Do cinismo

por Fernando da Mota Lima

 

Como é estranha e fascinante a história das palavras. Para os que apreciam termos técnicos, como é estranha e fascinante a etimologia. As palavras e seus sentidos instáveis e até turbulentos – o objeto da etimologia, noutras palavras – dizem muito da inconstância e falibilidade de tudo que é humano. Sendo criação nossa, teriam elas, as palavras, que fatalmente refletir o que temos de melhor e pior, para não fugir ao lugar comum.

Entro agora no meu assunto antes que o leitor já entediado vire a página. Estava eu acompanhando o noticiário relativo ao trem de demissões do Ministério dos Transportes quando me ocorreu lembrar um filósofo de bem remota existência, mas ainda muito oportuno. Refiro-me a Diógenes, o cínico. É este aposto, cínico, o fantasma que move as linhas do parágrafo inicial do meu artigo. O cinismo, palavra hoje revestida de tão má reputação, transportada de uma para outra baixeza, de livre trânsito no Ministério dos Transportes, perdeu por completo suas virtudes originais.

Diógenes foi o grande representante da filosofia cínica, de longeva existência, quando o cinismo significava algo totalmente oposto ao sentido dominante no presente. Ele era cínico porque, desprezando radicalmente as convenções sociais, toda a pompa e futilidade do mundo, decidiu-se a viver como um cão. Daí o termo cínico, que originalmente significa canino, ou de origem canina. Cinismo hoje, sabemos, é algo bem diferente, para não dizer oposto ao sentido que acabo de anotar. A elite política brasileira ilustra o sentido corrente do termo melhor talvez que qualquer outro grupo social. Aliás, como bem observa o historiador Evaldo Cabral de Mello, o Brasil não tem elite, tem clientela. Assim, nossa clientela reparte os bens públicos sob o balcão, ou sob os tapetes dos palácios, embora os mais imprudentes, ou mais confiantes na impunidade, operem à luz do dia.

Voltando a Diógenes, lembro uma anedota que o leitor talvez conheça. Um dia saiu pelas ruas de Atenas com uma lanterna acesa à luz do dia. Intrigados diante do fato, alguns curiosos perguntaram-lhe a razão daquela extravagância, de resto costumeira no comportamento do filósofo. Respondeu simplesmente que procurava um homem honesto. Imagino Diógenes redivivo andando pelas ruas de Brasília não mais com uma lanterna, mas com um refletor ou uma filmadora à procura de um político honesto, ou simplesmente um brasileiro honesto.

Vivendo como um cão, Diógenes com certeza prescindiria de ruas devidamente asfaltadas e estradas transitáveis. Prescindiria ainda mais da filmadora, que todavia lhe enfiei nas mãos para melhor ilustrar a cultura corrente no nosso tempo. Seu alvo era a virtude, ou ausência de virtude dos seres humanos que, à sua diferença, livremente ajustado à sua condição canina, vestiam as vestes enganadoras das convenções para exibir poder e fortuna amealhados mediantes expedientes corruptos, portanto indignos de um cão como ele. Destoando dos cães contemporâneos, todos corrompidos por nossa humanidade consumista e egocêntrica, Diógenes fundamentou sua filosofia na busca da virtude subjetiva indiferente à futilidade do mundo.

No entanto, que dizer de nós? Se acaso somos honestos, o fato é que pouco ou nada nos indignamos em face da desfaçatez com que os cínicos e corruptos da política negociam as fortunas arrancadas da população que paga impostos, isto é, toda a população brasileira. Como há muitos desavisados supondo que quem paga imposto é apenas a fração colhida pela rede dos impostos diretos, talvez seja preciso esclarecer que todos pagamos impostos, pois a maior parte da carga tributária procede dos impostos indiretos, que afetam a totalidade da população.

Seria a ignorância acima indicada explicação suficiente para nossa inércia política, a apatia ou indiferença com que todos os dias ouvimos, lemos e vemos as notícias rotineiras sobre a desonestidade dos políticos, tão previsível e frequente quanto a luz do sol e a água da chuva? Há alguns dias minha ex-namorada enviou-me o link de um artigo publicado em El País sobre a corrupção corrente durante o governo Lula que vazou para o governo de Dilma Roussef. Sendo espanhola, além disso totalmente alheia a certos traços da história e da cultura brasileira, Isabel pareceu-me desorientada diante da nossa inércia. O artigo do El País explicita essa perplexidade compreensível numa sociedade na qual a tolerância diante da corrupção é mínima, ou pelo menos incomparavelmente mais reduzida. O autor do artigo se perguntava, noutras palavras, por que os brasileiros não se indignavam quando agora assistimos perplexos até aos movimentos regeneradores de combate à corrupção e à ditadura em países do Oriente Médio.

Se ele, o jornalista espanhol, não explica nossa apatia política, nossa incapacidade de indignação em face da corrupção endêmica na nossa política, que direi de mim? O leitor curioso poderá conferir no artigo as explicações que esboça. Quanto a mim, brasileiro comum equilibrando-se para não cair nos buracos cavados até nas vias centrais da capital em que moro; desanimado de empreender viagens de carro por não suportar o caos rotineiro das nossas rodovias; há muito descrente de políticos e partidos brasileiros, embora ciente e consciente de que alguns se salvam do atoleiro no qual chafurdam nossos políticos, quanto a mim contento-me em repisar a frase famosa de Tom Jobim: o Brasil não é para principiantes.

Confesso que muito gastei do meu tempo e trabalho visando explicar os enigmas do Brasil. Tendo antes a presunção de chegar a explicações suficientes, muita palavra e saliva consumi aspirando a melhor compreender enigmas do tipo: por que o Brasil piora até quando se desenvolve? Por que um país tão rico mantém em estado de semiescravidão grande parcela do seu povo? Por que não somos sequer capazes de lutar de forma tenaz contra nossas tradições mais retrógadas e revoltantes? Por que a imagem de um país em ruínas se confunde com a imagem de um país que progride? Por que nosso orgulho e nossa resignação ancoram na frase delirantemente nacionalista segundo a qual Deus é brasileiro? Por que Kafka não nasceu no Brasil? Ou melhor: por que não criamos na nossa literatura uma tradição de corte kafkiano? O Brasil que pensei, o Brasil que figurei como possibilidade, esse Brasil nunca existiu nem existirá. O que há é esse no qual os homens desprezam os ideais éticos e as virtudes propostas por Diógenes, no qual a possibilidade de Diógenes foi suprimida e os cães nunca são cínicos como o filósofo grego que preferiu a luz do sol, os dons gratuitos da natureza, à grandeza da sombra de Alexandre Magno.

7 comentários | Dê sua opinião

  1. Paulo 03/08/2011 em 10:10 am

    Caro Fernando,
    Quanta angustia e pessimismo ! Esqueça Diógenes meu caro!
    façamos um exercicio de imaginação, uma alegoria. Cena curta: Na sua cidade, o Recife ; Avenida Conde da Boa vista , em meio aos bonecos de Olinda, marcham espontaneamente , ombro a ombro, os bons, digo os honestos, pedindo o fim da corrupção , Eles sabem onde reside o mal : numa raça desgraçada de homens poders -os políticos, melhor dizendo , em alguns deles, melhor ainda, naqueles nos quais cada um ali não votou, uma vez que os bons são esclarecidos e jamais votariam em um corrupto. a TV globo é honesta e boa e tudo acompanha e filtra . Vejo você no NE TV, o espelho da realidade. Close : em meio à multidão , brada revoltado o bom Sergio Guerra e pede uma CPI dos ministérios ( sim ele é político, se acha bom e honesto ,quer dividendos, quem lhe atiraria a primeira pedra ? ele é anti Lula, e não foi Lula que instaurou a era das trevas?) mais atrás um dos líderes do MST em Pernambuco seguido por centenas de militantes, todos em uníssono a clamar por mais justiça social, posto que esta se relaciona diretamente com a corrupção, e eles estão convencidos de que só o fim desta promoverá a justiça no campo.(Calma: o NE TV não mostrou isto , para ela o MST ao certo é só uma distorção do real) . Sim a globo é boa, e só os bons conhecem verdadeiramente os bons. E vem um e grita que o PT corrompeu o Brasil e pede a queda de Dilma e a restauração da república velha.( Em Boa Viagem, em frente à TV um político menor esfrega a mão em extase) Outro gritará não!! foi a ditadura militar ! Um outro pedirá a volta da monarquia ( sim os monarquistas a têm como a forma de governo menos corrupta) . Até que beco estreito e assombrado do bairro do Recife vocês iriam marchar ? Quem lucraria de fato com isto?
    É verdade que a maioria , a classe média em especial, a mais bela, ( espelho meu há alguma classe mais bela -no sentido grego de beleza e no mundano também- do que eu?) está às vezes pouco , outras vezes muito cínica, ou individualista , ou selfish para usar um termo assim , digamos, mais classe média? Lembremos Foucault! ¨O capitalismo nos quer economicamente úteis e políticamente dóceis¨.
    Mas não seja tão pessimista meu caro Fernado!! continue estudando e muitas luzes se farão.

    Responder
    • Wellington 13/08/2011 em 5:47 pm

      Resposta ao Paulo:
      O Brasil está assim com moleques no Governo roubando nosso dinheiro por ter pessoas como você.
      Se os brasileiros tivessem um pouco mais de vergonha de ser roubado e pisado e quisesse “cobrar” de forma mais contundente, eu seria o primeiro a ir lá em Brasília, terra dos “Moleques” que nos governam e só sairia de lá a hora que criassem leis de Homens com H maiúsculo.
      Leis que deixem pelo menos uns 5 anos na prisão os políticos “moleques” que roubam e que rapidamente resgatassem os valores roubados. O que falta aqui é aquilo que tem nos Estados Unidos, “Tolerância zero” para esses políticos.
      O que adianta você achar que é um um intelectualzinho, falando de personagens políticos com suas idéias de letras e papel que não se aplicam num país que de um lado tem um Governo que só rouba e mal governa e do outro um povo dividido em três, os ignorantes que são maioria, os como você, que sabem que está acontecendo mas enquanto estiver com sua grana, tudo bem, e de outro pessoas como eu que quer fazer algo para mudar mas os ignorantes e os pedantes não deixam!
      Tenho vergonha de ter nascido num país que o povo é um povo FROUXO! Só saem na porrada quando o time perde. É coisa de… Deixa prá lá!
      Agora você Paulo com este pensamento, deve ser político ou um grande torcedor de futebol!

      Responder
  2. sibélius 06/08/2011 em 9:35 pm

    Fernando, não é que a população está incapaz de se indignar, etc. É que não mtem jeito, quem manda no Brasil são os corruptos, os malandros, os sacanas e a população não tem organização. Quem organizava o povo era o PT, não era ninguem mais..Aí a gente elegeu o Lula e deu no que deu, os malandros subiram no puleiro e deu banana prá população. Quem pode nos organizar, PMDB? PSDB? ah, sim, não precisamos deles. Então, porque não vemos nada, nenhum protesto prá valer? A população esta anestesiada, ficou anestesiada depois de tanta enganação..Ela está anestesiada.

    Responder
    • Fernando da Mota Lima 07/08/2011 em 10:28 am

      Sibélius: você tem razão, mas apenas meia razão. No que se refere à organização partidária da sociedade, penso que é isso mesmo que você observa. Mas não esqueça de que os partidos políticos não constituem a única instituição organizadora da sociedade. Basta você considerar a indignação das torcidas de futebol ou o extraordinário poder de organização das instituições carnavalescas. Para carnaval e futebol, noutras palavras, somos um povo extraordinariamente organizado. O problema secular é que nunca tivemos uma sociedade civil forte, evidência da fragilidade da nossa organização política, isto é, dos nossos baixíssimos índices de indignação cívica.

      Responder
  3. Paulo 09/08/2011 em 12:08 pm

    Fernando,

    agradeceria se você explicasse como pode um ¨povo extraordinariamente organizado¨ constituir uma ¨ uma sociedade civil fraca ¨.
    Juan Arias, provavelmente desconhece nossa historia, mas não esqueçamos da guerra dos mascates, de 1817, da batalha dos Guararapes, da Guerra da Bahia, da revolta do quebra quilos, da confederação do Equador, da guerra dos farrapos , da balaiada, do movimento diretas já e do impedimento de Collor.

    Responder
    • Fernando da Mota Lima 09/08/2011 em 4:42 pm

      Paulo: a explicação está contida nos exemplos mencionados. Que povo demonstra tamanho poder de organização coletiva como os brasileiros que fazem o carnaval do Rio, por exemplo? O que afirmei, e reafirmo, é que somos um povo dotado de grande poder de organização para a festa e o futebol. As torcidas organizadas se mobilizam, protestam, vão ao extremo do quebra-quebra, como já vimos tantas vezes. Basta o time começar a perder, perder em condições vexatórias ou ser desclassificado. No entanto, os torcedores desses grupos organizados suportam com inteira passividade todo tipo de opressão cotidiana, fruto de um país politicamente organizado de forma corrupta, indiferente aos direitos elementares dos cidadãos. De que forma tantos brasileiros enfrentam essas opressões? Na base do jeitinho, do expediente desonesto, furando fila, pagando um despachante, subornando, desfrutando de privilégios… A maioria resiste a toda forma de organização porque estamos longe de ser uma sociedade realmente democrática. Faça uma comparação com a Inglaterra e muito disso ficará evidente. Um sociólogo da cultura pode explicar, baseado em razões histórico-culturais, porque o inglês se organiza democraticamente e nós não; porque lá existe saúde civil e aqui, sobretudo no Nordeste, somos essa bandalheira. Não assinalo algumas dessas razões porque isso é apenas um comentário, não um artigo. Um abraço, Paulo.
      Fernando

      Responder
  4. paulo 12/08/2011 em 11:36 am

    Fernando,

    Os exemplos citados não explicam o que você afirmou: que seríamos um povo extraordinariamente organizado com uma sociedade civil fraca. Isto é o mesmo que dizer ¨este carro preto é branco. O espetáculo das torcidas de futebol e do carnaval não refletem nossa extraordinaria força de organização. São fenômenos de catarse coletiva. A plebe a a elite romana também se esbaldavam no Coliseu. Somos organizados como povo na medida exata em que aquilo que alguns gostam de chamar de sociedade civil se organiza. . Voltemos no entanto ao tema do levante popular contra a corrupção . Um evento desta natureza, será apropriado fatalmente por interesses políticos , alguns inconfessáveis meu caro e o cachorro acabará mordendo o próprio rabo.

    Responder

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

----- Consulte os arquivos do Amálgama ||| Publique ||| Contato ||| Para reproduzir nossos textos -----