Cada Despedida

por Marcelo Barbão

-- "Cada despedida", de Mariana Dimópolus --

 

Luisa é uma garota de apenas vinte e pouco anos, mas se sente velha e cansada. Toda sua vida adulta foi uma sucessão de fugas. Fugas de pessoas muito influentes, muito fortes, muito castradoras, ou até mesmo da ciência e suas certezas e nomenclaturas (depois de se formar em biologia na universidade). Ela, ao contrário, parece frágil e mansa, aceitando tudo que a vida (e as pessoas com quem acaba se envolvendo, queira ou não) impõem.

A forma como Luisa resolve seus conflitos é fugindo. Não só dos relacionamentos, mas da cidade onde se encontra, até mesmo do país. Por isso, o romance está estruturado em pedaços de texto que mostram os locais e os conflitos que cercam Luisa, mas sem qualquer referência temporal.

A história vai pulando de um lugar para o outro (entre eles Buenos Aires, Patagônia, algumas cidades da Espanha e da Alemanha), misturando as histórias com algumas indicações da ordem em que elas aconteceram.

Luisa parte de Buenos Aires deixando para trás o pai e a família, vai para a Alemanha onde trabalha numa padaria (e precisa aguentar um padeiro mal-educado e xenófobo), depois para a Espanha onde se envolve numa amizade com Julia (e o filho desta) com contornos quase homossexuais, partindo para viagens com o milionário Stefan (tantos lugares que ela nem sabe – e não nos conta – muito bem onde está), até voltar para Buenos Aires e partir para o povoado de El Bolsón, na Patagônia, onde se envolve com Marco. Ou seria tudo ao contrário?

-- A autora --

Impossível saber. A construção através de pequenos blocos de textos permite criar esta interessante confusão, simbolizando até mesmo a falta de perspectivas e objetivos da personagem. O mais interessante na construção que a autora faz da novela é que não existe um momento principal, onde se passa a maior parte da história e fragmentos do passado (ou lembranças de outras cidades), um recurso muito comum. No livro, Dimópulos constrói cada momento na vida da personagem com o mesmo peso, a mesma importância. Mesmo quando ela se envolve num crime, sendo que pode até ter sido a assassina, não fica claro, esse “fragmento” não tem maior importância do que os outros.

É como se a pouca relevância de Luisa se espalhasse pelo livro, uma vida sem pontos altos, sem momentos centrais, como se fosse uma planície sem altos e baixos. Cada fragmento com a mesma intensidade (ou falta de) que o outro.

Para aumentar a imprecisão, o assassinato que acontece em algum ponto desta viagem nunca é resolvido e Luisa até mesmo joga com a ambiguidade deixando o leitor e os outros personagens sem saber o que ela está querendo.

Este é o segundo romance de Mariana Dimópulos (o primeiro foi o excelente Anís), que além de escritora também é tradutora.

::: Cada despedida ::: Mariana Dimópulos :::
::: Adriana Hidalgo Editora, 2011, 150 páginas :::

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