Melancolia, de Lars von Trier

por Bruno Cava

Lars von Trier costuma provocar a audiência. É comum seus filmes retesarem o arco dramático até o limite da ruptura. Para, a seguir, mostrar que podem se estender ainda mais além, antes da romper. E então rompê-los. Em Dançando no escuro (2000) e Dogville (2003), isso se dá com a extrema flagelação a que são submetidas as personagens Selma (Björk) e Grace (Nicole Kidman). Em Anticristo (2009), com a brutalidade ensandecida em que imerge a protagonista (Charlotte Gainsbourg). A radicalização do conflito extrapola o senso de medida, e acaba por distanciar a audiência, pelo excessivo desconforto. O diretor obtém esse efeito de modo calculado, através de um domínio quase esquemático das “regras do jogo”, dos elementos do drama.

Melancolia, diferentemente, é um drama psicológico mais meditativo. Não se verão as passagens gore de Anticristo, nem a humilhação farsesca dos outros dois filmes citados. O sentimento contém-se, a tristeza suaviza-se, adocica-se. Neste filme, há estranheza por toda parte, mas não o estranhamento propriamente dito. Lars convoca a cumplicidade do espectador, menos que a sua confrontação.

O prólogo abre com dez minutos de imagens do espaço sideral, estrelas, astros em revolução, a colisão entre a Terra e um outro planeta, o cataclisma. Ao som de “Tristão e Isolda”, de Richard Wagner, o mundo acaba. A ficção científica aqui não comparece senão para aprofundar a interrogação sobre o humano. Como em Solaris (1972), de Andrei Tarkovski, a viagem para fora pretexta um mergulho na interioridade. O lá fora, espelho da alma, já é aqui dentro. Referência assumida do diretor dinamarquês, o planeta Solaris reatualiza-se como Melancholia. Ambos enigmas perturbam as pessoas. Os personagens analisam-no com o telescópio, estudam a sua mecânica celeste, mas, no fundo, eles que estão sendo observados pelo astro autoconsciente.

A primeira metade do filme (“Justine”) se passa num château na montanha, onde acontece a festa de casamento de Justine (Kirsten Dunst, irretocável). Com traços do Dogma 95 – o hoje abandonado manifesto de cineastas anticomerciais –, filma-se com a câmera na mão, cortes secos, falas curtas, som ambiente. Até a temática lembra o primeiro longa elaborado segundo o Dogma: Festa de Família (1998), de Thomas Vinterberg. O fim do mundo é a família. Os noivos entram em cena sorridentes e à vontade, na estrada antes de chegar, mas a noite vai ser um desastre completo. Crises de depressão, confrontos familiares, cobranças, recriminações, insultos, cenas constrangedoras, choros e decepções, tudo isso oprime Justine. A iluminação de um amarelo “aquecido” reforça a atmosfera irrespirável do castelo, entre mordomos e convidados-fantoches, empacotados em smokings. Não haverá casamento.

O papel de Justine fica mais claro na segunda metade do longa, intitulada “Claire”. Mistura de Ofélia e Cassandra, Justine combina um profundo entedimento sobre a realidade humana com uma passividade mortificante. E exemplifica, como na peça de Shakespeare, a irônica condição humana: sabe perfeitamente o seu destino, mas nada pode fazer a respeito. Fatalista, paralisada, Justine é a única a comunicar-se com Melancholia e conhecer a verdade fatal: “a humanidade é má”. Não poderia ser outro o desfecho senão o Apocalipse, que o também depressivo Lars von Trier apresenta-nos em devastadores planos em tecnologia CGI.

Não seria o château onde se passa Melancolia, outra ilha imaginária do Oceano, outro simulacro onde se perde e se entreva o psicólogo Kelvin? Como na última cena de Solaris, neste filme o tempo e o seu final, toda a escatologia, estão dentro de nós mesmos.

Menos que grandiloquência em tintas cósmicas, em Melancolia tem-se uma cosmovisão artística ultrarromântica, pra quem o mundo não passa de um pesadelo inescapável e iniludível, onde apodrecemos.

[trailer]


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10 comentários | Dê sua opinião

  1. Maria Ivonilda 05/08/2011 em 4:42 pm

    Valeu, Bruno. Estou ansiosa para ver! Mas ainda não chegou aqui em Fortaleza.

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    • Jonatan 07/08/2011 em 1:29 pm

      Ivonilda, tb sou de Fortaleza e espero ver Melancolia em breve.

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      • Maria Ivonilda 07/08/2011 em 5:58 pm

        Bacana encontrar alguém que também se interessa pelo cinema do Lars aqui em Fortaleza. Vou tentar entrar em contato contigo através do seu e-mail, ok?
        abraço

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  2. Dan Jung 09/08/2011 em 11:20 pm

    Bruno, crítica intrépida do filme. A meu ver o drama, no âmbito das reciprocidades, é sempre alavancado pela a ruptura (limite humano, constituído no vazio existencial). Adorei a sua percepção do domínio esquemático (dramaticidade) e o cataclisma associado à ópera Tristão e Isolda, a sua carga dramática, o trágico e o medievalismo dão um tom intenso e interrogativo do fim. E a família como o locus do privado e a consequente anunciadora do fim do coletivo (fim do mundo). Linda a sua forma de convocar em Justine a Ofélia (“passividade mortificante”, desiquilíbrio, desilusão e queda) e Cassandra (capacidade de perceber o fim e com ele se comunicar, enclausurando-se dentro si). Parabéns Bruno! Percepção esplêndida do filme. Adore!

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  3. Bruno Cava 13/08/2011 em 6:50 pm

    Dan, que síntese hein, valeu. Por sinal, esse tipo de drama teatral com tons metafísicos é uma constante em vários cineastas escandinavos. O que me deixa intrigado é para onde Lars vai direcionar a sua obra daqui por diante. O “Anticristo” foi uma virada importante, mas “Melancolia” aprofunda certas tendências fatalistas, inclusive na montagem, e pode acabar conduzindo-o para um beco sem saída poético. Embora diretores dessa talha sempre surpreendem.

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  4. Orkut ex machina 17/08/2011 em 12:55 am

    Bruno, que percepção fantástica. Estou sem palavras, mas precisava dizer parabéns.

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  5. Gabriel 20/08/2011 em 1:11 pm

    Desculpem, mas achei o filme um saco. Li a resenha aqui no Amálgama e esperava, ao menos, que o filme fosse decente. Mas nem isso mesmo ele é. Situações e encadeações completamente ilógicas, criam repúdio a quem assiste ao filme logo na primeira parte. Depois, claro, só piora.
    Não gastem seu dinheiro à toa.

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  6. Sirena 11/09/2011 em 10:16 pm

    Gosto de filmes como esse, que tem um roteiro criativo, atuações magníficas, uma visão das coisas, que produzem um certo desconforto.
    O que ficou pra mim foi a relação profunda de Justine com a natureza, sua percepção do apocalipse e a forma como ela sofreu todos os efeitos da aproximação do planeta.

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  7. Sérgio Mota 02/10/2011 em 9:40 pm

    Simplesmente triste, lindo como todos os filmes do Las, recomendo, mas saibam que ficarão chocados por uns dias…..

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  8. Danusa 15/10/2011 em 6:08 pm

    O filme me fez pensar sobre algumas coisas, conseguiu trazer reflexões, mas fiquei doida pra esse planeta explodir logo!!!!! Deu nos nervos!!!!

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