Os primeiros traços de Gustavo Czekster
por Maria Ivonilda
O homem despedaçado é uma coletânea de contos que marca a estreia literária de Gustavo Melo Czekster. Como o próprio título indica, os textos representam um estado subjetivo no qual o indivíduo se decompõe em diversos pedaços. Se há essa ideia de indivíduo que se decompõe, pressupõe-se que também há uma determinada unidade anterior a esse despedaçamento e, portanto, um confronto entre algo que foi e algo que vem a ser, para usar a terminologia adotada por Nietzsche, que parece ser uma influência decisiva na escrita do autor. Ou seja, esse “tornar-se o que é”, que parece estar em jogo ao longo dos textos, não vem de forma gratuita – podemos observar a centralidade e importância dessa questão na própria estrutura do livro, afinal Gustavo divide seu livro em três partes principais: “Antes da batalha”, “O homem despedaçado” e “Depois da batalha”.
Embora a ideia seja interessante, não há uma regularidade nos contos, o que acaba dificultando bastante a identificação do leitor com relação à história: para “mergulhar” no universo caótico no qual se situa esse homem despedaço, é necessário que haja um espaço para que isso ocorra. E a impressão que surge logo no início na leitura de alguns contos (“Antes da batalha”, o primeiro conto, talvez seja o exemplo mais forte) é que o autor está bastante seguro na forma de encarar as situações, o que acaba limitando a criatividade do leitor ao tentar usar a sua capacidade imaginativa para perceber o que está sendo dito. Talvez essa “segurança” se deva ao próprio diálogo que o autor trava com as suas influências literárias, filosóficas. Talvez ele se deixe contaminar demasiadamente por elas, afinal, referências não faltam no texto (Locke e sua tábula rasa, Nietzsche e sua ideia de homem etc.), mas algumas vezes elas pareceram excessivas para o formato do conto, ao menos da forma que foram colocadas.
O autor faz com que essa segurança transpareça mesmo quando ele trata de forma sutil alguns temas, como no conto “Lição de macho”, no qual o autor coloca em pauta a discussão sobre o patriarcalismo em um texto irônico e despretensioso, mas ainda assim com uma conclusão um tanto didática.
Os contos que parecem se destacar são justamente os que representam menos teoria, carregam menos referências e possuem mais “ritmo” de conto. Tomo como principais exemplos os contos “Buraco negro” e “A gênese do paradoxo”. Neles, a efemeridade da vida é tratada com mais leveza e a transitoriedade do ser, que define a marca do “tornar-se o que é” — já apontada como elemento importante na compreensão da coletânea –, é vista como um elemento um pouco mais “natural” — isto é, a inevitabilidade de certas situações é enxergada com menos estranhamento. Nesses contos, os acidentes, os paradoxos e até mesmo o absurdo passam a ser tomados como intrínsecos à existência humana. Neles podemos identificar também como se começa a desenhar o estilo de Gustavo Czekster; e esses primeiros traços que se apresentam são bem interessantes. A conferir os seus próximos trabalhos.
::: O homem despedaçado ::: Gustavo Melo Czekster :::
::: Dublinense, 2011, 160 páginas :::
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