A natureza humana aflorada em meio ao caos
por Renato Medeiros – Já está em cartaz nos cinemas brasileiros Ensaio Sobre a Cegueira, um dos filmes mais aguardados do ano. Expectativa que já era de se esperar, afinal, trata-se da adaptação do livro homônimo de José Saramago, um dos mais importantes escritores da atualidade e até agora o único da língua portuguesa a ganhar o prêmio Nobel de literatura.
Entretanto, o filme também traz outros nomes que chamam a atenção. O primeiro é o do diretor Fernando Meirelles, brasileiro que ganhou notoriedade internacional após dirigir o filme Cidade de Deus, em 2002; o segundo é o da atriz Julianne Moore, que se destacou em filmes como Fim de Caso (1999), Magnólia (1999) e As Horas (2002) e que agora vive a protagonista do longa de Meirelles; e por último, Gael García Bernal, ator mexicano que já trabalhou com Pedro Almodóvar (Má Educação, 2004), Alejandro González Iñarrítu (Babel, 2006) e com os brasileiros Walter Salles (Diários de Motocicleta, 2005) e Hector Babenco (O Passado, 2007).
Sendo assim, os fãs de pelo menos um desses nomes provavelmente têm motivos para assistir a esse filme, que abriu o Festival de Cannes deste ano. Devo confessar que gosto dos quatro, principalmente de Saramago, mas ainda não fui conferir a adaptação deste que é um dos textos mais bonitos que já li.
A estréia nos cinemas fez ressurgir o interesse de livreiros pelo romance, tanto é que ele voltou a ser destaque nas prateleiras de livrarias e lojas de departamentos, inclusive com uma capa que remete ao filme. Mas também fez ressurgir o interesse de antigos leitores da obra e sem dúvida vale a pena revisitá-la.
Publicado em 1995, o livro de Saramago tece uma suposição de como seria o mundo se todos os humanos ficassem cegos. Sem nenhuma razão aparente, um homem fica cego enquanto espera o sinal verde do semáforo. Logo, uma epidemia se alastra, sem que nenhuma explicação científica seja plausível. Entretanto, em vez de total escuridão, as vítimas se deparam com uma espécie de cegueira branca, cheia de luz. O autor parece exprimir que antes do mal-branco os indivíduos já estavam cegos — ou iludidos, de certa forma alienados — e que só agora passaram a enxergar lucidamente quem são, pois com a nova realidade a mais autêntica natureza humana é aflorada em meio ao caos.
A epidemia traz uma perspectiva nada positiva sobre a condição humana; é quando ela chega mais perto do animalesco e vem à tona sem disfarces – afinal, para que camuflar o que ninguém pode ver? É descrita uma luta impetuosa e dilaceradora pela sobrevivência, acendendo nas personagens as mais espontâneas e egoístas reações. Com a cegueira instaurada, a humanidade precisa estabelecer novas instituições de convívio e reaprender a enxergar e a viver.
Um detalhe notável é a ausência de identificação de localidades, datas ou nomes. Durante todo o romance não se sabe nem quando nem onde se passa a história, o que contribui para o seu aspecto atemporal. O anonimato das personagens garante certa impessoalidade e evidencia que as diversas situações seriam similares para todos os cegos. Mesmo sem nomes, algumas delas se destacam quando são identificadas por características pessoais, como “a rapariga dos óculos escuros” ou “o velho da venda preta”. Porém, a que mais se sobressai é “a mulher do médico” (no filme, vivida por Julianne Moore), que segue centrando as atenções em si, pois em um mundo de cegos ela é a única que ainda pode enxergar. Ela vê, literalmente, a degradação a que os seres humanos chegaram em tão pouco tempo e sofre em demasia por se sentir responsável por aqueles que a cercam.
A peculiaridade na escrita de José Saramago impressiona pelas imagens que ele é capaz de formar na mente do leitor. São construídas cenas que elevam a tensão da narrativa por conta de seu conteúdo firme. O autor desenvolveu uma linguagem que lhe é própria e que parece se estender por toda a sua obra. Com certa dose de ironia, um discurso corrente e a condensação de cenas inteiras em longos parágrafos, o texto ganha velocidade. Vírgulas em abundância também são utilizadas em vez de pontos finais e travessões, configurando outra marca relevante de Saramago. Lê-lo parece ser difícil no começo, mas ao acostumar-se com a sua escrita, a leitura torna-se fluente.
Infelizmente, o livro se estende mais do que deveria, chegando a perder o fôlego ou a empolgação no final. Em alguns momentos são apresentados verdadeiros quadros literários que dariam um desfecho sublime, porém, o autor parece ter finalizado a sua obra apenas para não deixá-la incompleta, pois é como se houvesse perdido o ânimo por escrevê-la. O leitor imagina várias hipóteses para o fim da história e acaba chegando à conclusão de que todas elas são improváveis. Porém, certa decepção surge quando se percebe que a mais óbvia das conclusões foi escolhida.
Mesmo com um final a desejar, José Saramago compõe uma belíssima obra de arte em Ensaio Sobre a Cegueira. O escritor instiga o surgimento dos mais sinceros instintos e explora com competência as mais primitivas relações humanas. Agora só falta ir à sala mais próxima e conferir como Fernando Meirelles traduziu tudo isso para o cinema.
Leia também:
| 7 comentários | Dê sua opinião ↓ |


Muito boa a descrição!! Aguardando uma oportunidade para ir conferir o mesmo no cinema.
Sucesso!
-Responder
dispensa comentários o ensaio.. e nem achei que o final deixa a desejar.
agora, é esperar pra assistir a adaptação..
tou super curiosa pra ver a questão dos personagens, que n têm nome.. quero ver como eles se referem uns aos outros.
enfimmm.. curiosidade e espera mils pelo filme
;**
-Responder
Fui ver o trabalho de Fernando Meirelles e gostei. Mas não do filme. É estranho como eu digo isto, pois não li o livro e não me sinto instigado a lê-lo. Saramago parece a mim um tipo de artista que tem algo a dizer e usa a ficção como mensageira. Mas acaba sendo uma colagem meio forçada de situações, imaginadas e compostas para darem o recado que já está pré-definido no autor. É uma beleza a ser depreendida do texto, mas nunca está ali por inteira. Há ótimas mensagens ali embutidas, concatenadas com inteligência no jogo de contrastes luz/escuro, verdade/mentira, e por aí vai. Mas falta o brilho de uma criação limpa, nua, que nada tem a dizer, apenas é ela própria, a ser contemplada. Ou não. Meu caso.
-Responder
Ótimo texto. Ainda não vi o filme, mas pude ler a obra de Saramago. Alguns pontos da sua análise eu também pude constatar, como sua explicação sobre a cegueira branca e a decepção ao ler o final. Creio que este seja um ponto fraco de Saramago, a perda de ritmo e intensidade em suas obras (pude notar isso em AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE tabém).
Tive a oportunidade de ler uma matéria da REVISTA BRAVO sobre o filme e fiquei triste qnd soube q algumas cenas foram retiradas, como um estupro… eu, particularmente, creio que são essas barbaridades que são narradas que conferem a qualidade do livro, espero que no cinema este recurso seja bem trabalhado.
-Responder
Bom…não é o primeiro texto que leio dele e gostei tanto quanto os outros.
Esse me deixou com vontade de assistir e espero q seja tão bom quanto descrito.
-Responder
Blah. eu tristemente tenho esse livro na pilha dos q eu quero ler e nao tenho tempo. é uma pilha irritantemente extensae magoante, mas existe e nao tem como negar.
ainda ano vi o filme. em campinas eu nunca tenho tempo pra chegar no cinema a tempo de uma sessão. em piracicaba – cidade natal desnecessária e parada no tempo – apesar de gigantescos cartazes, o filme nao está passando. no entando com o gael e a julianne nao tem como nao estar louco pra ver. o provável é q eu continue enrolando e veja em dvd.
e continue enrolando e sabe deus quando lerei…
mas eu gostei da sua sugestão. e da sua abordagem. interessa, mas nao é irritantemente sugestiva.
i like it
-Responder
[...] [leia sobre o livro Ensaio sobre a cegueira] [veja o trailer do filme] addthis_url = [...]