Memória viva e provocativa
1–09–2008 – – Enviar para e-mail

A L&PM acaba de lançar em sua coleção pocket os dois primeiros de um total de três volumes contendo entrevistas com nomes capitais da literatura brasileira – gente como Mario Quintana, Nélida Pinõn, Jorge Amado, Dyonélio Machado e Osman Lins. Sob o título Viver e escrever, são páginas indispensáveis em um país com tão pouco apreço pela memória – tanto mais, pela memória cultural.
Apesar de, no geral, excelentes, os livros têm alguns pontos negativos: a rala informação sobre os entrevistados (vários dispensam apresentação, mas e aqueles menos conhecidos, como Edilberto Coutinho? Não mereceriam uma biografia maior que duas linhas no rodapé, para benefício principalmente dos leitores mais jovens?); a falta de explicação sobre o contexto em que as entrevistas foram feitas (nem mesmo o ano é dito); e a ausência de uma introdução maior por parte da entrevistadora, Edla van Steen, que, pelos seus conhecimentos e empenho, deixou muito a desejar com a sua meia página de boas vindas.
Além da indiscutível qualidade dos depoimentos, é de se comemorar também o preço acessível dos livros, já característico das edições da L&PM Pocket.
Trecho da entrevista com Ignácio de Loyola Brandão:
Quando vislumbrei que se fosse um escritor – porque a única coisa que eu gostava de fazer, fazia razoavelmente bem e com empenho, era escrever – poderia vir a me integrar, parti para a conquista, quase desesperada, desse ofício e de um lugar dentro desse ofício. Por outro lado, inconscientemente eu fazia uma espécie de terapia, liberando minhas contradições, rejeições, complexos, conflitos nos personagens que criava. Metade criava, metade tirava de dentro de mim. O curioso é que, à medida que me “liberava”, descobria uma função muito mais importante dentro da literatura. Ela não pode servir a fins tão “pequenos”, como o eu, o ego ferido. Os anos passados na Última Hora, jornal de centro-esquerda, me deixaram em contato com a chaga da vida paulistana; e brasileira, portanto. Vi de perto grandes problemas. Convivi com trabalhadores, cobri greves, choques com a polícia, levantei problemas de bairros, percorri os hospitais, as delegacias, os recolhimentos de menores, as repartições públicas, etc. Fuçava, conversava, entrevistava, lia. Então, percebia que tudo que estava escrevendo devia ter um fim maior. Era preciso retratar uma realidade. Denunciar um sistema que oprimia o homem. Defender este homem das injustiças, pedir para ele um mundo melhor. Algo romântico, idealista, mas um objetivo definido que iria se consolidar e ter as arestas aparadas com o tempo.
- por Daniel Lopes
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1 comentário:



Cara, vou parar de ler este blog.
Cada vez q venho aqui descubro 1 ou 2 livros novos q me dá vontade de ler. Se eu visitar o blog uma vez por dia, tô falido…
1 abraço.
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