Rebaixamento dos títulos americanos: O resultado de se afagar os super-ricos

por Juan Cole

A decisão da Standard & Poor’s de rebaixar a qualificação da dívida dos Estados Unidos da América de AAA para AA+ foi claramente baseada em incerteza em duas grandes áreas. A primeira e menos importante foi a rixa sobre o teto da dívida, que levou os EUA à beira de não poder honrar suas obrigações do serviço da dívida enquanto existisse o impasse. A segunda foi a crescente recusa da classe dos homens de negócio em pagar sua quantia adequada de impostos.

Se um casal tomasse emprestado uma grande soma em um banco e tivesse cobrança de serviços da dívida na ordem de, digamos, 10 mil dólares por mês, e se estivesse repetidamente atrasado e envolvido em uma série de disputas sob as vistas dos funcionários do banco sobre se poderiam deixar de pagar apenas no mês corrente, então da próxima vez que fosse àquele banco para um empréstimo, este lhe seria negado, ou então lhe seria demandado juros mais altos, já que vinha se comportando, sob a ótica dos escritórios de empréstimo, como uma má aposta. Tomar um empréstimo é, em parte, uma questão de reputação, e de expectativas do emprestador de ser pago de volta com juros e sem atraso. Quando você atrasa um pagamento, você está essencialmente custando dinheiro ao emprestador. Se o emprestador tem um bocado de gente pedindo empréstimos, por que ele deveria fazer um para o casal vacilante?

Então, a primeira razão para o rebaixamento foi o comportamento irresponsável do Tea Party, que criou uma crise artificial para benefício de seus patrões-barões, de modo a jogar mais receitas governamentais para os super-ricos e menos para as pessoas comuns.

A segunda razão para o rebaixamento foi a insistência de Dick Cheney em profundos cortes de impostos para os ultra-ricos, e a recusa do Partido Republicano em revisá-los. Obama quis elevar os impostos dos multi-milionários e bilionários, mas não teve os votos no Senado para fazê-lo, e os republicanos ameaçaram tomar de refém o bem-estar das pessoas comuns (assim como acabaram de fazer, com táticas mafiosas, durante a questão do teto da dívida). À época eu achei que Obama deveria simplesmente ter fincado pé e denunciado a trapaça republicana, já que parecia claro que, de qualquer forma, eles usariam daquelas mesmas táticas em algum ponto do futuro.

Standard & Poor’s está dizendo que se você projetar o déficit estrutural americano – causado principalmente pelos cortes de impostos de Bush, declínio da atividade econômica e guerras financiadas com a dívida – para os próximos dez ou quinze anos, ele ficará cada vez pior, porque os ricos recusam-se a pagar seus impostos nos EUA. Há um déficit estrutural de longo prazo que os congressistas republicanos se recusam a permitir que o país corrija. Em resumo, a Standard & Poor’s está se referindo a este gráfico:

Não seria preciso grandes aumentos de impostos para os ricos para resolver o problema. Bill Clinton resolveu situação parecida no começo dos anos 1990. Os que dizem que essa atitude não resolveria o problema são escudos dos super-ricos, e são refutados pelos orçamentos bem balanceados do período Clinton.

Os que dizem que os ricos “criam empregos”, e que portanto taxá-los feriria a economia, têm que explicar por que grandes corporações estão atingindo lucros recorde enquanto o resto da população vive cada vez mais à base de vale-alimentação.

O que entendo de economia é que é ruim ter um alto coeficiente gini, isto é, é ruim ter uma grande disparidade entre um punhado de ricos no topo e as grandes massas de pobres na base. É muito melhor se existe uma ampla classe média e os ricos não são tão ricos.

Por que é assim? Bem, você gostaria que qualquer um que assim o quisesse fosse capaz de comprar um carro direto de Detroit. Quando as pessoas compram um Chevy Volt, isso cria empregos na GM, e cria demandas para peças assessórias, o que cria mais empregos para vendedores de carros e gente que fabrica baterias, etc. etc. Os verdadeiros criadores de empregos somos nós, pessoas comuns, os consumidores; nós criamos empregos quando compramos bens e serviços.

Então, se existem cerca de 75 milhões de famílias nos Estados Unidos, você gostaria que todas fossem capazes de comprar um Chevy Volt se essa fosse sua vontade. Mas se você as reduz a viver com vale-alimentação (o que atualmente é a realidade de 40 milhões de pessoas), elas não conseguirão comprar um carro novo, nem que seja a crédito. Hoje, a política de impostos está ajustada para jogar trilhões nas mãos de 3 milhões de pessoas, ou 750 mil famílias. Mas quantos novos carros essas famílias comprarão? Ainda que cada uma tivesse uma frota de dez, isso seria como se 7,5 milhões de famílias comprasse, cada uma, um novo carro. O que nem se compara a uma realidade em que cada uma das 75 milhões de famílias adquira um carro.

Os períodos em que os super-ricos tinham menos da metade da riqueza nacional tenderam a ser períodos prósperos e de prestígio americano no mundo. Nas últimas poucas décadas, tem havido um grande aumento da desigualdade:

A política de impostos ajuda a decidir a distribuição da riqueza numa sociedade. Utilizando dessa política para jogar todo seu dinheiro no top 1 por cento e reduzir todo mundo mais à pobreza relativa é um grande golpe na indústria e nos serviços, e gera desemprego. É isso mesmo. Se você é americano e não tem um emprego, é em parte porque Cheney cortou impostos dos super-ricos e tornou impossível ao Governo Federal remediar, através de seus diversos programas, o estreitamento econômico da classe média. O problema apenas piorou com o orçamento acordado este ano.

Eis o coeficiente gini dos EUA (a medida da desigualdade econômica) dos últimos 40 anos:

Cada vez mais nos parecemos como uma país de terceiro mundo comandado por barões-ladrões, com uns poucos ricos no topo e infelizes camponeses labutando na base.

Os ricos usam o sistema de rodovias da nação para transportarem seus bens pelo país. Rodovias interestaduais beneficiam principalmente companhias de caminhões e seus clientes. São caminhões que pesam nas estradas e exigem que sejam reconstruídas a cada verão. Rodovias são mantidas através de impostos. Quando o Congresso diminui os impostos dos ricos, ele está dizendo que eles não têm que pagar por esse bem público do qual se beneficiam enormemente; está dizendo que pessoas de renda média é que têm que pagar pela funcionalidade das rodovias. E se o governo usa pedágios para manter as rodovias, ele está dizendo que mesmo o trabalhador com salário mínimo que usa uma estrada com pedágio para ir até o restaurante fast-food onde tem um emprego tem que pagar por essas rodovias e pelos constantes danos que elas sofrem devido aos grandes caminhões a serviço das corporações, que atualmente estão livres de pagar sua justa parte. Reduzir os impostos dos super-ricos é uma forma de aumentar os impostos de todo mundo mais.

Claro, a falta de empregos também foi resultado em parte da quase-Depressão de 2008-2009 e suas consequências, crise causada pelo fato do governo não regular os grandes bancos e permitir que a maioria das corporações pudesse agir como bancos.

A maior parte dos nossos problemas deriva do fato do governo dos EUA afagar os muito ricos, o que faz porque os muito ricos pagam as campanhas de políticos e esperam receber algo de volta. E quanto mais a riqueza do país foi para as 750 mil famílias, mais elas ganharam controle no Congresso. (Claro, os 400 bilionários é que fazem a grande diferença.) Cada vez mais, seus juros não são os mesmos juros do restante de nós.

A Standard & Poor’s não quer nem saber se ricos são afagados. Ela quer saber é se o governo dos EUA vai conseguir pagar os trilhões que está tendo que tomar emprestado porque não quer taxar as pessoas que possuam trilhões de dólares. Ela não consegue ver como o governo poderá ter sucesso utilizando dólares reais que valham alguma coisa (o governo americano sempre pode imprimir mais dinheiro para “pagar”, mas isso faz com que o valor real da moeda caia). Então ela está alertando os investidores sobre isso.

O provável resultado é que se tornará mais caro para o governo americano tomar dinheiro emprestado, o que aprofundará a crise da dívida.

O efeito de longo prazo dessas tendências certamente será o declínio dos Estados Unidos, que já começou. E será também um declínio maior do padrão de vida das pessoas de classe média no país.

Eu passei o verão em lugares como Tunísia e Egito, onde as pessoas similarmente estavam sendo exploradas por corruptos, ricaços e pelos políticos que estes conseguem comprar, lugares onde as pessoas se ergueram e se livraram dos canalhas. É motivo de perplexidade que a maioria dos americanos estejam apenas se dobrando e aceitando o tratamento que vêm tendo sem muito protesto.

1 comentário | Dê sua opinião

  1. Robson Eustáquio de Mesquita 21/10/2011 em 9:12 pm

    Às vezes os americanos dão um tiro no pé com essa briga de democratas e republicanos. Em 2013 haverá nova briga para emitir novos títulos da dívida. Robson Eustáquio de Mesquita

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