Pesadelo esquemático

por Bruno Cava – Alguma vez o leitor já acordou de um sonho e descobriu que ainda estava dormindo, que se encontrava em outro sonho? Um sonho dentro de outro sonho, eis o conceito da ficção científica A Origem [estreia hoje], de Christopher Nolan, o mesmo diretor de Memento (2000) e de dois filmes do Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) e Batman Begins (2005). O roteiro vai além e, qual bonequinha russa, vai colocando sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos, numa vertigem que confunde até os personagens. “Peraí! pro subconsciente de quem nós estamos indo mesmo?”, pergunta Ariadne (Ellen Page, de Juno), num momento de autoironia cinematográfica.

Leonardo DiCaprio é Dom Cobb, hacker de subconscientes, o melhor espião industrial do mundo futurista de A Origem, capaz de penetrar na mente enquanto você dorme para extrair-lhe valiosas informações. Quem viu Ilha do Medo, vai lembrar-se imediatamente do protagonista, o “US Marshall” Teddy Daniels, interpretado por DiCaprio. Ambos os personagens de DiCaprio habitam uma zona cinzenta entre o real e o imaginário, carregam uma insuportável culpa, têm visões dos filhos mas não os alcançam, e são perseguidos pelo fantasma da esposa morta, a qual foram acusados de assassinar. Ainda por cima, um e outro aparecem em cenas parecidas, como ao lavar o atormentado rosto diante do espelho ou caminhar pelo costão de uma ilha.

O drama estrutura-se em três atos. No primeiro, DiCaprio/Cobb é contratado para uma missão inédita e dificílima. Ao invés de extrair, agora tem de inocular (“inception”) uma ideia na cabeça de um poderoso empresário. Para isso, precisa montar uma equipe de super-especialistas (já pensada para as continuações que certamente virão) e planificar tintim por tintim como invadir e manipular os vários níveis subconscientes da vítima. No segundo, o grupo executa o plano, não sem atravessar tiroteios, perseguições de carro, saltos, acrobacias, acidentes – tudo dentro do universo dos sonhos, claro. No terceiro ato, as sombras do passado de Cobb complicam o planejamento. O sonho vira pesadelo e, aí, o protagonista terá de descer aos níveis mais profundos e labirínticos da consciência para, auxiliado pelo fio de Ariadne, matar o monstro e voltar à realidade.

É o filme de ação mais complicado já visto: mistura de Vingador do FuturoCidade das Sombras, Johnny Mnemonic, Matrix Missão Impossível. Se o espectador se distrair, corre o risco de não recuperar mais a lógica da narrativa. É que a ação transcorre simultaneamente em muitas realidades paralelas, quer dizer, subconscientes interconectados, que se interferem mediante ondas de choque. Para complicar mais a brincadeira de Christopher Nolan, o tempo corre em velocidades distintas: quanto mais “interior” o sonho em que se está, mais devagar o tempo passa nas camadas “externas”.

Ante tamanha mixórdia, não à toa boa parte dos diálogos do filme é de explicações didáticas de como funciona a multinarrativa de vasos comunicantes. Daí se vê porque, se o conceito é a base de A Origem, consiste também em seu maior problema. Que é o problema mesmo de fazer um filme concentrado só num esquematismo, como já havia ocorrido com o diretor, em menor escala, em Memento. O diretor investe muito para complicar as coisas e demonstrar que uma história radicalmente intrincada pode caber num filme. Mas no processo esquece-se do resto.

Nunca o mundo dos sonhos criado com tão pouca imaginação. Em A Origem, nenhuma atmosfera estranha e maligna, tipo Lynch ou Tarkovski (em Solaris). Nenhuma busca da linguagem subconsciente, tipo Buñuel ou Resnais (em Ano Passado em Marienbad) ou Richard Linklater (em Waking Hour). No filme, o sonho nada tem de sonho: onde está o envolvimento surreal, onde está o perturbador, o irracional, o monstro… sobretudo, cadê o sexo? O filme até tenta compensar na arquitetura, com referência às escadarias “impossíveis” do artista M. C. Escher. Porém, de resto as construções também dormem no realismo: ortogonais, muito esquemáticas, dispostas em cubos e paralelepípedos.

Além disso, na construção dos personagens, só Cobb se salva. Nele, ainda se podem perceber ressonâncias hamletianas, com seus “sonhos maus” e suas “sombras de sombras”. O restante do time é achatado e não convence. Ariadne, por exemplo, sai da prosaica faculdade de arquitetura para se envolver numa trama insana — por quê? A esposa de Cobb enlouquece com a idéia fixa plantada pelo marido — mas como? Que dizer então das pessoas sonhadas? Não dá pra levar a sério “projeções” armadas com fuzis que surgem do nada e atiram quase à queima-roupa, mas sempre erram os membros da equipe. Enquanto estes as matam facilmente, na lógica do bucha, de antigos filmes de Stallone ou Schwarzenegger.

Para piorar, a montagem atabalhoada fracassa em sustentar o ritmo e, nos trinta minutos finais, perde o controle da narrativa no vórtice de dimensões paralelas.

Ficção científica que consegue ser mirabolante, mas sem imaginação; e complicada, mas sem complexidade. Faltou a simplicidade de um Philip K. Dick, como no conto A Cidadezinha, e sobrou o exagero esquemático de alguns livros de Isaac Asimov, como na trilogia da Fundação.

E, por último, por que raios um labirinto de contorno circular seria mais difícil de solucionar do que um quadrado?!

VEJA O TRAILER ]


leia mais
Lunar (DVD)
20 mil léguas de aventura

2 comentários | Dê sua opinião

  1. Pingback: Cacilda N.C.

  2. Flávio 05/12/2010 em 4:19 pm

    Parabéns pelo texto! O filme é mesmo muito ruim. Para quem espera de um filme mais que entretenimento, ‘A Origem’ não vale nem o preço da locação do vídeo.

    Responder

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

----- Consulte os arquivos do Amálgama ||| Publique ||| Contato ||| Para reproduzir nossos textos -----