Clarice – Quero mais!
por Juliana Dacoregio
Ela é considerada uma das maiores escritoras brasileiras, se não a maior, mesmo não tendo nascido no Brasil. Mas isso é um mero detalhe. Foi em nossa língua que Clarice escreveu e ela é nossa. Ao menos é assim que se sentem seus milhares de fãs por todo Brasil (não me atrevo a dizer milhões, pois num país onde tão poucos leem, imaginar milhões lendo Clarice seria extremamente otimista).
Bem, como mais uma fã fervrosa de Clarice Lispector comprei sua biografia – Clarice, escrita pelo jornalista norte-americano Benjamin Moser – com a esperança de ter um vislumbre total da intimidade da escritora e da mulher, uma tradução de suas inquietações, uma devassidão de seus hábitos do dia-a-dia e penetrar em seus momentos de bloqueio criativo.
Anseios estes que não foram de todo satisfeitos. A biografia fala muito sobre o momento histórico e político em que ela estava inserida, mas carece de informações sobre a vida pessoal da escritora. Não faltam dados sobre sua família, os sofrimentos que passaram e suposições sobre Clarice escrever em busca de algo divino. É um livro rico quando se trata de conhecer a Clarice embaixatriz e suas andanças pelo mundo. Também temos vislumbres de como ela se sentia em relação às muitas viagens, mas não mais além disso.
Claro que há momentos reveladores de suas frustrações e expectativas como escritora. Descobrimos, por exemplo, que ela não era tão indiferente, como parecia, quanto ao fato de sua literatura fazer sucesso ou não. Sim, ela escrevia como forma de catarse e não com o objetivo de ensinar ou passar alguma lição de vida. Mas, após o sucesso de Perto do Coração Selvagem, esperava ter um reconhecimento, ou ao menos entendimento, nas obras posteriores. Clarice declarou que escrevia para si mesma e não há razão para duvidar, no entanto frustrou-se por certas obras não serem bem recebidas por crítica e público. Não se poderia esperar antagonismo diferente de uma garota que teve seu primeiro sucesso na literatura aos 21 anos de idade.
O livro A Cidade Sitiada é emblemático nesse sentido. Foi uma das obras de Clarice consideradas mais confusas. O livro não teve a aceitação que ela esperava mesmo sabendo do hermetismo exacerbado da história. O que só demonstra o que toda a introspecção de seus textos já denunciavam: ela era humana! Cheia de dúvidas e complexidades, não só na produção literária como na vida.
A biografia não chega a revelar grandes segredos sobre Clarice, mas para os fãs sempre vale a pena saber um pouco mais; para aqueles que pouco conhecem da obra da escritora mais intimista da literatura brasileira, pode ficar o desejo de conhecer mais e ler seus livros. O que, no fim das contas, é um saldo bastante positivo.
::: Clarice ::: Benjamin Moser (trad. José Geraldo Couto) :::
::: Cosac Naify, 2011 (livro de bolso), 752 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::


Reli o livro e acho justo fazer algumas retificações: há, sim, partes em que podemos conhecer um pouco mais da vida íntima de Clarice, porém sempre deixa algo a desejar. Quando estamos nos envolvendo com suas excentricidades e cotidiano, logo a narrativa acaba e fica aquele “gosto de quero mais”.
Além disso, o autor da biografia insiste de forma incômoda e recorrente que Clarice empreendia uma busca por Deus. Não é implicância de atéia, não. Creio que é uma interpretação válida de seus escritos, ela estava mesmo numa busca espiritual e queria transcender a vida, mas Benjamin Moser bate insistentemente nessa tecla, de forma que (creio eu) incomodaria até o mais religioso ou místico dos leitores.
Também há fatos políticos que poderiam ser descartados. Não todos, mas alguns, com certeza!
Bem, de qualquer forma, continuo na minha opinião de que eu queria mais de uma biografia de Clarice Lispector (sobretudo num livro de tantas páginas).
E mais um adendo: a edição de bolso é mais barata – o que é ótimo, se não eu ainda não a teria lido – mas por ser um livro longo, é incômoda de ler.
Deixo-vos com uma informação “interessante”: quase no final da vida ela teve um cachorro chamado Ulisses. E afirmado por ela, “Ulisses fumava e tomava uísque e Coca-cola”! Se ele fumava mesmo pode parecer meio estranho. Mas é confirmado por amigos de Clarice que a visitavam: colocavam o cigarro no cinzeiro e ele sumia, um após o outro, daqui a pouco lá estava Ulisses cuspindo guimbas de cigarro.
Juliana,
Parabéns pela excelente resenha. Incrível o seu poder de síntese ao traduzir em poucas palavras o que há de central na obra. Com certeza despertará o interesse de muitos. Um afetuoso abraço.