Ainda o 11 de Setembro
por Luiz Biajoni – Livros e livros foram escritos. Filmes foram feitos. De reboque, Michael Moore, Chomsky, Bob Woodward, entre vários outros. Sean Penn dirigiu um belo curta na reunião 11’09’01. Mas nada se compara ao feito de Art Spiegelman, À sombra das torres ausentes (Cia. das Letras, 2004).
Spiegelman teve sua série de arte seqüencial Maus premiada no mundo inteiro. Ele levou 13 anos para concluir a obra. Judeu, contou a história dos pais, sobreviventes de Auschwitz. Não pode ser chamada de História em Quadrinhos pura e simplesmente. É só comparável ao trabalho do Joe Sacco – mas é mais “artístico”, para usar um termo considerado pejorativo hoje, em época de Bienal.
A história de À sombra… é a seguinte: Art morava a poucas quadras do WTC. Naquela manhã, sua filha Nadja estava no colégio, nas proximidades. Ele andava com a mulher pelo bairro quando o primeiro avião bateu contra uma das torres. A fumaça tomou conta das ruas – bem como o pânico. Ele sentiu o cheiro. Os pais haviam contado sobre esse cheiro, cheiro de carne humana queimando. Pensou na filha e correu para o colégio. O segundo avião colidiu; ele e a mulher gritando por Nadja no colégio. O episódio deixou marcas profundas.
Sensível, demorou meses para digerir o acontecido. Pensou em desenhar algo, mas logo desistiu. Não havia lugar nos quadrinhos para tamanha barbárie. Um tempo depois um jornal alemão ofereceu uma página inteira semanal para ele, com total liberdade. Decidiu iniciar uma série de pranchas com o título “À sombra das torres ausentes”. Totalmente fragmentados, os quadrinhos contam a epopéia de um dia e o que se passava em sua cabeça. Fazendo referências a vários quadrinhos, Art trabalha com metáforas visuais extremamente complexas. É trabalho de gênio; um gênio com os sentimentos à flor da pele.
A primorosa edição mantém o tamanho das pranchas verticais, mas tem o preço salgado, quase cem reais! Uma pena! Devia ser mais acessível.
Não dá para explicar a sensação de desnorteamento que dá ler tais pranchas. As lágrimas brotaram de meus olhos mais de uma vez. Acabada a leitura fica uma sensação de arrepio pelo corpo. Arrepio pelo acontecimento brutal daquele dia, por tudo que significou para a humanidade, pela loucura e falibilidade do ser humano, pelo absurdo geral. Mas fica o arrepio maior pelo próprio Art Spiegelman que, certamente, ficou traumatizado pelo episódio. Adquirimos um pouco do seu trauma e talvez ele tenha se sentido um pouco mais aliviado ao passá-lo para o papel, nesse magnífico trabalho.
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![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)

O ponto de vista dele deve ser interessante mesmo.
E dividir as sensações (traumáticas, eufóricas) é também um papel da arte, independentemente da mídia. Como também é papel do artista doar seu ponto de vista.
Sua resenha vem endossar o fato de que deve valer a pena conferir, pois este cara tem um grande currículo e o fato nem se fala…
sensacional livro,pena que paguei 104 reais,o,brazil 3 mundo,tristeza