O protagonismo feminino e as eleições de 2010
por André Egg * – O candidato favorito em todas as pesquisas para vencer as eleições presidenciais deste ano não é candidato: é candidata.
A ideia de ter uma mulher com tanta força na política nacional é completamente nova no Brasil, e demonstra um certo amadurecimento. Mas, na verdade, a questão de uma maior inserção da mulher no processo decisório da política nacional ainda está longe de chegar a bom termo. O Brasil ainda é, em grande medida, o país machista e patriarcal, que reproduz o estereótipo de que a mulher limpa a casa e o nariz das crianças, enquanto o homem “põe comida na mesa” e assume o destino natural para o mando tanto no lar como na política da cidade e do país. Políticos como Paulo Maluf, que disse que sua mulher “não se mete em política”, ainda são a maioria. Nesta fala ridícula está o conceito tão brasileiro da dicotomia entre a casa e a rua: a casa como domínio (ou prisão) da mulher, a rua como domínio do homem. A mulher que sai de casa e vai para a rua (ou para o espaço público da política) é vista pejorativamente.
Superar este tipo de condição continua sendo uma luta inglória no Brasil. E o fato de Dilma ser candidata favorita, ou de outras mulheres assumirem algum protagonismo (só consigo me lembrar agora de exemplos positivos em Marta Suplicy e Marina Silva – Roseana Sarney e Yeda Crusius não valem) ainda não significa muita coisa.
Em primeiro lugar, porque as mulheres continuam muito discriminadas no mercado de trabalho, onde assumem posição inferior aos homens, apesar de já terem um nível educacional muito mais alto.
Em outros aspectos, continua havendo significativa desvantagem das mulheres nas candidaturas. A legislação que exigiu um mínimo de 30% de candidaturas femininas ainda não foi totalmente implementada. E é preciso considerar que as candidaturas femininas ainda são muitas vezes construídas apressadamente, o que reflete numa ridícula representação política feminina em todos os níveis do poder legislativo, assim como nos principais cargos executivos.
Dilma é exceção que confirma a regra da exclusão política da mulher brasileira. Ela não teria sequer chegado a ser candidata senão por indicação pessoal de Lula (alguém imagina ela vencendo uma prévia no PT?). O protagonismo que ela assumiu no governo se deu pelo fato de que ela era a única gestora competente no grupo de ministros, e foi cotada para pilotar o governo depois que a casa caiu para José Dirceu. O Brasil agradece, mas percebe-se que foi uma soma de acontecimentos fortuitos. A candidatura Dilma pouco representa para o protagonismo político da mulher brasileira.
Só a mobilização efetiva das mulheres poderá trazer à tona os temas que nós homens estamos nos recusando sempre a discutir, jogando a sujeira pra baixo do tapete. A emancipação do povo brasileiro, mais do que pelo aumento da renda e de boas condições macro-econômicas (PIB, emprego, etc.) passa pela condição da mulher no trabalho, nas relações familiares, e as conseqüências diretas que isso tem para a educação das crianças. Se as mulheres não forçarem a isso, os homens não vão sair de sua posição de conforto: continuarão não fazendo nada em casa, ganhando pouco dinheiro, sem tempo para os filhos e fazendo essa merda toda que sempre foi a política nacional.
Uma diferença fundamental que deve ser observada está nos dados da pesquisa Datafolha do final de julho. Na espontânea, 56% das mulheres ainda estão indecisas, contra apenas 35% dos homens. As mulheres estão menos decididas por diversos motivos: porque são menos informadas sobre política, na média, mas também porque são mais exigentes, esperam mais explicações dos candidatos, querem ver melhor seus compromissos. Estão menos satisfeitas com a situação. Esse fator também pode estar mostrando uma outra diferença fundamental: o fim daquela história antiga que é o macho da casa que define o voto de toda a família. Para o bem do país, espero que as mulheres banquem cada vez mais sua opinião, e ouçam menos as opiniões (ou ordens) dos homens.
Aliás, para quem quiser ter uma ideia de quão machista anda a nossa campanha política, não deixe de olhar o blog Sexismo na Política.
* André Egg, Curitiba-PR. Blog: andreegg.opsblog.org.
leia mais

















Polêmico, mas de certa forma não consigo discordar. A presença de mulheres na política por vezes parece residual, limitada e apenas cosmética, Às vezes imposta.
Acho lamentável que seja preciso uma lei para impor cotas às mulheres, seja porque estas se submetem ou são submetidas. Mas para sua lista eu alencaria a Erundina e a Manuela d’Avila, além da Luciana Genro.
Queria ver o comentário de uma feminista.
A Erundina foi certamente uma omissão imperdoável.
Manuela e Luciana ainda vão mostrar a que vêm. Tem também a Ideli Salvati, que espero que seja eleita governadora de Santa Catarina, a Gleisi que vai ser senadora pelo Paraná.
Apesar de saber contra quem a Ideli concorre, eu não gosto e nem votaria nela, honestamente! A Erundina, coitada, pega pelo Ficha Limpa, logo ela, exemplo de honestidade!
Ainda bem que todo esse quadro tende a melhorar com a eleição da Presidente.
É uma melhora muito pontual, eu acho. Estamos longe do ideal. E se uma candidata como a Dilma tentar colocar a relação de gênero na pauta, ela perde a eleição – pode ver como ela está adotando os estereótipos sugeridos pelos marketeiros.
Concoooooordo plenamente em tudo mencionado.
As mulheres ainda são altamente discriminadas e não me impressionou saber que estão em maior quantidade que os homens em dúvida para a votação. É isso mesmo, menos interesse.
Há ainda o “chefão” que escolhe o voto.
Não sei se é menos interesse não. Acho que as mulheres estão mais exigentes, menos fáceis de convencer. Qual é o candidato que está propondo uma pauta específica para a situação da mulher no Brasil? Nem Dilma nem Marina por enquanto tocaram no assunto.
André, gostei demais da análise que vc faz sobre o protagonismo das mulheres na política, especificamente falando dessas eleições. É muito bom ver homens com esse tipo de opinião. Sou militante feminista, atuo no movimento desde os idos anos oitenta e o tema mulher e poder é um dos meus objetos de estudo, vamos dizer assim. Vou compartilhar o seu artigo na minha página no facebook, OK? Um abraço.
Repercussão mais do que bem-vinda. Acho que nós homens só temos a ganhar com a emancipação da mulher. Pobre de quem não percebe.
Parabéns pela matéria André! Comentário inteligente.O Brasil precisa de pessoas com essa mentalidade,para fazer um Brasil melhor.Conhecimentos nao dar poder! Conhecimentos dar possibilidades de criar uma estrutura de estabilidade para o povo.Todos se precisa.
Concordo que qualquer cidadão, independente de sexo, credo, raça tem os mesmos direitos em qualquer seguimento da sociedade. Agora, exemplo positivo em Marta Suplicy, faz-me rir, com certeza você não mora em São Paulo ou veio para cá bem depois do caos que essa senhora provocou em nossa cidade.
Independente disso, parabenizo a matéria. Homens, mulheres, ricos, pobres, brancos, negros, índios, imigrantes, enfim, todos tem os mesmos direitos.
Carlos, eu nunca morei em SP. Acho isso aí um caos mesmo. E não é culpa da Marta, pode ter certeza. Não tenha dúvida que ela foi uma prefeita que governou mais para a periferia – se você tem acesso à internet em casa deve gostar mais do PSDB.
Agora, gostando ou não da atuação dela, ela é um exemplo de protagonismo feminino na política: primeiro como sexóloga e comunicadora de TV, depois como deputada e militante do PT. Por último como prefeita – inclusive se divorciando do marido (um político mais popular que ela) durante a campanha.
O governo dela foi muito bem avaliado, mesmo tendo sido derrotada na disputa pela reeleição. Alguma dúvida que ela vai se eleger senadora?
André, sinceramente a intenção de meu comentário não foi levar para o partidarismo, até por que, nessa última eleição anulei meu voto. Como informei anteriormente, existem muitos exemplos de protagonismo feminino na política brasileira, e meu maior exemplo é Marina Silva, essa sim uma mulher de valor, qual terá meu voto nessa eleição. Marta não é exemplo para nada, e sobre ter computador em casa e PSDB, infelizmente muitas pessoas se esquecem que políticos do PSDB estiveram de mãos dadas com políticos do PT, lutando pelas Diretas já, onde eu estava em 1984. Sobre a Marta ser eleita Senadora, fato como Maluf será reeleito o deputado federal mais votado do país. Se a Marta fosse bom exemplo, com certeza teria sido reeleita. Perdeu para Serra e kassab e, não queira dizer que nós paulistas/paulistanos não sabemos votar, que somos preconceituosos. Já elegemos Luíza Erundina (primeira mulher a governar uma cidade grande) e Celso Pitta (o primeiro negro).
Não quis dizer nada sobre saber votar não. Isso é muito relativo. O eleitor vota para defender seus interesses.
Sua percepção sobre Marta é válida, mas acho que não se pode negar que ela é muito importante na questão do protagonismo feminino. Mais do que Dilma, mas certamente não mais do que Marina.
A coisa sobre computador em casa e PSDB ficou meio besta, mas o fato é que os mapas de votação em 2004 e 2008 mostraram uma Marta imbatível na periferia, perdendo no eleitorado de maior renda. Quem usa escola pública e transporte coletivo gostou dela como prefeita.
Mas veja o caso do Pitta como primeiro negro. Ele não foi eleito a partir de algum protagonismo político do negro – só veio a calhar o fato de que ele era o melhor capacho que o Maluf tinha para colocar como fantoche: não vejo isso como exemplo de saber votar.
Da mesma forma como seria burrice votar na Dilma só por que o Lula está indicando. É preciso avaliar se ela tem alguma consistência política, coisa que o Pitta não tinha nenhuma.
Marina? Boa sorte com a Criacionista e homofóbica!
Dilma é exceção que confirma a regra da exclusão política da mulher brasileira.
concordo plenamente. mas vejo que esse movimento de maior participação politica feminina representado pela Dilma é uma tendencia mundial. só dar uma olhada nos nossos vizinhos e na ultima eleição dos EUA.
apesar de pontual, eu sou otimista nesse sentido.
Eu acho também. Estamos melhorando, bem devagarzinho. Longe do ideal.
Mas o mundo do século XXI está bem menos restritivo às mulheres do que em qualquer momento do passado…
É interessante sim, termos uma representante feminina na política, território que até pouco tempo atrás era exclusivamente masculino.
Contudo, não se pode generalizar, o fato de ter uma representante feminina não garante que ela lutará a favor do feminismo, afinal, não se faz um governo sozinho.
Além de escolher bem o nosso cargo máximo, temos que dar muita atenção para os futuros governadores, deputados…