso interpratar isso como um elogio a Elizabeth Taylor.
    O que é comprenssível.
    Fora isso, eu não me conformo que você não publique esses dois textos em seu blog original.
    Mas acima de tudo, meu comentario é de alguém que ainda curte morangos mofados.
    Abraços

    Responder
  3. Flavia 30/09/2008 em 3:12 am

    Vi o show do Elvis Costello no Tim Festival no Rio há uns anos atrás e fiquei impressionada com o cara. Aliás ele foi ótimo, porque era um esquema show sentado, uma moçada quis ficar de pé perto do palco e os seguranças não deixavam. Nisso o EC se tocou e falou: come on guys, this is rock’and roll!!!
    Foi tuuudo. Um show inesquecível.
    Faltou Allison nessa seleção né? E eu sei que Shipbuilding ficou batida depois de High Fidelity, mas a letra é linda. O pedaço que fala “diving for dearlife, when we could have been diving for pearls” é de cortar o coração.
    Quanto ao comentário acima, não entendi nada, mas Gata em Teto de Zinco Quente é um senhor filme e os dois estão liiiinndossss!
    beijos

    Responder
  4. luiz 09/01/2009 em 12:35 pm

    Eu conheci ele por causa desta reportagem das Showbizz. Comprei o SPIKE (até hoje meu favorito dele, e um dos meus favoritos universais), depois o ALL THIS USELESS BEAUTY, que é lindíssimo…

    Não tenho tudo dele, só agora comprei um DVD, tem discos que não gosto tanto – é difícil ser fã dele no Brasil, realmente, ninguém conhece. Talvez pela grande importância das letras nas músicas dele….

    Mas a voz dele é sensacional, e foi bem legal conhecer alguém que leu aquela Showbizz…rs.

    Responder
  5. Robertto 19/01/2009 em 9:16 pm

    Cara, adorei seu texto e seu estilo. Me matou de rir, e olha que comecei a ler chorando, porquê ando muito triste.

    O cara ali falou do Paul, George e Jonh, e eu concordo que o Paul é o mais musical, de longe. Não concordo que os Beatles tinham sua cara, de jeito nenhum, haja vista o Rubber Soul e Revolver. Mas tenho convicção de que ele foi o responsável pela existência dos Beatles pelo tempo que durou. Sempre tive a impressão de que ele era o CDF da banda, o que acordava o povo p/ tocar, o que queria ficar um pouco mais no estúdio, o que falava de trabalho na hora do almoço.

    Quanto ao Costello, bem, caí aqui justamente tentando descobrir por onde começar! Tá, sinto vergonha por não conhecer a obra desse cara, todo mundo que saca de som fala dele, e eu nunca peguei p/ ouvir. Pelo menos, serei feliz de conhecer algo novo e bom…

    Sempre fico com inveja de quem eu indico um filme ou disco excelente e a pessoa nunca viu…

    Valeu!

    Responder
  6. ALOISIO LEÃO COSTA 06/02/2009 em 4:05 pm

    É isso… uma hora cai nas nossas mãos alguma preciosidade. Mas é preciso arriscar e ouvir com os ouvidos bem abertos, com espírito para novidades. O sensacional ” King of America”, em vinil, encontrei perdido numa lojinha de merda em Blumenau, em meio as maiores breguices da época… Entendi onde um músico pode chegar com suas composições. Hoje vou comprando todos…

    Responder
  7. Luiz 26/11/2009 em 4:38 pm

    mermão, oq é isso… falar de elvis costello e não mencionar os dois primeiros discos ‘my aim is true’ e ‘this years model’ é vacilo!

    Responder
  8. Erika Mattos 12/02/2010 em 1:00 pm

    descobri o elvis C. por acaso, quando assisti um filme e algumas musicas do filme eram do elvis C., achei incrivel, pesquisei sobre o cara e ate hoje sou super fã das musicas dele.

    Responder

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