O início da campanha na TV
por André Egg * – Nesta semana começou o programa de TV dos candidatos, no chamado “horário eleitoral gratuito”. Expliquei sobre o funcionamento disso e a distribuição do tempo entre os candidatos no meu blog. Agora quero fazer uma comparação sobre o primeiro programa dos três principais candidatos, e considerações sobre os rumos que a campanha deverá assumir na sua fase mais intensa.
Primeiro, é preciso que se diga que a campanha presidencial começou muito cedo, em certo aspecto, porque desde 2009 Lula já escolheu sua candidata, e está em campanha aberta por ela, sempre em dificuldades para posicionar-se dentro da complexa linha de proibições da nossa confusa legislação eleitoral. José Serra, por seu lado, está em campanha desde 2002, sendo que tudo o que fez desde então (inclusive não candidatar-se a presidente em 2006) deve ser visto como estratégia de campanha para as eleições presidenciais de 2010. Marina Silva também lançou-se candidata ainda em 2009, quando passou a receber ampla cobertura da imprensa, parte dela esperançosa de que sua candidatura pudesse causar dificuldades ao PT.
Mas, mesmo tendo começado cedo, a campanha não começou de verdade. Porque até semana passada só estavam ligados na campanha aquela parcela de eleitores que se informa por jornal e internet, e que se interessa por política. Pouco mais da metade do eleitorado masculino, mas menos de 30% do eleitorado feminino, a julgar pelos que declararam voto espontâneo nas pesquisas. Um parcela muito significativa do eleitorado não lê jornal nem se informa pela internet, e terá no horário eleitoral gratuito seu principal ponto de contato com os candidatos e suas campanhas.
Se Dilma já vem numa trajetória ascendente, e tem força para ganhar no primeiro turno, o início do horário eleitoral na TV e no rádio tende a ampliar seu favoritismo. Seus programas levarão a campanha ao eleitorado menos informado e de menor renda, que é bem mais favorável a Lula, mas que também é o que tem menos conhecimento do apoio do presidente à candidata. Ou seja, se Dilma já conseguiu se posicionar à frente numa fase em que a campanha ainda esteve limitada aos apaixonados por política, imagina-se que pode ir além ao atingir o eleitorado comum, mais lulista do que os “formadores de opinião”. Esse aspecto será reforçado pelo fato de que Dilma tem quase 11 minutos de tempo de TV, contra pouco mais de 7 de Serra e 1 e meio de Marina.
Outro fator a se destacar é a condução das campanhas. Pelo que observo, o staff mais profissional é o de Dilma. Tanto na construção da coligação e das alianças regionais, que reforçam sua candidatura, quanto na condução da campanha, imagem da candidata, programas de TV e rádio, etc. Serra vem tendo problemas terríveis para montar a coligação, cujo cúmulo foi o processo de escolha do vice, e soma problemas com os candidatos a governador de sua coligação (quase ninguém vai colocar o nome dele em material de campanha, por diversos motivos). Marina tem uma ótima campanha na internet, e capacidade de mobilizar o eleitorado mais sensível aos temas da sustentabilidade e da ética na política. Mas já vem demonstrando dificuldades de se postar em debates como o da Band, apesar de ter se saído muito bem em entrevistas como a do Jornal Nacional e a da Rádio CBN.
Assisti ao primeiro programa do eleitoral gratuito em vídeos disponibilizados na internet, que não consegui assistir ao vivo na TV. Os vídeos estão aqui: de Dilma, de Serra e de Marina. Assista e tire suas próprias conclusões, mas eu acho o seguinte:
O vídeo de Dilma foi muito bem produzido. Apostou na apresentação da candidata e de sua biografia, sem fugir do tema da sua participação na luta armada contra o regime militar. Avaliações muito interessantes quanto a esse aspecto do embate político já foram feitas pelo NPTO e pelo RS Urgente. Eu não teria mais nada a acrescentar, a não ser o fato de que lançar o tema já no primeiro programa foi uma estratégia inteligente, que esvazia a possibilidade de ataques. O vídeo também destaca a experiência administrativa e política de Dilma, sua participação no governo Lula, e sua proposta de continuidade das principais políticas de governo – um governo a cujos feitos ela sempre se refere como “nós fizemos”.

-- Favela cenográfica no programa de Serra --
O vídeo de Serra também é muito bem produzido, do ponto de vista das técnicas de vídeo, mas como estratégia política pode ter cometido alguns equívocos. Já vem sendo muito criticada a iniciativa da “favela cenográfica” usada como cenário de parte do programa. A aposta é na apresentação de Serra como administrador competente, e o candidato aparece em diversos lugares conversando com eleitores que elogiam seus feitos como ministro da saúde, prefeito ou governador. Se levarmos em conta que Serra não é nada tevegênico (tomem o neologismo), isso pode ser mais negativo do que positivo. Mas os programas de governo que foram apresentados como marca administrativa de Serra são bons, e podem ter grande apelo eleitoral. O tema principal é a saúde – apontada como principal preocupação do eleitorado, e um tema no qual Serra pode se contrapor de alguma maneira favorável em relação ao Governo Lula.
O vídeo de Marina Silva, com muito pouco tempo, dedicou-se unicamente à situação de destruição do planeta pelo homem, e à necessidade de reverter essa tendência. Caberia perfeitamente como um comercial do Green Peace. Me parece pouco para uma candidatura presidencial. Será muito interessante ver o que sua campanha conseguirá comunicar ao eleitor em 1 minuto e meio, mas eu arrisco que sua candidatura não tem muita chance de crescer através da campanha na TV. Terá que insistir mais na campanha pela internet e na militância pessoal.
Fazendo uma avaliação geral, eu diria que derrotar a candidata do Lula é uma tarefa inglória em 2010. Os temas de macro-economia certamente não tem no horário gratuito um espaço privilegiado, e as campanhas deverão focar em preocupações cotidianas do eleitor médio, com propostas mais diretas para as áreas de saúde, habitação, segurança pública e transportes. Eu gostaria de ver o tema da educação entrando em pauta, mas parece que esse assunto não interessa tanto o eleitor.
Outro aspecto interessante é a questão da infantilização do eleitor e da despolitização do discurso. No dizer de Marina Silva, a apresentação de Lula como pai e Dilma como mãe do povo brasileiro seria infantilizadora. Um intelectual como Marco Antonio Villa aponta para uma despolitização do discurso eleitoral. Villa afirma que o PT abandonou o discurso de classe. Eu diria que não – abandonou o discurso exclusivo de classes como o funcionalismo público, o operariado sindicalizado, a intelectualidade nacionalista de esquerda. Adotou o discurso de classe do trabalhador informal da periferia, do pobre desorganizado politicamente. As revindicações dessa gente são válidas e genuínas, e sua linguagem política não pode ser desprezada só porque não é a nossa. Aliás, eu diria mesmo que começar o programa de TV ligando o presente de conquistas sociais ao passado recente de luta contra o regime militar não é exatamente um discurso despolitizado.
* André Egg, Curitiba-PR. Blog: andreegg.opsblog.org.
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Belo artigo, André, mas acho que a crítica ao abandono do discurso de classe está correta; esse pobre abandonado aparece no discurso como alvo das políticas públicas, beneficiário do Estado; não como agente político.
O Vila erra ao atribuir a iniciativa dessa despolitização a Lula. O presidente apenas usou esse fator aeu favor. FHC também se vvendeu mais como “pai” (do Real) que como príncipe de alguma sociologia.
Noutro ponto o Vila também está equivocadíssimo: no uso de um batido lugar comum para fazer graça. Essa ideia de que o que só dá no Brasil e não é jabuticaba não pode prestar tem um nome: é a fracassomania, o mito de que soluções não testadas fora do país são um erro fadado ao fiasco. É termo cunhado pelo brilhante Albert Hirschman. Aliás, mentor de José Serra.
Valeu Sérgio. Elogio de você conta muito mais ponto
Eu também discordo muito do Vila. Acho que o discurso dele é que é um discurso de classe, nem parece análise de historiador. Aliás, ele vem fazendo isso, me parece, nos livros que escreveu sobre o governo Jango e a “revolução” de 32.
Eu acho que o Brasil, além da jabuticaba, tem soluções próprias e originais, excelentes, para muita coisa.
Se o PT ficasse no discurso de classe que tinha nos anos 90 seria um partido de oposição. E cumpriu um ótimo papel neste sentido. Mas Lula preferiu sair deste isolamento classista e atender demandas mais amplas.
O pobre como alvo das políticas públicas não é agente político? Não é lícito ele votar em quem vai beneficiá-lo? Os empresários fazem isso, os sindicalizados fazem isso. A questão é que a massa de pobres desorganizada só pode ser um agente difuso. Votou em FHC enquanto representava o fim da inflação. Votou em Lula e votará em Dilma enquanto representarem aumento do emprego, da renda, do crédio e da moradia.
Pra mim isso é discurso bem classista sim.
Agora, acho que é o caso de começar a pensar sobre como esse pessoal vai se comportar politicamente agora que está passando da pobreza à classe média. Esse seria o filão a explorar pelo PSDB, mas os caras estão sem estratégia.