Uma boa luz

por Lelê Teles

Um amigo, secretário de estado, ligou-me convidando-me e estendendo o convite à minha esposa para irmos, os dois casais, a uma estância pouco afastada da capital para um jantar onde serviriam comidas peruanas.

Convite aceito. Minha esposa é peruana e eu sou apaixonado pelas iguarias daquelas paragens. A estância se chama Boa Luz, freqüentado por gente de boa cepa, e se configura, como publiciza em anúncios, como uma mescla de hotel fazenda e zoológico. A comida estava correta, mas alguns pratos ficaram a desejar, porque o chefe teve dificuldade em encontrar alguns ingredientes que acabaram fazendo toda a diferença no resultado final. Sabemos todos que a alquimia necessita da dose certa de insubstituíveis elementos.

O clima estava agradabilíssimo, havia uma lua cheia no céu, cuja luz banhava a nossa mesa e ressaltava a luz da tintura dos cabelos de nossas consortes. Na verdade com sorte éramos nós, eu e o amigo.

As garrafas de um pinot noir chileno delicioso começaram a brotar na mesa. O riso ficou leve e a conversa descontraída. Um jovem fidalgo veio sentar-se à mesa conosco. Tilintamos as taças e sorvemos o divino líquido que era a razão do culto ao deus Dionísio (Baco) e regava bacanais, o mesmo líquido que obrigara Jesus, o Cristo, a fazer o seu primeiro milagre, livrando os anfitriões de umas bodas de indesculpável constrangimento.

Lá pelas tantas, já tontos, depois de ter elogiado muito o trabalho modernizador do prefeito de Aracaju, o jovem fidalgo passou a falar de trânsito e aí passou a falar do Brasil inteiro. A mobilidade urbana era o tema. O rapaz, então, começou a falar do número excessivo de carros, que isso era sinal de atraso, que o Brasil estava na contramão do mundo, que os holandeses andavam de bicicleta (como ele havia visto a olho nu), e que deveríamos fazer como Nova Iorque, que cobra caro para quem quer entrar nas ruas usando um automóvel particular.

Disse tudo isso e, em um só gole, fez sumir o líquido da metade de uma taça. Pedi um aparte e fui logo pro j’accuse. Disse que ele tinha uma visão aristocrática do mundo, o que era natural por ser ele um fidalgo. Eu disse que alguns brasileiros passaram a ver os holandeses andarem de bicicleta ontem, porque garçons, domésticas, porteiros, padeiros e vendedores de amendoim passaram a ter automóveis.

Enquanto os descendentes dos senhores de engenho (afinal estamos em um estado que foi escravocrata e ainda mantém algumas nuances escravagistas) faziam sair monóxido de carbono dos automóveis, estava tudo muito lindo. Agora engarrafou. Melhor seria termos um transporte público de qualidade, para que garçons e padeiros voltassem aos trens. Mesmo porque não haverá transporte público para levar o nosso garboso mancebo até um hotel fazenda.

Perguntei se o jovem tinha ido até a Holanda de bicicleta, ele achou graça e disse que foi de avião. Eu disse a ele que o avião polui mais que o automóvel e que, por isso mesmo, não fazia o menor sentido o elogio que ele fazia ao povo dos países baixos. Que era igualmente elitista a solução que ele disse ter visto em outras terras estrangeiras. Se uma cidade permite quem tem dinheiro usar um automóvel e obriga quem não tem a andar de ônibus, essa cidade é um mal exemplo. Embora seja um grande exemplo para os endinheirados que tentam alçar voo por nossas vias e são impedidos porque há muitos carros 1.0 a atravancar-lhes o caminho.

Disse ao atônito rapaz que a solução das bicicletas era igualmente hipócrita. Que os chineses andavam de bicicleta quando eram pobres e o ocidente via nisso a pobreza do comunismo que obrigava a sua gente ao atraso. Agora que os chineses se endinheiraram e andam em veículos possantes o mundo quer vê-los novamente em bicicletas porque dizem que carro é sinal de atraso.

Disse ao imberbe interlocutor que sou de Brasília e que lá o clima é mais seco do que no deserto do Saara, não é tão agradável como o clima de Amsterdã, e que seria um enorme desconforto ir ao trabalho à tarde com um sol muito quente e o clima muito seco. E disse que ele, com uma pele tão alva, seria desaconselhado pelo dermatologista da família a empregar essa atlética fórmula de altruísmo civil.

E que por fim todo esse colapso carece de solução, mas é o mesmo tempo louvável. É sinal de um país de economia pujante, e cresce e oferece oportunidades para todos. Um país em que patrões e empregados param lado a lado no sinal vermelho. Em que o vendedor de amendoim, muito civilizadamente, para na faixa de pedestre para a madame passar com o seu cachorrinho.

Todos têm direito a um automóvel e o estado tem a obrigação de criar alternativas para que todos exerçam o seu direito.

Brindamos, sorrimos bastante e mudamos de assunto.

  • P Cruz

    Meu Deus… quanta baboseira!!! Não vou perder tempo com isso.

  • Ewerton Monteiro

    Tão hipócrita quanto ao jovem imberbe, é ter uma visão fechada assim, e dizer que TODOS têm direito a um automóvel e o estado tem que se virar para arrumar formas de despoluir o ar e arrumas vias e mais vias para os veículos poderem circular, sem engarrafar ou parar de vez o transito, o que não é nada incomum nas grandes metrópoles… Ninguém que opta pelo “andar de bike” almeja que todos assim sempre e ininterruptamente o faça, o que se propaga é tão somente a verdade, que além de um meio de transporte, é uma forma de cuidar da saúde, e a alternativa para outros meio de transporte público de massa além de valida, é essa sim a obrigação do estado. Isso não inviabiliza que a “classe media” compre seus carros, ou que garçons e etc. assim também façam, as coisas podem viver juntas… E o PLANETA que todos, digo, todos vivemos agradece!

  • Manoel Galdino

    Quer dizer que o estado tem de se virar para que quem tem dinheiro ande de carro, ao invés de investir em transporte público? E vamos poluindo e aumentando o aquecimento global, afinal é um direito (sic) poluir o planeta, né? E o argumento sobre ir de bike pra Holanda? Sério?

  • Jacqueline

    Discordo dos comentários anteriores. Se entendi bem, o Lelê está apenas defendendo que os menos favorecidos economicamente também devem ter acesso ao automóvel (ou outros bens). O estado deve sim oferecer meios de transporte público para que quem se sentir insatisfeito com o caos no trânsito tenha opções de transporte. A questão aqui é que tornar mais caro o acesso do carro nas cidades acaba favorecendo quem tem dinheiro pois estes continuarão a usar seus carros e aí sem o incômodo dos que não podem pagar. Com boas opções de transporte o estado favorece que a sociedade se auto-ajuste sem intervir a favor dos ricos. Concordo com o Lelê.

  • Caetano

    A Jacqueline tentou amenizar, mas concordo com questionar o argumento do Lelê. Misturou as bolas, uma coisa é acesso ao antes inacessível, outra é a questão do problema do trânsito nas grandes cidades. E mais que isto, a questão ambiental.
    Bicicletas, transporte público de qualidade, metrô, todas as formas alternativas ao veículo particular são extremamente importantes e não dá para discutir um assunto tão grave com argumentação tão fraca, parcial e equivocada.
    Lamento Lelê, mas essa não convenceu.

  • Daniella Oliveira

    Quem vai pra dentro do ônibus lotado ou vai subir na bicicleta debaixo de um sol castigante não são os donos de brinquedinhos que valem muito mais que o seguro de vida de muita gente… Ainda existem as opções de combustíveis que poluem menos e de automóveis mais eficientes. Calma aí, galera. Sempre haverá demanda de transporte público sim e todos devem lutar por sua melhoria. É só que agora as pessoas podem ESCOLHER o transporte que lhes é mais conveniente. E o Estado tem a obrigação de suprir as carências todos.

    • Caetano

      Concordo, não há dúvidas, é ótimo que todos tenham acesso a tudo. Sou radicalmente contra segregação. Mas o fato é que neste mundo não dá pra ter um carro pra cada habitante, é matematicamente impossível. O que fazer então, fazer ficar caro para que somente uma minoria de privilegiados tenham acesso? Lógico que não dá pra concordar com isto! Então concordo que o proposto “fazer como Nova Iorque” não passa nem perto do ideal, não apoiei isto. Mas apoio sim, e acho mais importante, ao invés de perdermos tempo “apliando marginal” (como em SP) e ações do tipo para suportar o aumento do número de carros, que o foco seja para transporte coletivo de qualidade e suficiente (metrô, por exemplo, É a solução para São Paulo, alguém discorda?). Bicicleta onde e quando dá, mas é preciso viabilizar (vias e investimento nisto).
      Então talvez eu tenha me precipitado ao mal entender o que o Lelê quis dizer, mas achar legal o colapso do transporte urbano porque representa o maior acesso, achei uma análise sem a profundidade que o assunto deve gerar.

      • Daniella

        Penso que o conceito do metrô é o adequado. Isso funciona em outras cidades do chamado 1º mundo, não é? Por que não fazê-lo acessível, eficiente e real (como aqui na Bahia) a todos?

  • Bosco

    Concordo com a Daniela.

  • Luiz

    heheh, eu gostaria de um sistema de transporte público mais eficiente para que EU não precise comprar um carro. eu gostaria de ter o direito de NÃO TER um carro, hahah. e gostaria de poder andar de bicicleta pela cidade tranquilamente, em boas ciclovias, correndo menos riscos, etc. existe esse outro lado também, não é?

    • Caetano

      É disto que estou falando!

    • Daniella

      ahaa! Sim siim! Perfeita colocação!

  • Jacqueline

    Exatamente Luiz, eu também não quero ter carro. Ando a pé, por opção. Quando isto não é possível, opto por ônibus ou táxi ou carona. Só que às vezes o ônibus é insuportável pelo excesso de gente que leva. Mas acho que este é um problema difícil de resolver. A gente vê superlotação mesmo em cidades do primeiro mundo; o metrô de Londres, por exemplo.

  • Alaer Garcia

    Concordo com tudo que foi falado. A questao é politica , nao a do Tiririccaa.
    Estamos voltando a Caverna de Platao, quando fala os ecologistas de emissao de carbono e aquecimento global.
    Vao ao deserto do Atacama, onde deveria ir as Marinas silvas da vida e os gabeiras.
    La , mar gelado do Pacifico ( por que ?) e deserto sem chover e ha vidas e gaivotas etc.

    • Caetano

      A questão ambiental é balela e o que importa é política? Em que planeta você vive? Que insolência a sua!
      Não se trata de questão ambientalista, como você prontamente rotula.
      Não te importa perder 1 hora para andar 15 km para ir trabalhar, não importa a poluição insuportável que respiramos todos os dias de uma metrópole entupida de carros, não importa as alergias e problemas de saúde causados nestas cidades; mais vale o fato de que agora todos podem ter um carro? É isto realmente que importa, é pra isto que vale lutar contra desigualdade?
      Sinceramente… é você que se encontra na Caverna de Platão.

  • Alaer Garcia

    Caro Caetano
    A politica é muito maior. Caverna de Platao é a Ponte da agua Espraiada que a Globo exibe como simbolo do progresso.Sendo que ela nao átravessa o Rio Pinheiros´. Quem esta na margem esquerda do rio tem que pegar a Ponte Morumbi. E quem esta vindo da Agua Espraida cai nas marginais do rio ,entupindo, pra que ?
    Utopias a parte , o real poucos veem. Eu me encontra na Minha Caverna mas sempre fiz o possivel para sair. O dificil é quem esta e nao sabe e nem sabe o caminho. Por que as pessoas se aglomeram em cidades grandes? Entre Sao Paulo e a divisa com a Bolivia ha 1.400km de vegetacao e natureza…

    • Caetano

      Hehehehe… Pô Alaer, você está numa viagem danada aí, que não vou entrar nesta.
      Na caverna estamos todos, inclusive eu e você.
      Abs!

  • Alessandro

    Boa fábula, parabéns!
    . . .
    em tempo
    as consortes expressaram que opnião a respeito.

----- Consulte os arquivos do Amálgama ||| Publique ||| Contato ||| Para reproduzir nossos textos -----